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O REGIONAL E O LOCAL NAS REFORMAS EDUCACIONAIS

Existe uma correlação entre a regionalização e as reformas educacionais,

este não é um fenômeno novo, e pode ser explicadopelos últimos ciclos de

reformas. O primeiro ciclo iniciado nos anos 60 caracterizou-se pela expansão do

sistema educativo focando que um maior número de pessoas ingressarem no

sistema. O segundo ciclo, nos anos 90, é caracterizado por dinâmicas mais

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complexas vinculadas a gestão do sistema e qualidade da educação (CASASSUS,

2004).

Ambos os processos são marcados por características regionais, as

reformas de segunda geração, como são chamadas, provocaram alterações

diversas nosmodos de organização e gestão dos sistemas educativos e das escolas,

nas formas de financiamento, na organização do trabalho escolar e no conjunto de

princípios e valores que orientam a educação (KRAWCZYK, 2000b).

As reformas educacionais experienciadas na América Latina nos anos 1990

foram propostas em direção a uma orientação regional da gestão dos sistemas

educativos, sob a égide de organismos a que engendram a reforma inicialmente por

meio da Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien, na Tailândia,

em 1990, e até 1993 seriam realizados mais quatro grandes eventos

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, visando o

atendimento das iniciativas apontadas na Conferência de Jomtien. Para se cumprir

tais tarefas havia a clareza de que uma reorientação do crédito para tal fim se fazia

necessária (CASASSUS, 2004).

A orientação regional de políticas educativas apresentava três objetivos

principais: a) situar a educação e o conhecimento no centro da estratégia de

desenvolvimento, o que implicava em mais recursos financeiros para o setor com

esforço nacional e endividamento externo; b) iniciar uma nova etapa de

desenvolvimento educacional mediante mudanças na gestão, através da

mudançana administração do Estado adotando novo estilo de gestão com a abertura

do sistema, estabelecimento de novas alianças, processos de descentralização e

ênfase na qualidade e equidade; c) melhorar os níveis de qualidade de aprendizado,

por meio deações nos níveis Macro através da formulação de sistemas nacionais de

avaliação, discriminação positiva e reforma curricular. E em nível micro a focalização

na escola, em particular na gestão, implementação de graus de autonomia e um

currículo adaptado às características das escolas (CASASSUS, 2004, p 13).

Em relação ao primeiro objetivo, o autor percebe que a educação ganha

visibilidade e prioridade no discurso político presente em vários países da América

Latina. Acompanhando adiscursiva, percebe-se um aumento dos investimentos em

educação, comparando o período de 1990 e 1996, mas uma retração em relação

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Promedlac IV, em 1991, em Quito, 24ª Reunião da CEPAL, em 1992, no Chile. 4º - Promedlac V, em Santiago, em 1993; Seminário Internacional sobre Descentralização e Currículo, realizado pela UNESCO, em 1993, no Chile.

aos patamares efetivamente praticados nos anos de 1980. A reorientação de crédito,

por meio do Fundo Monetário Internacional – FMI e Banco Mundial – BM, também

foi uma estratégia para o cumprimento do objetivo de situar a educação e o

conhecimento no centro da estratégia de desenvolvimento.

Quanto ao segundo objetivo das reformas educacionais em plano

regional,destacam-se as mudanças na gestão do Estado para realizar novas

regulamentações no plano educacional. Nesse novo modelo de gestão, o Estado

passa a compartilhar suas funções e tarefas com outros setores da sociedade civil, e

é preconizada a abertura dos sistemas através de mecanismos de descentralização

que passaram a orientar as políticas educacionais buscando qualidade e equidade.

E, por fim, a regionalização das reformas educacionais na América Latina

consolidou instrumentos de avaliação de desempenho/resultadocom a criação de

Sistemas Nacionais de Avaliação em todos os países da região, com enfoque nas

medições de rendimento escolar. Não obstante o Estado passa a interferir

diretamente nas escolas através de programas focalizados. Ao passo que medidas

em nível macro (sistema de avaliações) e em nível micro (interferência da escola)

passam a ser completadas, há um direcionamento para políticas de reformas

curriculares e gestão escolar (CASASSUS, 2004).

Nessa linha de análise, a contribuição teórica que nos dá Casassus (2004) é

verificar no contexto da globalização o sentido da regionalização cultural que se

efetiva no âmbito da instituição escolar, uma vez que “as políticas nacionais estão

enquadradas em sistemas de ideias que constituem o conceito maior que as

estruturas e lhes dá conteúdos que são os conteúdos das reformas. Esse nível está

dotado de historicidade” (IDEM, p. 25). A historicidade atribuída às reformas na

América Latina confere um caráter dehomogeneidade, o que significa dizer que em

termos macro as reformas são muito parecidas, mas é equivocado transmutar para

os níveis micro esta mesma homogeneização, pois ocorrem diferenciações que

estão relacionadas aos contextos históricos dos estados nacionais.

Sobre as reformas educacionais, como reflexo da discursiva da globalização,

Dale (2004) identifica e diferencia duas perspectivas analíticas: uma de viés

institucionalista de John Meyer chamada de “Cultura Educacional Mundial Comum”

que defende que os sistemas educativos nacionais e as categorias curriculares se

explicam por modelos universais de educação de estado e de sociedade, mais do

que de fatores nacionais comuns (DALE, 2004, p. 425), ou ainda “se traduz num

conjunto de recursos imateriais disponíveis, partilhados por uma comunidade

internacional (mundial) composta por estados-nações autônomos que tendem a

institucionalizar modelos estandardizados e a seguir orientações idênticas”

(AFONSO, 2003). A outra perspectiva de análise, denominada Agenda Global

estruturada para a Educação, foi desenvolvida pelo próprio Roger Dale. Nesta

perspectiva, as mudanças de natureza da economia capitalista mundial, como força

diretora da globalização, procuram estabelecer seus efeitos, ainda que intensamente

mediados pelo local, sobre os sistemas educativos. Há aqui uma centralidade da

economia capitalista no que concerne ao processo de globalização, assim

entende-se “o global como o conjunto de forças econômicas que operam ao nível

supranacional e transnacional, e discute os processos que levam à imposição de

prioridades por parte de alguns estados sobre outros” (AFONSO, 2003).

Em ambas as categorias “global” e “mundial” expressam haver implicâncias

extranacionais e supranacionais:

Apesar de defenderem pressupostos muito diferentes, estas duas perspectivas partilham a ênfase no papel de fatores supranacionais na configuração das políticas de educação ao nível nacional. No entanto, enquanto para a perspectiva institucionalista os valores e a ideologia que enformam a “cultura educacional mundial comum” são tão determinantes que se sobrepõem aos fatores nacionais, assim desvalorizando a especificidade destes e o seu contributo, para a perspectiva da “agenda globalmente estruturada para a educação” o que está em causa é a manutenção e reprodução do sistema económico capitalista e a posição hegemónica que nele detêm os estados mais poderosos — o que, no entanto, não impede que se analisem as especificidades dos processos nacionais na procura das suas articulações com as dinâmicas transnacionais e globais (AFONSO, 2003, p.41).

Na perspectiva analítica da Agenda Globalmente Estruturada para a

Educação, ocorrem mediações entre o nacional e o global. Supera-se de certa forma

uma concepção de que existe um receituário definido mundialmente, e que este é

aceito da forma como fora idealizado pelos estados nacionais, vejamos:

O padrão da governação educacional permanece em grande parte sob o controle do estado, contudo novas e cada vez mais visíveis formas de desresponsabilização estão a prefigurar-se. A educação permanece um assunto intensamente político no nível nacional, e moldado por muito mais do que debates acerca do conteúdo desejável da educação. As agendas nacionais para a educação são formadas mais no nível do regime do que no nível estrutural; as “políticas educativas”, o processo de determinar o conteúdo e o processo da educação são poderosamente moldados e

limitados pelas “políticas educativas”, pelo processo de determinação das funções a serem desempenhadas, pela importância do consequente provimento dos seus recursos, pelo sistema educativo como parte de um quadro nacional regulador mais amplo (DALE, 2004, p. 441).

Dessa forma, considerando as análises de Afonso (2003), trata-se de

verificar que a natureza mutável da economia capitalista, que constitui a força

principal da globalização, afeta os sistemas educativos, tendo em conta que há

mediações que são produzidas no contexto nacional e que são independentes do

lugar e situação de cada país em relação à economia global.

Contudo, com as argumentações expostas até aqui, consideramos que a

globalização é determinante nos processos de reformas educacionais pelos quais

passou a América Latina nas últimas décadas. E tendem a certa homogeneização

regional (CASASSUS, 2001), mas, no entanto, há que se ter cautela com o

determinismo que favorece a supressão das decisões no plano dos estados

nacionais. Neste plano existem mediações possíveis, que podem resultar em

diferenciações de um estado nacional para outro no que diz respeito às políticas

educacionais.

Os efeitos das reformas foram amplamente estudados, no que diz respeito à

expansão e gestão dos sistemas de ensino, e têm trazido importantes mudanças

para os trabalhadores docentes São reformas que atuam não só no nível da escola,

mas em todo o sistema, repercutindo em mudanças profundas na natureza do

trabalho escolar (OLIVEIRA, 2004, p. 128).

Decorrente dessas mudanças da natureza do trabalho escolar, encontramos

um vasto debate sobre as formas de precarização do trabalhado docente

(OLIVEIRA, 2003; OLIVEIRA, 2004; LEHER &BARRETO, 2003). Um dos aspectos

destacados nesses debates tem relação com a (re) introdução das teorias do campo

da administração para o interior das escolas:

Essa nova regulação repercute diretamente na composição, estrutura e gestão das redes públicas de ensino: Trazem medidas que alteram a configuração das redes nos seus aspectos físicos e organizacionais e que têm se assentado nos conceitos de produtividade, eficácia, excelência e eficiência, importando, mais uma vez, das teorias administrativas as orientações para o campo pedagógico (OLIVEIRA, 2004,p. 1130).

Nesse sentido, ganha visibilidade acadêmica e teórica a discursiva sobre a

padronização das reformas educacionais para a América Latina no contexto da

globalização, que ocorresob orientações de agências internacionais, que priorizavam

a eficiência e a qualidade, o fomento de políticas de avaliação e controle, a

descentralização e autonomia, a privatização e uma formação de recursos humanos,

voltada para o aumento da competitividade na ordem global (PINI & MELO, 2011).

Para Feldfeber (2007), as temáticas abordadas pelos organismos regionais e

internacionais, e que são focos de análise de consultores, grupos de trabalhos e

fundações que se expandiram desde os anos 1990 se concentram e se articulam em

torno de temáticas como profissionalização e autonomia dos docentes; políticas de

formação; novas carreiras laborais; criação de sistemas de avaliação docentes;

discussão de mecanismos que tornem a carreira mais atrativa; e adoção de critérios

salariais baseados no mérito e na responsabilização dos docentes pelos resultados.