A comunidade internacional estabeleceu um padrão de protecção dos direitos e liberdades individuais. A maioria dos países do mundo assinou os principais acordos que compõem o regime internacional legal dos di-
Figura 6.6 – Satisfação com a democracia em Portugal
Nota: Percentagens de pessoas. Fonte: BQD, Julho de 2011.
0 20 40 80
48
65
Pior/muito pior do que há cinco anos
Pouco/nada satisfeito
Funcionamento da democracia Satisfação com a democracia
Ekaterina Gorbunova e Filipa Raimundo
reitos individuais. Desde a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em 1948, a profundidade com que estes direitos têm sido estudados e monitorizados pela comunidade internacional cresceu de forma exponencial (Landman 2004, 907). Existem também vários sis- temas para a promoção e protecção dos direitos individuais ao nível re- gional, incluindo os espaços europeu, interamericano e africano. A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia8 (adoptada em Dezembro
de 2010) especifica claramente todos os aspectos da dignidade humana, liberdade, igualdade, solidariedade, cidadania e justiça, que se referem à dimensão substantiva da qualidade da democracia.
Para além disso, todos os direitos e liberdades mencionados são nor- malmente inseridos nas constituições dos países (especialmente países considerados democracias consolidadas). No caso português, os direitos à vida, à integridade pessoal, à identidade pessoal, à cidadania, à liberdade e à segurança, ao processo criminal, à presunção de inocência, à inviola- bilidade do domicílio e da correspondência, à família, ao casamento e à filiação, de deslocação e de emigração, de reunião e de manifestação, tal como as liberdades de expressão e informação, de imprensa e meios de comunicação social, de consciência, de religião e de culto, de aprender e ensinar, de associação, de escolha de profissão e acesso à função pública, entre outros, estão consagrados nos artigos 24.º-47.º do capítulo I, «Di-
reitos, liberdades e garantias pessoais», do título IIda Constituição da Re-
pública Portuguesa (7.ª revisão constitucional, 2005).9
O capítulo IIdo mesmo título (artigos 48.º-52.º) é dedicado especifi-
camente aos direitos, liberdades e garantias de participação política e o capítulo III(artigos 53.º-57.º) aos direitos, liberdades e garantias dos traba-
lhadores (ou seja, aos direitos e liberdades sociais, na nossa terminologia). Por sua vez, o capítulo Ido título III(artigos 58.º-79.º) abrange os di-
reitos económicos, sociais e culturais, como os direitos ao trabalho, dos trabalhadores e consumidores, à iniciativa privada, cooperativa e auto- gestionária, de propriedade privada, à segurança social e solidariedade, à saúde, à habitação e urbanismo, ao ambiente e à qualidade de vida, à fa- mília, direitos das crianças, jovens, cidadãos portadores de deficiência e cidadãos da terceira idade, direitos à educação, à fruição e criação cultural, à cultura física e desporto, entre outros.
8«Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia», Jornal Oficial das Comunidades
Europeias, C364/1, 18-12-2000.
9Disponível em http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepu- blicaPortuguesa.aspx. Consultado em 20-10-2012.
Direitos e liberdades e qualidade da democracia em Portugal
Parece inquestionável que os principais direitos e liberdades indivi- duas estão formalmente reconhecidos em Portugal. No entanto, apesar do crescimento e proliferação de instrumentos jurídicos para a protecção dos direitos e liberdades individuais, mesmo as democracias consolida- das, como Portugal, podem revelar uma disparidade entre a proclamação oficial e a implementação efectiva. De facto, os estudos produzidos na década de 90 sugeriam que Portugal estava longe de ser um caso exemplar no que dizia respeito aos direitos de cidadania (Benavente et al. 1997). Os abusos por parte do Estado e a passividade por parte dos cidadãos eram então vistos como os principais motivos para a reduzida qualidade da democracia portuguesa.
Ao teorizar sobre as razões pelas quais algumas democracias assegu- ram um maior respeito por estes direitos e liberdades considerados es- senciais, Morlino (2012) alerta para o facto de o maior problema residir no custo que muitos deles representam para a comunidade, especial- mente os sociais. Esta interpretação remete não só para uma avaliação dos recursos do Estado, mas também da ideologia predominante, no que diz respeito ao papel do Estado na sociedade. Morlino (2012, 214) sugere ainda que, ao nível das liberdades, uma democracia sem qualidade é uma democracia em que (a) há uma proliferação do reconhecimento formal dos direitos sem preocupação com a sua implementação e (b) existe re- conhecimento dos direitos sociais sem atribuição de subsídios.
Assim, para avaliar se os direitos e liberdades individuais estão asse- gurados na prática no caso português procedemos à triangulação dos re- latórios sobre direitos políticos e liberdade civis da FH, juntamente com os dados produzidos pelo «Democracy Barometer» – ambos com base em regras formais e dados objectivos – e os dados produzidos no âmbito do BQD em 2011.
A primeira ideia a reter é que a análise da FH sobre os direitos e liber- dades sociais e políticos em Portugal é, no essencial, consistente com os dados de opinião pública recolhidos pelo BQD, como teremos oportu- nidade de verificar na secção «O que pensam os portugueses». Por outras palavras, as liberdades que, de acordo com os relatórios da FH, se en- contram mais fortemente consagradas nas leis e na prática são também aquelas que os inquiridos consideram estarem mais garantidas. Em pri- meiro lugar, as liberdades que são melhor avaliadas são a liberdade de voto, a liberdade de religião e a liberdade de associação em Portugal. No caso da liberdade de voto, há a destacar pela positiva a alteração intro- duzida vinte anos depois da Constituição de 1976, que atribuiu o direito de voto e elegibilidade nas eleições autárquicas aos imigrantes oriundos
de países não pertencentes ao espaço europeu. Esta lei caracteriza-se por assentar no princípio da reciprocidade, que implica que o país de origem conceda o mesmo direito aos imigrantes portugueses. Importa, contudo, referir que este direito havia já sido concedido a cidadãos de países de língua oficial portuguesa mesmo antes de 1996. Entre os países lusófonos, Cabo Verde e o Brasil foram os únicos a aprovar o princípio da recipro- cidade, permitindo assim que os cidadãos cabo-verdianos e brasileiros residentes em Portugal pudessem usufruir do direito de voto nas eleições autárquicas antes de esse direito ter sido reconhecido aos restantes imi- grantes (Zobel e Barbosa 2011).
Apesar daquelas mudanças positivas – e seguindo a sugestão de Dia- mond e Morlino (2005) –, uma análise mais aprofundada sobre o direito de voto em Portugal poderia levar a uma interpretação diferente. Como sugere o estudo de Paulo Trigo Pereira (2008), analisando o número de partidos que compõem o sistema partidário português, a dimensão média do círculo eleitoral e os índices de proporcionalidade, poder-se-á dizer que o direito de voto em Portugal não está tão garantido quanto seria desejável, já que os eleitores não podem personalizar o voto nas eleições legislativas. Ou seja, se essa alteração fosse introduzida, Portugal poderia subir no índice da qualidade da democracia.
No caso da liberdade de religião, houve também evoluções positivas no âmbito legal desde a transição para a democracia, a começar pela apro- vação da lei da liberdade religiosa, em 2001, e, mais tarde, com a regula- mentação da assistência religiosa nas Forças Armadas, em hospitais e outros estabelecimentos do Serviço Nacional de Saúde e em estabelecimentos pri- sionais (introduzida por decreto-lei em 2009). A aprovação da lei da liber- dade religiosa é tida como um marco importante que consagra, por exem- plo, o direito aos funcionários públicos de, a seu pedido, suspenderem o trabalho no dia de descanso semanal, nos dias das festividades e nos pe- ríodos horários que lhes sejam prescritos pela confissão que professam (ainda que mediante o cumprimento de alguns requisitos definidos pela lei). Na sequência da aprovação daquela lei, foi também criada a Comissão da Liberdade Religiosa, que funciona como órgão independente do par- lamento e do governo, cujo objectivo é garantir a protecção daquele di- reito legal.10
Finalmente, quanto à liberdade de associação, a leitura dos relatórios da FH indica que não tem havido quaisquer obstáculos que prejudiquem
Ekaterina Gorbunova e Filipa Raimundo
10O sítio da Comissão da Liberdade Religiosa: http://www.clr.mj.pt/sections/home, consultado em 20-10-2012.
Direitos e liberdades e qualidade da democracia em Portugal
a qualidade da democracia. A lei permite a livre criação de associações, desde que estas não sejam de natureza militar, não tenham por fim incitar à violência e não assentem numa ideologia fascista. Outra excepção à lei são as associações internacionais, que, ao contrário das restantes, neces- sitam de autorização do governo.
Os restantes direitos/liberdades contemplados no inquérito do BQD foram avaliados de forma menos positiva pelos inquiridos, como veremos adiante, e parece haver algum fundamento para essa percep- ção. Relativamente à liberdade de pensamento e expressão, os relató- rios da FH revelam que algumas organizações de direitos humanos têm denunciado falhas no tempo de resposta a queixas, assim como na investigação, denúncias essas referidas pelo Departamento de Es- tado norte-americano em 2004 e replicadas pela FH em 2005. Ainda assim, seria de esperar uma avaliação um pouco mais positiva, visto não haver nenhuma referência a casos específicos ou a situações que possam pôr em causa a qualidade da democracia. Os relatórios da FH fazem ainda referência a denúncias feitas por diversos grupos de pro- tecção dos direitos humanos em relação a essa matéria, o que sugere que o direito a não sofrer abusos policiais poderá não estar tão garan- tido quanto seria desejável.11 O «Democracy Barometer» faz alusão a
acontecimentos específicos que terão justificado críticas e recomenda- ções por parte do Conselho da Europa.12Também o Departamento
de Estado norte-americano refere o abuso da força por parte das forças policiais naquela década. Por fim, os relatórios da FH mencionam o facto de a constituição garantir o direito à não discriminação, assim como o facto de a polícia não usar de força excessiva e uma preocu- pação por parte do Estado em combater a discriminação, nomeada- mente através da aprovação de legislação específica e da criação de ins- trumentos para promover a integração. No entanto, parecem existir relatos de situações de discriminação que, com o passar dos anos, pa- recem não ter sido eliminadas. Mais ainda, no relatório de 2008 é feita alusão à taxação de impostos considerados discriminatórios e a pro- testos nas ruas contra medidas governamentais consideradas racistas, o que parece sugerir que o direito a não ser discriminado poderá tam- bém não estar suficientemente garantido.
11V. também o relatório da Amnistia Internacional em http://www.amnistia-inter- nacional.pt/files/relatorioanual/RA_2012/Portugal_2012.pdf, consultado em 20-10- 2012.
12Os exemplos mencionados nos relatórios remontam, concretamente, a 1995 (o caso Duarte Teives) e a 2000 (o caso Álvaro Rosa Cardoso).
A figura 6.7 apresenta a evolução das liberdades individuais e esfera pública que constituem a dimensão «liberdades» do índice de qualidade da democracia em Portugal entre 1990 e 2007.33
Esta figura sugere, essencialmente, dois aspectos: por um lado, que, entre as dimensões «liberdades individuais» e «esfera pública», é a primeira que justifica a ligeira curva decrescente ao nível das liberdades em Portu- gal no estudo do «Democracy Barometer»; por outro lado, que os baixos valores são provocados pelos indicadores da esfera pública. Como vere- mos em seguida, estas conclusões são bastante diferentes dos resultados do BQD de 2011, que parece aproximar-se mais da análise feita pela FH.