2.1 A Análise do Discurso
2.2.8 O Reenquadramento do Real
Nas situações em que o recurso aos valores, aos pontos de vista, à autoridade aceita implica em uma retomada de um mundo conhecido, comum, que serve imediatamente de ponto de referência, o reenquadramento do real implica em uma novidade, um deslocamento, um outro olhar.
O reenquadramento não ataca o problema de frente, mas o contorna e o aborda de uma outra maneira.
Esta categoria de argumentos implica em uma novidade para o auditório. Eles o colocam num mundo no qual espontaneamente o auditório não pensara e onde seus pontos de referência habituais não funcionam, mesmo que os “elementos” que compõem este novo mundo sejam conhecidos separadamente.
Para ‘Watzlawick, “um reenquadramento só tem sucesso se levar em conta às opiniões, expectativas, razões, hipóteses, em outras palavras, se levar em
conta o quadro conceitual das pessoas cujos problemas se modificar”. (1975, p.125, apud BRETON, 1999, p. 95).
Dando continuidade à sua teoria, Breton (1999) nos ensina que os argumentos de enquadramento são classificados em três categorias: os de definição; os de apresentação e os de associação-dissociação.
A definição consiste em fazer aceitar um encerramento, um “acabamento”. Constitui um instrumento preciso de reenquadramento. Como podemos ver, pelo exemplo dado, o emprego de uma definição e a tentativa de impô-la como quadro de referência para avaliar o real não implica em que não existam outras definições possíveis.
O argumento de definição é uma construção do real usada para argumentar.
A definição argumentativa se trata neste caso de apresentar o que é definido sob um ângulo propicio à argumentação, sem que com isso se esteja enganando o auditório. Uma definição argumentativa que se apresenta como uma definição normativa ou descritiva eleva o auditório a crer nesta confusão é manipulação.
Definir, para o homem de hoje, é um elemento chave de reenquadramento do real, que implica em uma certa criação, ao menos em uma escolha entre situações possíveis fundamentais.
Nas palavras de Breton (1999), os argumentos por apresentação podem aparecer por Inúmeros argumentos de vínculo, sobretudo pela analogia ou pelo exemplo, que se apóiam em uma representação prévia do mundo. Esta representação não autoriza automaticamente o vínculo e não é, tampouco, uma condição necessária para sua existência. Mas a argumentação só funciona porque este enquadramento é lembrado, mesmo que seja, alusivamente, como no caso das metáforas da coragem, cujo símbolo é o leão, ou da submissão, cujo símbolo é o carneiro. Essas alusões fazem apelo a um fundo comum de narrativas populares.
A lógica dos argumentos que se utilizam da descrição está no raciocínio de que um elemento pode ser assim isolado e qualificado como sendo um “fato” suscetível, então, de observação, de testemunho, de prova, de transcrição em linguagem cifrada. Deste modo, o argumento de probabilidade, que não tem nada a ver com as estatísticas, insiste em uma suposta regularidade do real, que foi isolado para a ocasião.
O argumento de qualificação depende da apresentação dos fatos. Qualificar um ato isola algumas de suas propriedades. O limite do argumento de qualificação é que ele deve remeter a uma justificação suposta e não ser uma simples afirmação gratuita, escolhida por sua adequação com a argumentação em curso.
Perelman (1988) lembra que “para criar a presença é preciso insistir longamente em certos elementos que não são duvidosos: prolongando a atenção
que lhes damos, aumentamos sua presença na consciência dos auditórios (...) a insistência pode resultar da repetição, da acumulação de detalhes, da acentuação de certas passagens (...). Na retórica, esta técnica para desenvolver um assunto recebeu o nome de amplificação. Trata-se de uma figura de retórica que utiliza a divisão de um todo em suas partes, para criar a presença”. (1988, p.51-52, apud, BRETON, 1999, p.103). O argumento de amplificação constitui um argumento muito convincente de apresentação do real.
Breton (1999) ensina que Pierre Oléron (1993), insiste na importância da “relação” entre os fatos ou as atitudes. Segundo Oléron (1993), “uma parte da atividade intelectual consiste em apreender ou em estabelecer similitudes ou conexões entre os objetos sobre os quais ela é exercida”. O autor explica que essas conexões ou similitudes não podem, no entanto, “ser definidas de uma maneira perfeitamente objetiva” e a “argumentação trabalha com esta relativa indeterminação (1993, p. 97-98, apud BRETON 1999, p. 107)”.
O reenquadramento mobiliza amplamente o pensamento, quer se trate de sua agilidade ou de sua abertura.
Os argumentos de enquadramento são apenas a primeira etapa de um processo em dois tempos, a etapa que permite estabelecer um “acordo prévio”.
É preciso então ligar este enquadramento à opinião proposta. Este segundo tempo é a ocasião de utilizar os argumentos de ligação, de vínculo, que vamos analisar agora.
Consideraremos que esses argumentos são de duas ordens, correspondendo a vínculos que não são da mesma natureza: ou deduziremos que a opinião defendida faz parte da realidade assim enquadrada, ou proporemos que a realidade enquadrada constitui um dos termos de uma analogia e o outro termo é uma opinião.
O uso da analogia constitui a segunda modalidade do vínculo que a argumentação tece entre a opinião e o contexto de recepção. A analogia é um vínculo menos garantido que a dedução, mas talvez mais poderoso, paradoxalmente, do ponto de vista da convicção que ele provoca.
Ainda segundo Breton (1999), os argumentos dedutivos ou analógicos são sempre tomados em uma relação de comunicação e, fato geralmente esquecido, supõem que tenha havido um acordo prévio; no caso apresentado, o acordo de que a competência dos atletas venha do fato de serem escolhidos em função de sua aptidão e não por acaso.
Esta primeira etapa do raciocínio argumentativo segue Breton (1999), não apresenta um caráter de evidência, é em si mesmo uma argumentação. Com mais seriedade poderíamos objetar que a competência do magistrado não tem nada a ver com a competência dos atletas, pois seu dever é de representar o povo, ao passo que o atleta deve somente “estar bem fisicamente”. O que permite, aliás, que atletas estrangeiros façam parte de uma equipe nacional, enquanto os jurados devem necessariamente ser cidadãos do país.
E continua Breton (1999) para dizer que este caráter não evidente da primeira etapa de uma argumentação dedutiva ou analógica está na origem de um erro tático freqüente. Este erro consiste em acreditar que baseamos uma dedução ou uma analogia em um contexto de recepção que está pronto a acolhê-la. O recurso de um argumento pelo exemplo (variante da analogia) pode fracassar pelo simples fato de escolhermos mal o exemplo, i.e., se o auditório não o aceitar nem mesmo como elemento de comparação possível com a tese proposta.
Do mais fechado ao mais aberto distinguiremos entre os argumentos quase lógicos quais os que apelam para uma reciprocidade, os que usam a essência dos fenômenos, os argumentos chamados pragmáticos e, enfim, os argumentos causais.