3 O CAMPO DAS ECONOMIAS SOLIDÁRIAS
3.2 O RECORTE DO OBJETO: ENTRE MOVIMENTO E FRAGMENTARIEDADE
Conforme como temos analisado se a totalidade ou unidade do objeto antropológico não é mais a de ser entendida como um campo delimitado espacial e simbolicamente, coerente internamente e funcional numa vida social como um todo, significa que temos um conjunto aleatório de fragmentos dispersos e sem sentido? Evidentemente que não. Recortar um objeto de análise significa recortar uma unidade dotada de sentido. Este sentido tem um componente problemático, com certeza não aleatório, mas tem diferentes meios metodológicos para constitui-lo. Retomando Magnani (2009) uma totalidade antropológica é aquela que
“experimentada e reconhecida pelos atores sociais, é identificada pelo pesquisador, podendo ser descrita em termos categoriais: se para aqueles constitui o contexto da experiência diária, para o segundo pode também se transformar em chave e condição de inteligibilidade”
(MAGNANI, 2009, p.10).
Trata-se de construir um objeto reconhecido e dotado de sentido numa dinâmica que abrange pesquisador, atores sociais e, eu acrescentaria ainda, a sociedade mais ampla.
O segundo passo é constituir categorias de análise direcionadas pela teoria social e antropológica. Foi árduo constatar que as categorias com as quais queria trabalhar no começo foram pouco a pouco se perdendo durante a pesquisa.
O que conta metodologicamente é que o recorte do objeto não apenas caracteriza a produção de conhecimento, mas toma forma pelas próprias escolhas metodológicas que fazem parte da experiência etnográfica como um todo, numa dinâmica complexa, mas construtiva que une e conecta diferentes atores e dimensões: o antropólogo, os atores sociais, o contexto social, a academia, a teoria antropológica.
O movimento de economia solidária é um movimento social e enquanto movimento precisa ser analisado.
Temos muitas reflexões que tratam de “movimento” metodológico nas pesquisas antropológicas da contemporaneidade. Conceitos como o de fluxos (HANNERZ, 1997, 1999), trajetórias (MAGNANI, 2009, 2002), etnografia nômade (DIOGENES, 1998) e o mais utilizado multisituado (MARCUS, 1998) são apenas alguns. Para Hannerz (1997), considerar os fluxos significa considerar as culturas, as ideias e os significados numa dimensão processual no espaço e no tempo, fugindo do risco de reificar o local e o presente sem considerar as suas conexões com o mundo, a história e a mudança. Para Magnani (2009) entender as trajetórias de um arranjo coletivo no meio urbano significa entender as estratégias de mobilização na cidade, os espaços estratégicos, a maneira de usufruir de serviços e de se encontrar ou trocar experiências uns com os outros, entendendo melhor assim sua configuração e sua identidade própria. Gloria Diógenes (1998), num sentido próximo ao de Magnani, busca metodologicamente acionar uma
“etnografia nômade”, ou seja, um olhar pesquisador que saiba visualizar e seguir os
movimentos da unidade pesquisada, entendendo melhor as dinâmicas urbanas, os usos dos espaços e os significados (sociais e políticos) que isso comporta. Finalmente Marcus (1998), que de alguma forma foi o grande pioneiro desta reflexão, nos indica a importância de se movimentar em diferentes lugares, não apenas com a intenção de estar e conhecer mais espaços físicos, mas, sobretudo, com a intenção de entender as razões desse movimento, transformando o “movimento” e seu significado no recorte mesmo do objeto de pesquisa.
Cada um desses autores, juntamente com os atores de economia solidária, me ajudaram a entender porque eu via o movimento como uma peça fundamental na minha pesquisa. Analisar e entender os deslocamentos e a ocupação de espaço dos atores da economia solidária foi fundamental para entender num sentido mais abrangente sua conformação, sua ideologia e sua ação social. Esclarecendo num nível mais concreto: o fato que os encontros da rede metropolitana sejam realizados na Faculdade de Filosofia do Recife - FAFIRE e os encontros das comissões organizadoras de eventos sejam realizados na Universidade Católica, não são dados neutros. Essas são escolhas estratégicas devido à vontade do movimento de estreitar relações com essas instituições através de um diálogo contínuo voltado à inclusão e ao envolvimento de estudantes, professores, associações acadêmicas à causa da economia solidária. O fato de que se procure organizar feiras solidárias dentro de shoppings e em outros espaços sociais da cidade também revela a intenção do movimento de sair do âmbito fechado de quem a pratica, envolvendo e “educando” a sociedade civil mais ampla e outras classes sociais à existência de uma “outra economia”. O fato de pessoas que têm pequenas produções em suas próprias casas ou em espaços do próprio bairro, normalmente definidos periféricos ou marginais, saiam para participar de encontros em instituições importantes do centro da cidade ou que possam discutir suas experiências nas salas da Assembleia Legislativa da cidade, ou em Brasília, é um fator importante no projeto democrático e político do movimento. O fato de que os militantes do movimento de Recife organizem reuniões via teleconferência com os militantes de todas as grandes cidades brasileiras, trocando ideias e experiências uns com os outros e organizando ações coletivas, também é algo fundamental na conformação do que é e será o movimento de economia solidária (GRITTI, 2012). Por fim, o fato de que as mesmas referências da experiência de Recife sejam utilizadas e intercambiadas com a experiência de Milão, na Itália, para a própria conformação local da economia solidária também nos traz uma concepção metodológica onde o movimento, os fluxos e o nomadismo se tornam parte central do recorte.
Apresentei apenas alguns casos em que a dimensão da dinâmica resulta ser metodologicamente e epistemologicamente fundante na pesquisa do movimento de economia solidária. Visualizando os espaços (físicos ou simbólicos) e o que é feito nesses espaços se torna mais inteligível o projeto ideológico, econômico e político do movimento.
A questão exposta acerca da problemática de se encontrar uma totalidade/unidade em arranjos coletivos como os movimentos sociais se depara neste estudo de caso com um obstáculo: a fragmentariedade própria da economia solidária.
Apesar de ser importante a auto definição na conformação identitária do movimento feita pelos atores, não é possível negar que a multiplicidade de ideias e práticas, às vezes muito diferentes umas das outras lhe conferem, a partir de um olhar externo, uma dose de ambiguidade e de incoerência. Esses elementos estão à base de muitas críticas feitas tanto ao movimento quanto aos pesquisadores que já se dedicaram ao estudo de economia solidária, acusados frequentemente de serem românticos e ingênuos em suas análises. Um dos mais convencidos entre esses críticos tem elaborado um livro no qual desconstrói ponto a ponto o conceito de economia solidária proclamando a evidente inconsistência do mesmo (WELLEN, 2012). Um dos pontos fundantes dessa crítica consiste na extrema fragmentariedade das ações e na inexistência de um programa ou ideologia comum. Apesar da sua análise não ser fundada numa pesquisa empírica e apesar de considerar apenas um dos universos de economia solidária (o cooperativismo), acreditei que o desafio lançado pelo autor fosse merecedor de reflexão.
Como argumentado anteriormente o recorte do objeto de pesquisa, para manter coerência científica, precisa ser reconhecido tanto pelos atores sociais, quanto pelo antropólogo, mas, também, e não menos importante, pela sociedade mais ampla e isso compreende também outras perspectivas acadêmicas ou não. A fragmentariedade do movimento é algo visível para quem o observa de fora e, para ser mais precisa, é também um fato reconhecido pelos próprios atores. Fragmentariedade é entendida aqui em pelo menos dois sentidos: primeiramente pela quantidade de experiências muito diferentes umas das outras (cooperativas, pequenos empreendimentos, feiras, clubes de trocas, moedas sociais, bancos comunitários, agricultura familiar, fundos rotativos, microcrédito etc); num segundo sentido podemos entendê-la como fragmentariedade ideológica e política, pois todas essas experiências têm lógicas próprias de funcionamento e, mesmo vislumbrando um objetivo geral em comum, frequentemente não se relacionam entre si e agem seguindo suas próprias trajetórias.
Gera-se dessa maneira o que poderíamos chamar, retomando criativamente o termo de um dos maiores estudiosos do assunto, Euclide Mance (2008), uma constelação solidarius. Isto não é uma contradição. Simplesmente porque desde que todos esses atores se considerem parte de um único movimento e tenham constituído uma identidade muito forte, muitas ações no nível concreto permanecem localizadas em pequenas realidades às vezes colaborando com outras, às vezes, simplesmente, não. Isto criaria o que é criticada como sendo a fragilidade da sua ação política.
A partir disso acredito ser interessante remontar a reflexão metodológica com a qual poderia se analisar o movimento de economia solidária, concluindo assim este primeiro eixo. Considerar metodologicamente tanto a unidade em movimento do objeto de pesquisa quanto
sua fragmentariedade poderia ser uma proposta. A contradição aparente entre essas duas abordagens é resolvida no momento em que ambas foram e serão desenvolvidas a partir da relação antropólogo – atores sociais – sociedade mais ampla. Não é obrigatório pensar que a fragmentariedade tenha que ser algo extremamente negativo ou até que anule a consistência de um movimento que ganha sempre mais seguidores e militantes.
Segundo alguns atores da rede de Recife, isto é, verdadeiramente, uma força: a capacidade de ter vários e diferentes instrumentos e ideias permite se moldarem de maneira mais fácil em diferentes contextos, áreas e realidades. Por outro lado, há uma dimensão crítica, sobretudo inerente ao projeto político que está fazendo parte das discussões, dos debates e dos desafios do movimento. O problema da fragmentariedade poderá ser então um desafio metodológico tanto para a pesquisadora como para os atores do movimento, numa perspectiva de entender o que se trata, quais os efeitos e, por último, se precisa ou não se reconfigurar a partir disso.
Considerar tudo isso dentro de uma dinâmica processual que visualize também os movimentos espaciais e simbólicos será então uma estratégia metodológica voltada a uma melhor compreensão de uma realidade assim importante para muitas pessoas, principais guias nesta peculiar experiência etnográfica.
Quem sabe o objetivo último possa ser o de ir além de uma das muitas dicotomias próprias dos estudos antropológicos: a dicotomia discutida entre a coerência e totalidade dos objetos clássicos e o mundo em fragmentos pós-moderno.
Como é possível então construir uma totalidade, uma unidade dentro do objeto de pesquisa? Como fazer um recorte dentro dos infinitos desdobramentos de um movimento tanto local quanto internacional, tanto urbano quanto rural? Magnani (2009) sugere a possibilidade de reconhecer como totalidade do objeto o que os atores consideram como totalidade, nas experiências cotidianas. Sugere também estudar o objeto em seu movimento, seus arranjos coletivos e circuitos e trajetórias nos espaços. Na primeira fase de conhecimento do Movimento, consegui traçar algumas trajetórias. Os espaços do movimento de economia solidária são muitos e variados: têm os espaços das reuniões, os espaços da comercialização, os espaços da divulgação, as empresas solidárias, têm as comunidades dentro das quais atuam.
A complexidade pode parecer incontrolável se a todos esses espaços adicionarmos também um olhar comparativo transnacional com todo outro contexto e suas atividades.
Neste quadro de elementos espaciais, circuitos, territórios, relações socioeconômicas, relações do movimento social e das instituições a nível local, nacional e global, gera-se uma complexidade necessária ao entendimento da “totalidade” (MAGNANI, 2009) do meu objeto
de pesquisa. O olhar nômade (DIOGENES, 1998) é a estratégia metodológica que será utilizada, tentando dar conta do movimento, das dinâmicas e dos diferentes níveis de atuação.
O que dará ordem a tudo isso e então definirá o recorte objetivo da pesquisa serão as lentes antropológicas utilizadas.
Primeiramente uma perspectiva actor oriented, ou seja, guiada pelos atores que fui encontrando nesta trajetória de pesquisa, e que trazem três diferentes perspectivas sobre economia solidária como objeto, conforme será apresentado no Capítulo 2: a produção acadêmica, a visão das instituições governamentais e do estado e a visão dos militantes/empreendimentos econômicos solidários.
Em segundo lugar a análise terá espacialmente um foco definido: a experiência da Rede de Recife e região metropolitana (cujo significado e definição veremos em breve) e a experiência italiana de Milão/Brianza que entrará constantemente no trabalho, no intuito de problematizar os movimentos globais e locais através de um olhar transversal.
Por último, o recorte do objeto será definido por três categorias nativas/analíticas cujo uso dotou de sentido tudo o que foi observado e todo dado coletado ao longo da pesquisa: economia, política e cultura como forma de viver. Essas categorias podem parecer demasiado amplas ou genéricas, mas tentarei demonstrar o quanto elas se apresentam como categorias nativas fundamentais no entendimento do movimento social de economia solidária conferindo a mesma densidade de significado que os atores que encontrei conseguiram transmitir.
3.3 UM MOVIMENTO EM REDE: APROXIMAÇÃO A ECONOMIA SOLIDÁRIA NA ITÁLIA E NO BRASIL
Os sujeitos sociais mudaram, assim como as relações sociais e os acontecimentos locais e globais. O interesse da antropologia, juntamente com o contexto histórico político foi, igualmente, mudando. O “campo” não é um espaço físico delineado, unitário e englobante como podia ser a aldeia da época de Malinowski. Morar na aldeia e conhecer sua totalidade não é mais a única forma de viver o campo. A moradia, a tenda no centro da aldeia, é hoje vivida de muitas formas, conforme uma maior liberdade de escolhas metodológicas e de recortes de objetos.
O recorte do objeto, ou seja, o ponto de vista, a perspectiva, consiste na escolha do que é importante para o pesquisador no estudo da alteridade e, às vezes, do que é importante para a
alteridade também mesma do que é importante para ela. A cultura como todo, o objeto inteiro, o “povo”, não são mais objetivos inquestionáveis para um estudo do mundo contemporâneo.
Trata-se não apenas de uma simples “moda intelectual” ou uma simples crítica estética. Esta reflexão implica uma mudança estrutural da metodologia e epistemologia antropológica e, em parte, foi uma necessidade que nasceu da vivência no estudo de “campo”: do mundo globalizado, tecnológico, interconexo, politicamente envolvido e das culturas viajantes, processuais.
Nessas novas consciências que tentei esboçar, sem querer nem poder me aprofundar demais, nasceria o assim chamado “mal-estar” do antropólogo contemporâneo (PACHECO DE OLIVEIRA, 2009). Neste caso, se a “cultura” não é mais algo dado e inquestionável na pesquisa antropológica, se o “nativo” não é mais definido a priori e se até o “campo” não é mais geograficamente ou visivelmente perceptível, o que será então o objeto de estudo e a metodologia de pesquisa?
O objeto de estudo constitui-se em cada experiência de pesquisa como uma escolha epistemológica e metodológica de sentido e a ser refletida. Não falaremos mais dos “Nuers”, ou “dos Pancararu”, ou dos “recifenses”. A cultura é hoje um recorte, dotado de sentido científico dentro de sua própria concepção na produção de conhecimento. Num texto ao qual devo muito das minhas reflexões metodológicas, Magnani (2009) nos traz como elemento de reflexão de um cenário específico, o brasileiro, os processos concretos de recorte do objeto de pesquisa. Novos atores sociais e políticos ganham espaço e a antropologia pós anos 70 apresenta um instrumental apto, mesmo que ainda pouco explorado, em acompanhar o entendimento das mudanças na sociedade, especialmente nos contextos urbanos. Este instrumental é constituído segundo Magnani por uma estratégia própria da metodologia antropológica:
Um investimento em ambos os polos da relação: de um lado, sobre os atores sociais, o grupo e a prática que estão sendo estudados e, de outro, a paisagem em que essa pratica se desenvolve, entendida não como mero cenário, mas como parte constitutiva do recorte da análise.” (Magnani, 2009, p.4)
Constituiria então na possibilidade de entender os acontecimentos de perto e de dentro, a partir dos atores sociais, mas ao mesmo tempo de fora tanto no contexto mais amplo no qual está inserido, assim como, acrescentaria eu, a partir da experiência intelectual e prática do pesquisador.
Magnani (2009) também aponta para outro elemento fundamental sobre as atuais dificuldades do recorte do objeto antropológico: o conceito de totalidade. Qual seria, neste novo contexto urbano e contemporâneo, a unidade ou totalidade do objeto de pesquisa?
A partir desta pergunta, a reflexão se direciona à metodologia do meu próprio objeto de pesquisa: o movimento de economia solidária de Recife e de Milão/Brianza. A metodologia de um trabalho de pesquisa antropológico é o véu que se interpõe entre a abordagem teórica escolhida e a realidade empírica a ser pesquisada.
Se, no caso da reflexão teórica deste trabalho, cultura não se dá como objeto explicativo em si, mas em seus desdobramentos processuais dentro de dinâmicas simbólicas, econômicas e políticas, como se poderia definir então o objeto? Não será aqui apresentada a cultura do grupo X ou a cultura do lugar Y, mas um processo cultural/econômico/político transversal à sociedade, tanto localmente quanto globalmente. Mas, se é verdade que todo trabalho científico de alguma forma tem que dar conta de um objeto específico, ou de uma “totalidade”, se assim podemos defini-la, como apresenta-la então para fins analíticos? Dentro de um campo que propõe elementos espaciais e ideológicos, circuitos, relações socioeconômicas, relações do movimento social e das instituições a nível local, nacional e global, se gera uma complexidade onde encontramos muitos desafios metodológicos até chegar à apresentação de uma “totalidade” do objeto de pesquisa.
A noção de rede está se tornando um importante instrumento de análise nas ciências sociais e no caso desta pesquisa a rede se apresenta como possível caminho de recorte de objeto. Antes desta escolha houve uma primeira tentativa de aproximação do objeto realizando uma análise com base territorial, concretizada na organização local de atores do bairro de Santo Amaro no Recife, que vislumbravam a elaboração de um projeto de banco comunitário. Contudo, este caminho teórico-metodológico com o tempo se tornou inviável.
O conceito de cultura, na abordagem antropológica deste trabalho, se apresenta como um processo em construção contínua determinado pela agência intencional (no caso do movimento social) dos atores. Desta forma, ele traz consigo a problematização de um estudo com base territorial. Isto porque “território” neste caso específico representava uma dimensão voltada para configurações fechadas dos acontecimentos socioculturais, referindo-se a um campo espacialmente e empiricamente definido. Com isso não se quer excluir a possibilidade de analisar relações socioeconômicas definidas de economia solidária dentro do conjunto de relações histórico-políticas mais abrangentes da vida de uma suposta “comunidade”. Análises deste cunho bem-sucedidas já existem (LOPES, 2014), trazendo olhares inovadores e originais. Neste específico trabalho de pesquisa de campo, contudo, o “território” da “comunidade” não
respondia àquelas que eram as perguntas que mais direcionavam a escolha do objeto, ou seja, um possível entendimento da criação de um “novo” movimento social a partir de suas práticas de constituição processuais (CAVALCANTI, 2014). O projeto de criação do banco comunitário na comunidade de Santo Amaro de Recife, que foi colocado como ponto de partida da pesquisa, não foi implementado. Mais importante é que a não concretização do projeto implicou dinâmicas mais amplas que saíam da dimensão territorial local para conectar-se a toda uma série de outros atores, lugares e processos parte da economia solidária local.
O campo e o objeto deste trabalho não são inscritos em um território fixo e limitável. O contexto urbano e a conformação própria do movimento social não permitem este tipo de abordagem (MAGNANI, 2009; DIOGENES, 1998; GUBER, 2004). Pensando em ter que descrever o campo, a preferência é para representá-lo como um campo relacional, feito por pessoas e relações (MARCUS; FISCHER, 1998). A natureza do campo deste estudo é caraterizada por uma dimensão de diálogo e relações que superam a dimensão bidimensional do espaço, transmutando-se em processos multisituados em configuração de rede.
Os próprios participantes do movimento de economias solidárias locais se identificam com o conceito de rede. Outro termo utilizado pelos participantes quando falam de si mesmos é o de “movimento”. Provavelmente utilizado apenas como diminutivo de “movimento social de economia solidária”, nos transmite a sua dimensão dinâmica e a construção processual da ação. Também expressa o elemento de conflito que o caracteriza, tornando-se um movimento de mudança e conflito na sociedade (ESCOBAR; ALVAREZ; DAGNINO, 2000).
Mas na imagem da rede encontramos simbolicamente a dimensão relacional e a