2 HANS ASPERGER E A RELEITURA DE ASPECTOS TEÓRICOS-CLÍNICOS
2.2 O Reconhecimento Póstumo e a Verdade Desvelada
A psiquiatra britânica Lorna Wing tomou conhecimento do texto de 1944
após o marido John Wing, tê-lo traduzido para o inglês. Pouco antes da morte de
Asperger encontrou-se com ele em Londres, onde debateram a possibilidade de ser
a síndrome um tipo de autismo e a relação entre as ideias dele e as de Kanner, em
face de existirem muitas características em comum. Wing defendia a ideia de um
espectro, enquanto Asperger discordava deste modo de pensar, pois apesar das
semelhanças, considerou que a sua síndrome era diferente da de Kanner (DONVAN;
ZUCKER, 2016).
Em 1981, Lorna Wing publicou “Asperger’s Syndrome: A Clinical Account” [Síndrome de Asperger: Um relato clínico]. Nele, apresentou os casos de 1944 do austríaco lado a lado com descrições de crianças que ela vinha visitando, e mostrou como os garotos dos dois grupos correspondiam à descrição dos “psicopatas autistas” de Asperger. No entanto, sugeriu uma nomenclatura mais branda e bem-sonante. Notando que muita gente associava psicopatia a comportamento sociopata, declarou que, em seu artigo, “a expressão neutra síndrome de Asperger é preferível e será usada”. Com essa frase, lançou sem querer um novo e convincente diagnóstico que se propagaria por todo o mundo anglófono (DONVAN:ZUCKER, 2017, p. 326).
Embora a intenção de Lorna Wing fosse reforçar a ideia de Espectro
Autista, incluindo as várias nomenclaturas existentes dentro deste conceito, a
expressão que cunhou passou a ser usada como diagnóstico para milhares de
indivíduos ao redor do mundo, definindo uma condição diferente do Autismo de
Kanner, mesmo sem a nomenclatura existir oficialmente nos compêndios de medicina
até 1992, quando foi incluído no CID-10 da Organização Mundial da Saúde.
Em 1993, a Associação Americana de Psiquiatria discutia se deveria
incluir o diagnóstico no DSM-IV, levando-se em consideração, entre outros fatores, o
caráter do cientista. Durante a revisão do manual, dois experts da área, Donald Cohen
e Ami Klin, do Centro de Estudos de Yale, líder em pesquisa sobre o autismo nos
Estados Unidos, sob responsabilidade de Fred Volkmar, haviam suscitado uma
dúvida:
A questão sobre a qual ambos refletiam era se Asperger estava de algum modo envolvido com as atrocidades médicas atribuídas aos nazistas que governaram Viena. Eles sabiam que a medicina já tinha se envergonhado por não ter feito essa pergunta no caso de vários médicos e pesquisadores que haviam atuado sob o Terceiro Reich (DONVAN; ZUCKER, 2017, p. 332).
Naquele ano, o passado de Asperger ainda era pouco conhecido. Em
1991, Uta Frith havia publicado um apanhado de sua vida para acompanhar a
tradução dos escritos de 1944. Além disso, havia também uma tradução de uma
palestra de 1977, publicada dois anos depois na revista de uma organização britânica
de autismo, porém não houve uma ampla divulgação.
Em suma, Volkmar sozinho não podia obter muita informação acerca do austríaco e não contava com nenhum verdadeiro “especialista em Asperger” a quem recorrer. Foi nesse contexto que telefonou para Lorna Wing, a única pessoa que ele conhecia que estivera pessoalmente com Hans Asperger, e lhe fez a pergunta: Hans Asperger foi nazista na juventude? Lorna Wing engoliu em seco. “Hans Asperger nazista?” Volkmar pôde ouvir a sua indignação. Ela falou na profunda fé católica do médico austríaco e na sua vida dedicada aos jovens. “Nazista? Não”, disse Wing. “Não, não, não! Ele
era um homem muito religioso.” Foi uma conversa breve, mas resolveu o problema (DONVAN; ZUCKER, 2017, p. 333).
No desdobramento destes estudos, a publicação do DSM-IV, em 1994,
incluiu apenas dois novos distúrbios, o Transtorno Bipolar Tipo II e a Síndrome de
Asperger - dos noventa e quatro propostos para aquela edição do manual.
Encontrava-se aberto o caminho para o reconhecimento póstumo do
pediatra austríaco. Ami Klin, Fred Volkmar e a psicóloga Sarah Sparrow iniciaram em
1996 o projeto de um livro, cujo título seria “Asperger Syndrome”. Klin, como
descendente de judeus, achou necessário averiguar mais profundamente as relações
de Asperger com o regime nazista, e passou a escrever para arquivos e institutos da
Alemanha e da Áustria em busca de documentos e informações, o que produziu
escasso resultado. Mediante a recomendação de um professor da cidade de Colônia,
escreveu ao historiador austríaco Michael Hubenstorf, que dava aula no Instituto da
História da Medicina da Universidade Livre de Berlim.
Hubenstorf respondeu algumas semanas depois com uma carta de quatro páginas e um catálogo de cinco dos registros de carreira, promoções e publicações que havia reunido. A preocupação de Klin, escreveu, era justificada. Conquanto não tivesse encontrado nenhum indício de afiliação formal ao Partido Nacional-Socialista, Hubenstorf informou que “a carreira médica” de Asperger “se desenvolveu evidentemente em um meio de nacionalistas e nazistas alemães”, e que ele foi promovido regularmente dentro desse meio. Hubenstorf acreditava que o médico austríaco teria minimizado suas ligações anteriores com nazistas conhecidos, como o professor Hamburger, outrora seu mentor, que Hubenstorf classificou de “o pediatra nazista mais declarado de todos” (DONVAN; ZUCKER, 2017, p. 334).
Hubensdorf aconselhou-o a não publicar nada antes de fazer o máximo
esforço para esclarecer o passado de Asperger. Klin decidiu não seguir a
recomendação uma vez que não tinha uma “prova irrefutável” de que Asperger tivesse
cometido crimes médicos nazistas; possuía ainda, uma cópia do obituário do
austríaco, apresentando-o como um médico bom e meigo, dedicado às crianças. Da
mesma forma, a filha do pediatra, a psiquiatra Maria Asperger Felder defendeu-o,
escrevendo que seu pai discordava do determinismo racial dos nazistas, era inimigo
do sofrimento das crianças e jamais perdera o interesse de toda a vida e a curiosidade
por todas as criaturas vivas.
Essa era a história do médico bondoso que Klin esperava que se revelasse verdadeira. Em 2000, ele, Volkmar e Sparrow publicaram Asperger Syndrome, com prefácio da filha do pediatra austríaco. A versão “médico bondoso” de Asperger era muito atraente e concorreria para muitas avaliações de sua obra. Na verdade, uma narrativa extremamente positiva de Asperger como um homem de retidão moral ganhou relevo no novo milênio, alçando-o quase ao status de herói (DONVAN; ZUCKER, 2017, p. 334).
Muitas foram as manifestações positivas e homenagens de cientistas,
que o citavam em suas obras. Havia também as histórias convincentes de resistência,
que o próprio Asperger contava, como da vez que quase foi preso por se negar a
entregar nomes de crianças deficientes, assim como afirmações suas, claras e
conhecidas, do início do período nacional-socialista, defendendo o direito das crianças
mentalmente comprometidas de receber apoio da sociedade. O fato de ser católico,
portanto dogmaticamente contra a esterilização e a eutanásia, também teve influência
na construção da imagem idealizada de defensor das crianças e sabotador do regime
(FEINSTEIN, 2010; DONVAN;ZUCKER, 2016).
Mas eis que a verdade viria a ser revelada em poucos anos e marcaria
para sempre a biografia do pediatra austríaco. O episódio, relatado no livro “Outra
sintonia: a história do autismo” dos jornalistas americanos John Donvan e Caren
Zucker, merece a longa transcrição a seguir, por retratar a dramaticidade do momento,
o qual uma condensação não seria capaz de expressar.
Em maio de 2010, um acadêmico austríaco de voz suave entrou na prefeitura de Viena e se dirigiu ao salão nobre, o Wappensaal, no qual se realizava um simpósio em homenagem à memória de Hans Asperger. Aos 35 anos, Herwig Czech era historiador e professor na Universidade de Viena. Fora convidado a falar no simpósio pelos organizadores do hospital infantil de Viena em que Asperger havia feito o seu trabalho mais importante. Vários luminares da pesquisa do autismo estavam presentes, e a própria Lorna Wing chegaria à tarde. A especialidade acadêmica de Czech era o papel da medicina no Terceiro Reich; a marca registrada do seu trabalho, exumar as discrepâncias — em geral constrangedoras — entre os relatos de si próprios que os médicos apresentavam no pós-guerra e a sua conduta real durante o conflito. O interesse de Czech nessa área talvez estivesse ligado à sua consciência nascente, na infância, de que seu meigo e afetuoso avô tinha sido “um nazista
convicto”. Não se tratava de uma coisa sobre a qual o velho falasse abertamente, mas esse conhecimento pesou muito em Czech devido ao que ele estava aprendendo na escola a respeito das trevas daqueles anos. E foi esse conhecimento que o levou à prefeitura de Viena uns trinta anos depois da morte de Asperger. Diante dele, todos os presentes tinham nas mãos o programa do dia, cuja capa estampava uma fotografia em preto e branco do jovem dr. Asperger de jaleco e entregue a uma conversa profunda com um menino — ao que tudo indica um de seus pacientes. O título do simpósio aparecia acima da foto: “No rastro de Hans Asperger”. O evento tinha sido motivado pelo reconhecimento internacional crescente da obra do médico austríaco. Durante dois dias, os oradores examinariam a sua carreira e apresentariam avaliações das mais recentes descobertas científicas referentes à síndrome de Asperger. Os organizadores tinham sido informados antecipadamente de que Czech descobrira detalhes comprometedores relativos ao seu homenageado. Embora essa notícia não pudesse ser recebida com satisfação, eles o incentivaram, no espírito da investigação científica, a continuar procurando e a relatar o que porventura encontrasse. Mas quando se viu diante deles, Czech achou a situação um pouco embaraçosa: entre as 150 pessoas na plateia, achavam-se a filha de Asperger e alguns de seus netos. O título da palestra de Czech, impresso no programa, era “O dr. Hans Asperger e o programa nazista de eutanásia em Viena: Possíveis conexões”. O embaraço deu lugar à surpresa, depois ao choque, quando Czech, baseado no tesouro de documentos originais que havia escavado, se pôs a pintar um retrato de Asperger que deixava a narrativa heroica em ruínas. Havia, por exemplo, uma carta de 1941 que Czech encontrara no arquivo da Spiegelgrund — a instituição em que tantas crianças morreram de “pneumonia” depois de envenenadas com fenobarbital. Endereçada à administração da Spiegelgrund, a carta relatava a avaliação médica feita havia pouco tempo, no hospital da universidade, de uma menina chamada Herta Schreiber. A caligrafia era de Asperger. Herta tinha dois anos na época, a mais nova de dez filhos — dos quais cinco ainda moravam com os pais —, e passara toda a primavera doente, pois contraíra encefalite. Seu estado não parecia melhorar, e, em junho, a mãe a levou ao consultório de Asperger para que fosse examinada. A carta continha uma avaliação do estado de Herta. Era evidente que ela havia sofrido uma espécie de trauma grave no cérebro: seu desenvolvimento mental cessara, seu comportamento se desintegrava e ela estava tendo convulsões. Asperger se mostrou inseguro quanto ao diagnóstico. Apontou várias possibilidades: grave transtorno de personalidade, distúrbio convulsivo, idiotia. A seguir, em prosa simples, deu uma opinião decididamente não médica: “Em casa, essa criança deve ser um fardo insuportável para a mãe, que tem cinco filhos sadios para cuidar”. Tendo exprimido empatia pela mãe de Herta, apresentou sua recomendação: “Parece absolutamente necessária a internação permanente na Spiegelgrund”. A carta estava assinada “Hans Asperger”. Todos na plateia entenderam o significado daquela carta. Era uma sentença de morte. Efetivamente, Czech confirmou que Herta foi internada na Spiegelgrund em 1o de julho de 1941 e lá assassinada em 2 de setembro de 1941, um dia depois de seu terceiro aniversário. O prontuário registra que ela morreu de pneumonia. As anotações no arquivo do hospital mencionavam que a mãe, chorando muito, havia concordado que a filha estaria melhor assim do que vivendo em um mundo no qual enfrentaria o ridículo e a crueldade constantes. Czech calculava que os pais de Herta apoiavam as ideias nazistas. O efeito na sala foi fortíssimo. Enquanto ouviam, os presentes olhavam de esguelha para a fotografia de Asperger com o menino na capa do programa. Súbito, o caráter festivo do encontro tornou-se ferozmente descabido, quando Czech, em voz baixa e impassível, continuou dando outras notícias inquietantes do passado nazista. Em fevereiro de 1942, contou, Asperger foi o pediatra sênior representante da cidade de Viena em uma comissão formada para examinar o estado de saúde de 210 crianças austríacas internadas em um hospital da Baixa Áustria. Vários meses antes, o governo havia começado a tomar
medidas para aplicar leis educacionais obrigatórias até às crianças naqueles hospitais, contanto que fossem “educáveis”. Um painel de sete experts foi incumbido de compilar uma lista de nomes de internos que, apesar dos problemas mentais, deviam começar a frequentar aulas em instituições acadêmicas tradicionais ou de educação especial. Em um só dia, Asperger e seus colegas examinaram o prontuário das 210 crianças. Embora tivesse achado dezessete muito novas e 36 muito velhas para a educação compulsória, o painel definiu 122 como aptas para a escolarização. Restaram 26 meninos e nove meninas. Seu destino, explicou Czech, era conhecido, e ele acreditava que Asperger também o conhecia. Um resumo escrito especificando a composição, o objetivo e os procedimentos da comissão afirmava claramente que as crianças consideradas “ineducáveis” seriam “transferidas para a Ação Jekelius” o mais depressa possível. Quando isso foi escrito, Erwin Jekelius, ex-assistente de Franz Hamburger, o mentor de Asperger, era noivo da irmã caçula de Hitler, assim como diretor da Spiegelgrund. A “Ação Jekelius” era um eufemismo que os membros da comissão devem ter entendido muito bem. Asperger disse certa vez que corria “grande perigo” por se recusar a notificar crianças para as autoridades. Essa, obviamente, não foi uma das tais ocasiões. Czech também falou em descobertas que sugeriam uma afinidade maior entre Asperger e os nazistas do que o médico havia admitido. Segundo os arquivos que estes tinham dele, Asperger era reiteradamente considerado um austríaco em quem as autoridades nazistas podiam confiar, e cada vez mais com o passar dos anos. Sempre que pleiteava um cargo ou uma promoção, ele tinha seu pedido atendido como uma pessoa que, embora não fosse afiliada ao partido, acatava os princípios nacional-socialistas no exercício do seu trabalho. Em um caso, um funcionário do partido escreveu que ele “concorda com os princípios da política de higiene racial”. Nos anos posteriores à sua intervenção no simpósio, Czech descobriria outras provas do quão longe Asperger foi nessa concordância. Ele encontrou cartas com a caligrafia do médico austríaco, que usava “Heil Hitler” como saudação final. Isso não era obrigatório. Também descobriu uma solicitação de emprego preenchida com a letra de Asperger, em que ele se apresentava como candidato à Associação de Médicos Nazistas, um grupo que funcionava como o braço da política médica do partido e auxiliou no fechamento de consultórios de médicos judeus. Czech constatou ainda que Asperger havia se candidatado a consultor médico da divisão vienense da Juventude Hitlerista, embora não haja registro de que tenha sido aceito. Enfim, na opinião de Czech, Asperger teve o cuidado, durante a guerra, de salvaguardar sua carreira e polir “sua credibilidade nazista”. Pelo visto, fez o que era necessário. Naquele dia, Czech falou durante apenas vinte minutos na prefeitura de Viena. Então parou para responder às perguntas do público. Aproveitando esse intervalo, o dr. Arnold Pollak, diretor da clínica em que Asperger havia trabalhado durante grande parte da sua carreira, levantou-se de um salto, visivelmente agitado. Voltando-se para a sala, pediu a todos os presentes que se levantassem e fizessem um minuto de silêncio em homenagem às muitas crianças cujo assassinato havia muito esquecido; Herwig Czech lhes devolvera à memória. Todo o público se levantou e o acompanhou no silencioso tributo (DONVAN; ZUCKER, 2017, 340-344).