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3.3 A intencionalidade psicológica

3.3.1 O reducionismo fisicista da mente psicológica

Explicações funcionais são inteiramente coerentes com uma explicação redutiva fisicista (CHALMERS, 1996, p. 44). Nessa abordagem, os fenômenos mais diversos – como reprodução, aprendizagem, aquecimento, por exemplo – são caracterizados em termos da performance de algumas funções, as quais devem ser interpretadas causalmente não teleologicamente (CHALMERS, 1996, p. 44). Disso “[s]egue-se que, uma vez que tenhamos explicado como essas funções são desempenhadas, então explicamos os fenômenos em questão” (CHALMERS, 1996, p. 44). Como exemplo, aprender é, grosso modo, ter suas capacidades comportamentais adaptando-se apropriadamente em resposta aos estímulos ambientais (CHALMERS, 1996, p. 44) e “comportamento pode ser explicado em termos fìsicos” (CHALMERS, 1996, p. xiii). A princípio, é esperado que possamos caracterizar as funções relevantes fisicamente, e “uma vez que os fatos relevantes sejam considerados, uma história sobre causação física no baixo nível irá explicar como que as funções relevantes são executadas, e irá portanto, explicar o fenômeno em questão” (CHALMERS, 1996, p. 44, grifos do autor)48:

48

Veremos em detalhes na subseção 6.7.1 que essa redução do funcionalismo ao fisicismo/materialismo é, no mínimo, contestável.

Com isso em mente, podemos formular precisamente a doutrina amplamente difundida do materialismo (ou fisicismo), que é geralmente compreendida como sustentando que tudo no mundo é físico, ou que não há nada além do físico, ou que os fatos físicos, em certo sentido, esgotam todos os fatos sobre o mundo. Em nossa linguagem, o materialismo é verdadeiro se todos os fatos positivos sobre o mundo são globalmente logicamente supervenientes aos fatos físicos. Isso captura a noção intuitiva de que, se o materialismo é verdadeiro, então, uma vez que Deus fixou os fatos físicos sobre o mundo, todos os fatos foram fixados [...] (ou pelo menos todos os fatos positivos). [...] De acordo com essa definição, o materialismo é verdadeiro se todos os fatos positivos sobre o nosso mundo são implicados pelos fatos físicos. Ou seja, o materialismo é verdadeiro se, para qualquer mundo logicamente possível

W que é fisicamente indiscernível do nosso mundo, todos os fatos positivos são

verdadeiros sobre W.

O materialismo/fisicismo é estabelecido mesmo admitindo a ideia de superveniência, segundo a qual “um conjunto de fatos pode determinar completamente outro conjunto de fatos” (CHALMERS, 1996, p. 32), sem com isso ser possível a identificação dos primeiros fatos aos segundos. Por exemplo, “a aprendizagem pode não ser redutìvel no sentido em que não podemos identificar a aprendizagem com qualquer fenômeno especìfico de nìvel inferior” (CHALMERS, 1996, p. 43) ou ainda, apesar de fatos biológicos a respeito de um elefante sobrevirem logicamente aos fatos microfísicos eles não são fatos microfísicos (CHALMERS, 1996, p. 41). Assim, mesmo que argumentemos que os estados mentais psicológicos emerjam a partir no físico – sem necessariamente poderem ser logicamente idênticos aos elementos físicos primitivos – estaremos aceitando o fisicismo, desde que assumamos que a física de baixo nível determina completamente os estados mentais psicológicos. De uma maneira mais precisa, “a fìsica postula uma quantidade de aspectos [features] fundamentais do mundo: espaço-tempo, energia-massa, carga, rotação [spin], e assim por diante. Ela também postula um número de leis fundamentais em virtude das quais esses aspectos fundamentais são relacionados” (CHALMERS, 1996, p. 126). A partir dessas leis, é possìvel determinar as propriedades de nível mais alto. Isso significa dizer que, uma vez dados certos fenômenos físicos, não há possibilidade dos fenômenos mentais deles emergentes não ocorrerem.

Essa relação de determinação necessária entre os fatos microfísicos e os fatos que se quer explicar torna possível uma explicação redutiva fisicista destes últimos49. A explicação

redutiva deve ser entendida como “uma explicação totalmente em termos de entidades mais

simples. Nesses casos, quando damos uma explicação apropriada dos processos de nível inferior, uma explicação do fenômeno de nìvel mais alto desaparece” (CHALMERS, 1996, p.

49

“A epistemologia da explicação redutiva conflui com a metafísica da superveniência de maneira direta. Um fenômeno natural é redutivamente explicável em termos de algumas propriedades de baixo nível precisamente quando é logicamente superveniente a essas propriedades. Ele é redutivamente explicável em termos de propriedades físicas – ou simplesmente „redutivamente explicável‟ – quando é logicamente superveniente no fìsico” (CHALMERS, 1996, p. 47-48).

42). “Uma vez que tenhamos contado a história do nìvel inferior com detalhes suficientes, qualquer senso de mistério fundamental desaparece: os fenômenos que precisavam ser explicados foram explicados” (CHALMERS, 1996, p. 42). Assim, uma explicação redutiva

fisicista é uma explicação de um fenômeno em termos físicos mais fundamentais50. Apesar de ser redutiva:

Uma explicação redutiva de um fenômeno não precisa exigir uma redução desse fenômeno, pelo menos em alguns sentidos desse termo ambíguo. Em certo sentido, fenômenos que podem ser percebidos em muitos substratos físicos diferentes – aprendizagem, por exemplo – podem não ser redutíveis no sentido em que não podemos identificar a aprendizagem com nenhum fenômeno específico de nível inferior. Mas essa múltipla realizabilidade não impede que se explique redutivamente qualquer instância de aprendizagem em termos de fenômenos de nível inferior. (CHALMERS, 1996, p. 43, grifos do autor)

Nesse sentido, parece plausível atribuir ao autor um reducionismo fisicista epistemológico, mas não ontológico. Esse é o sentido em que utilizaremos a expressão “reducionismo fisicista” e suas derivadas.

Chalmers acredita que essas noções de – superveniência lógica e explicação redutiva – são utilizadas para explicar todos os fenômenos naturais, exceto a fenomenalidade (CHALMERS, 1996, p. 43). Incluindo os fenômenos biológicos: “Uma vez que Deus (hipoteticamente) se certificou de que todos os fatos físicos em nosso mundo existissem, os fatos biológicos vieram junto de graça” (CHALMERS, 1996, p. 41).

Os fatos físicos sobre o mundo parecem determinar os fatos biológicos, por exemplo, uma vez que todos os fatos físicos sobre o mundo são fixados, não há espaço para os fatos biológicos variarem. (Fixar todos os fatos físicos fixará simultaneamente quais objetos estão vivos.) Isso fornece uma caracterização aproximada do sentido em que as propriedades biológicas sobrevêm às propriedades físicas. (CHALMERS, 1996, p. 32-33)

Todas essas reduções – dos estados mentais aos seus papeis na economia cognitiva, dos papeis da economia cognitiva ao funcionalismo, do funcionalismo à descrição puramente causal não teleológica, da descrição causal não teleológica ao fisicismo – podem ser, e muitas vezes são, contestadas ao longo da história da filosofia e das ciências em geral. Chalmers, no entanto, as postula como a visão hegemônica acerca do mundo natural, enquanto o

50

Embora Chalmers pareça defender tacitamente que, idealmente, uma explicação redutiva fisicista deva chegar ao nível microfísico (e.g. CHALMERS, 1996, p. 33; p. 93; p. 35; p. 41; p. 71), o autor explicitamente reconhece que essa é uma tarefa muito difícil e que, geralmente, a explicação redutiva de um fenômeno é dada em termos apenas ligeiramente mais básicos (CHALMERS, 1996, p. 50).

enativismo, como veremos, nos capítulos 5 e 6, discorda de, e oferece argumentos contra,

algumas delas.

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