4 NATUREZA, POLÍTICA E UNIVERSIDADES
5.1 Sobre a criação das áreas verdes: conjecturas sonhadas e contextos reais
5.1.2 O Refúgio de Vida Silvestre – Universidade Beta
O Morro que abriga o Refúgio de Vida Silvestre da Universidade Beta está localizado na zona urbana da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul (Imagem 3). Distante apenas 12 quilômetros do centro da cidade, a área verde está localizada entre algumas das maiores e mais movimentadas avenidas, a Avenida Bento Golçálvez, a Avenida Protásio Alves e a Avenida Antônio de Carvalho, fazendo ainda limite com o município de Viamão. Sua área de ocupação corresponde a aproximadamente 1.000 hectares, sendo que 600 hectares
são de propriedade da Universidade Beta. Dentro desta área pertencente à universidade, cerca de 321 hectares correspondem à Unidade de Conservação.
Imagem 3: Vista aérea de parte do morro onde está localizado o Refúgio de Vida Silvestre
Fonte: Backes (2016).
A Universidade Beta possui diversos campi espalhados por Porto Alegre e nesta região do Morro está localizado um destes campi, onde atuam os cursos de Agronomia; Zootecnia; Ciências Biológicas; Ciências da Computação; Ciências Socias; as Engenharias Ambiental, Cartográfica, Civil, da Computação, dos Alimentos, de Energia, de Materias, de Minas, de Produção (e muitas outras); Estatística; Filosofia; Física; História; Geografia; Geologia; Matemática; Letras; Políticas Públicas; Química e Medicina Veterinária.
Este Morro é o ponto mais alto da cidade, com cerca 311 metros de altitude. Está inserido em uma paisagem com fisionomias de bioma Pampa e bioma Mata Atlântica onde possuem pontos de encontro e transição na região fitoecológica da Floresta Estacional Semidecidual. Segundo Rolim e Guerra (2010), essas características elevam ainda mais sua relevância ecológica. O local reúne um dos maiores potenciais de recursos da biodiversidade da flora e fauna da região. Florestas de porte alto e baixo e suas espécies de origem tropical representam os últimos remanescentes da Mata Atlântica no município e no topo do Morro podemos encontrar campos de origem chacopampeana.
Por ser um local alto e ainda com pouca impermeabilização causada pela construção de pavimentações e edificações, este Morro é um dos responsáveis pela regarga das águas subterrâneas do município. No Diagnóstico Ambiental de Porto Alegre (2008), Hasenack e seus colaboradores caracterizam a vegetação do Morro como campos que “refletem uma formação relictual com predominância de um clima mais seco e frio em período de até 400.000 anos atrás, que favorecia o estabelecimento de uma vegetação herbácea do tipo estépica”. Nos dias atuais, os campos no morro ocupam encostas com exposição solar predominantemente voltada para o norte, onde o solo tem pouca umidade e matéria orgânica. É possível encontrar campos rupestres e mata subxerófila na encosta norte e no topo do morro (HASENACK et al., 2008).
Alguns trabalhos já foram realizados para identificar a biodiversidade presente neste Morro, principalmente na área destinada pela Universidade Beta para conservação (PENTER et al, 2008; FORNECK, 2001). Já foram registradas mais de 100 espécies de aves, cerca de 13 espécies de mamíferos e mais de 350 espécies vegetais, entre espécies de campo e de floresta. Algumas das espécies encontradas são de grande relevância para a região. Compreende uma região com importantes registros de ocorrência de espécies ameaçadas de extinção no RS, apontadas pelo Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção, como o gato-palheiro (Oncifelis colocolo) e o sabiá-cica (Triclaria malachitacea).
Antigas pedreiras e saibreiras também podem ser encontradas nas encostas deste Morro, o que ajuda a delinear seus contornos. Além da área de conservação idealizada pela Universidade Beta - o Refúgio de Vida Silvestre - o Morro tem outras características que constituem sua história e das pessoas que ali moram ou circulam. Afora o local de conservação que a universidade vem tentanto implementar, o restante da área (a maior parte) é composto pelas áreas construídas da universidade, moradias regulares e irregulares e até mesmo território indígena.
Segundo fontes históricas, até 1700 o Morro era território tradicional indígena, onde este grupo caçava, criava animais, e plantava. Esta área é ainda palco de disputa entre os Kaingang e os não índios, no caso a instituição Universidade Beta. Os Kaingang afirmam que existe sim um terrítório tradicional, cuja confirmação depende de estudos da Fundação Nacional do Índio (Funai). A decisão apresentada no Agravo de Instrumento Nº 7807- 73.2010.404.0000/RS em 2011 defere a reintegração de posse em favor da Universidade Beta, entretanto, permite o acesso dos indígenas à área em questão, para fins de extração da
matéria-prima de seu artesanato, fonte do seu sustento44. O Morro não é o único lugar em Porto Alegre que é reivindicado como um território tradicional indígena45, sendo um local de coleta de plantas medicinais, de matéria-prima para artesanato, prática de rituais, união com a natureza e moradia.
O Morro também foi sede da sesmaria concedida à Jeronymo D`ornellas Menezes e Vasconcelos, português vindo da Ilha da Madeira, em 1740. No Porto do Dorneles (atual Porto Alegre), já se constituia essa sesmaria junto com outras duas, de Sebastião Francisco Chaves, no Morro São José; e de Dionísio Rodrigues Mendes, com área que ia do Arroio da Cavalhada até o Arroio do Salso. Juntos eles constituiam os povoadores e fundadores da cidade de Porto Alegre, onde mais tarde se juntaram os açorianos (BARROSO, 2011, p. 115). Esta sesmaria de Jeronymo D`ornellas se estendia do Município de Viamão até onde hoje está localizada Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Alguns pesquisadores questionam se a sede desta sesmaria teria sido realmente no ápide deste Morro. Segundo resgistros, as atividades desenvolvidas na área correspondiam a práticas agropastoris.
De acordo com a instituição, a ideia de se ter uma postura diferenciada para conservar a localização privilegiada do lugar parece ter surgido ainda na década de 1980, com a vontade do Reitor da época em criar um Jardim Botânico e uma área de preservação dentro do campus onde está localizada a área do refúgio. Objetivos esses fomentados pelos interesses científicos e acadêmicos da universidade, uma vez que poderiam constituir de espaços ricos para formação dos alunos e também para contribuição da preservação ambiental. A implantação desses espaços nunca chegou a ser concretizada e aparentemente este assunto ficou preterido por cerca de uma década.
Com a retomada dessa relação, em 2001, reconhecendo a importância da área, a universidade denomina a Reserva Biológica da Universidade Beta criando uma comissão constituída por professores, funcionários e alunos do Insituto de Biociências para dar encaminhamento a implantação da Unidade de Conservação. Este projeto passou por estudos, votação em conselho universitário, aprovação da Reitoria e 2004 sua criação foi aprovada. Sob a premissa de promover “a manutenção dos ecossitemas e a proteção da biodiveridade” o
44 O documento também afirma que, se comprovado pelos estudos da Funai que se trata de território indigena, a reintegração de posse será dada a comunidade Kaingang que lá residia.
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Atualmente, o direito dos indígenas demarcarem suas terras no perímetro da cidade de Porto Alegre é reconhecido pelo poder público municipal. As áreas da aldeia de sete hectares da Lomba do Pinheiro e a área da aldeia de menos de um hectare da Agronomia já estão amparadas legalmente no caso fundiário específico Kaingang. A essas se somam áreas domiciliares não reconhecidas pelo poder estatal, como a aldeia do Morro do Osso, os domínios do Morro Santana (caracterizados por núcleos familiares extensos residentes das vilas Jarí, Safira e Jardim Protásio Alves) e um núcleo familiar recentemente estabelecido no Morro da Glória (FUHR et al, 2012).
local ainda contruibuiria para a finalidade da universidade descrita em um dos artigos de seu Estatuto: “a educação superior e a produção de conhecimento filosófico, científico, artístico e tecnológico, integradas no ensino, na pesquisa e na extensão”.
Em 2006 a área passa a ser incluída na categoria de Refúgio de Vida Silvestre que corresponde, dentro do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), uma unidade de Proteção Integral, sendo apenas permitido o uso indireto de seus recursos naturais46. Cabe ressaltar que, mesmo sendo uma unidade de proteção integral, a visitação pública ainda pode ser permitida desde que obedeça às normas e restrições estabelecidas pelo plano de manejo da área e órgãos responsáveis. O mesmo vale para a pesquisa científica e aqui podemos incluir a educação ambiental.
Entretanto, a real implementação da área como uma Unidade de Conservação ainda não ocorreu apesar de toda a tramitação dentro da instituição. Através do Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC) foi possível ter acesso ao projeto encaminhado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o parecer concedido à Universidade Beta. A resposta do IBAMA, que na época era o responsável pelas questões referentes às Unidades de Conservação47
, foi negativa, afirmando que a instituição não teria interesse em manter uma área do tamanho diminuto da reserva, mas reconhece como louvável a iniciativa da universidade. O órgão ambiental sugere que ainda haveria a possiblidade da tramitação dentro das esferas Estadual e Municipal com seus Sistemas de Unidades de Conservação específicos. Pelo tamanho da área, sua preservação teria relevância local. Aqui se apresenta outro embate: a área pertecente a Universidade Beta é de domínio federal, o que fugiria da competência dessas esferas, estadual e municipal.
A Assessoria de Gestão Ambiental é o setor responsável pela implementação e acompanhamento do Sistema de Gestão Ambiental da Universidade Beta. Vinculada ao gabinete do reitor, tem como principal atribuição acompanhar os processos que apresentem aspectos relacionados ao meio ambiente. Este setor desenvolve ações principalmente visando o descarte correto dos resíduos produzidos pela universidade. Esse também seria o setor que teria responsabilidades sobre Refúgio de Vida Silvestre, entretanto uma entrevista referente a este assunto foi negada à pesquisadora.
46 Segundo o prórpro documento do SNUC, Refúgio de Vida Silvestre tem como objetivo proteger ambientes naturais onde se asseguram condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna residente ou migratória.
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Atualmente é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) quem coordena as questões referentes às Unidades de Conservação.