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“ Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas ”

(Martin Luther King, 1963)

Esta frase encerra em si toda a intenção e alcance da alteridade, do interculturalismo, assim como o objectivo da educação intercultural.

A palavra alteridade possui o significado de um indivíduo se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação, e diálogo com o outro.

A questão da alteridade é indissociável da questão da interculturalidade, no sentido em que uma é a prática da outra, e a outra é o resultado contínuo da boa prática da primeira. Trata-se de conceitos gémeos, no sentido de andarem de mãos dadas, pois separados são inoperacionais.

33 - D. Catarina casou com Carlos II, em 1662. Seu dote incluía a cidade de Bombaim e de Tânger para o domínio britânico, pois Portugal, em busca de apoios contra Filipe IV de Espanha na Guerra da Restauração, a isso se comprometera pelo tratado de paz e aliança assinado com o rei inglês.

37 A prática da alteridade conduz da diferença à soma nas relações interpessoais entre os seres humanos revestidos de cidadania, e através da relação alteritária é possível exercer a cidadania e estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contrário, ou seja, quando sujeitos inseridos em ambientes multiculturais conseguem respeitar a diversidade cultural, através do intercâmbio, do respeito, da compreensão e do convívio pacífico, vivendo e aprendendo com os novos mapas da interculturalidade.

A não prática da alteridade, pelo contrário, é sinónima da desumanização do Outro, e esta equivale à anulação do Outro, fazendo com que ele não exista num plano igual ao nosso. A este respeito, existe, na dramaturgia inglesa, uma peça fenomenal, escrita por Shakespeare, que foi levada séculos mais tarde ao cinema34, e que demonstra na perfeição esta desumanização e a queixa do Outro perante o tratamento que lhe conferem35. A peça é o Mercador de Veneza, escrita entre 1594 e 1597, e cita-se o monólogo de Shylock (o agiota judeu), numa rua de Veneza:

[…] E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança […] (Shakespeare36).

34 - Em 1973, protagonizada por Lawrence Olivier (como Shylock), e mais tarde, em 2004, protagonizada por Al Pacino, no papel do agiota judeu.

35 - Desde finais do século XII, até finais do século XIII, que na Inglaterra, os judeus eram confinados e trancados em Ghetos, de onde saíam de manhã para trabalhar, e para onde voltavam ao entardecer, com hora de recolha, sob pena de morte. Além desta limitação, conta-se (até na própria Peça O mercador de Veneza) que os judeus eram muitas vezes humilhados em praça pública pelos cristãos. A Comédia O Mercador de Veneza foi escrita entre os últimos anos do século XVI, numa altura em que os judeus não estavam presentes em Inglaterra, pois tinham sido expulsos em 1290, e só viriam a ser readmitidos em solo britânico em 1655.

38 Através deste excerto d’ O Mercador de Veneza, podemos observar a forma singular e brilhante como Shylock, nas palavras de Shakespeare37, expõe a questão da humanização/desumanização do Outro, semelhante do cristão, mas estrangeiro, e por isso diferente – e por isso também, considerado inferior, ele e a sua cultura.

Este exemplo da ausência da prática da alteridade serve perfeitamente como ponto de partida para entendermos melhor a ideia de interculturalidade e o efeito da prática da alteridade.

A interculturalidade contém uma dinâmica de tolerância e de alteridade, de respeito pelos ritmos de aprendizagem diferentes do Outro, pela forma de ver o Outro – não como um objecto a estudar e a analisar, mas como um sujeito também capaz de perceber e repensar a sua própria cultura – em que a diferença deve ser a base de uma relação entre iguais.

Um princípio fundamental do entendimento do multiculturalismo, segundo Sidekum (2008), é que […] O outro está dentro, e não fora do nosso contexto cultural. […] (Sidekun).

Partilhamos deste entendimento e estendemo-lo à interculturalidade e à educação intercultural, porque o essencial aos nossos olhos deve ser o facto de o Outro existir no nosso contexto cultural, independentemente de convivermos bem ou não com essa presença. Assim, a educação intercultural interfere e trabalha precisamente o factor da aceitação da outra identidade, do outro ser, do Outro, através da alteridade, transformando em positiva a convivência e a coexistência culturais.

Sobre o entendimento da educação multicultural, que se apoia na prática da alteridade, Hanley, defende que […] Essentially, multicultural education is about change trough education. (…) Multicultural education harbors a place for a multitude of voices in a multicultural society and a place for many dreams […]. (Hanley: 199938).

No mesmo sentido, mas de uma forma mais específica, Peres, afirma, numa entrevista ao Jornal A Página da Educação, quando questionado sobre o alcance da educação intercultural:

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- Shakespeare é acusado, por alguns autores, de ter escrito esta comédia específica numa base anti-semitista, enquanto que outros autores elogiam o dramaturgo pela forma como ele entende o comportamento das pessoas na época, expondo assim os seus preconceitos e tirando partido dessa exposição para um melhor entendimento e aceitação do Outro.

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[…] eu descubro-me no Outro, e o Outro descobre-se em mim; (…) as realidades são plurais e diversas, mas eu posso desenvolver projectos em comum. E é isso que está implícito na concepção da educação intercultural - respeitar o outro, valorizá-lo e aprender com ele. Sem me colocar numa posição de superioridade, porque, efectivamente, todos podemos aprender uns com os outros […]. (Peres: 1999: p. 4).

Neste contexto, trazemos ainda à colação uma reflexão acerca do termo o Outro.

Abrindo um dicionário da língua portuguesa e um dicionário de sinónimos da mesma língua, e procurando a definição de Outro, deparamo-nos com uma situação interessante: a palavra – outro – tem a grandeza de ser uma antinomia, retendo em si duas verdades contraditórias. Outro, significa não ser o mesmo, como tal, aquele que é diferente, distinto. No entanto, entre os seus sinónimos encontramos também o semelhante e até mesmo o igual.

Efectivamente, podemos entender que a alteridade, ou outridade (porque é relativa à existência de Outro) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem interage com e é interdependente de outros indivíduos. Desta forma, e de acordo com uma visão mais antropológica, a existência do eu-individual só é permitida mediante um contacto com o Outro. De acordo com uma visão mais filosófica, podemos dizer que o eu apenas existe a partir do outro, da visão do outro, o que lhe permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto dele mesmo, sensibilizado que está pela experiência do contacto. Nesse sentido, a mentalidade intercultural está aberta a uma pedagogia do respeito pelo outro, como ser humano que também é – em tudo o que é corpo e espírito é igual a nós, e aberta a uma pedagogia para a igualdade e para a interacção de diferenças culturais.

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