4. ANÁLISES DAS NARRATIVAS PARALELAS
4.1 O REINADO DE SAUL (1 Sm 31.1-13; 1 Cr 10.1-14)
De todo o trecho de 1 Samuel 1.1 a 2 Samuel 4.12 a única narrativa paralela em Crônicas é aquela sobre o rei Saul (1 Cr 10.1-14). O texto constitui a narrativa da sua morte. Os filisteus perseguem os israelitas e matam os filhos de Saul. Temendo ser desonrado ao morrer nas mãos dos inimigos, o rei pede que seu escudeiro o mate, mas ele se recusa. Então, Saul se lança sobre sua espada e os israelitas, sabendo disso, abandonam suas cidades deixando-as para os filisteus. Ao encontrarem o corpo de Saul, os filisteus o decapitam, anunciam a todos de seu povo expondo seu cadáver em sua terra. Depois disto, homens valentes tomam o corpo de Saul e de seus filhos e levam a Jabes para sepultá-los.
Em Samuel há muitas narrativas a respeito desse rei, mas em Crônicas há apenas esta breve passagem. 1 Crônicas 10.1-14 é o único trecho do livro que transmite algo de todo o conflito que levou à transferência do reino de Saul para Davi. Ele é suficiente para introduzir o enredo do narrador cronista. Assim, conclui-se que ao omitir toda a dificuldade enfrentada por Davi, o narrador dá ao enredo um foco mais estrito na intervenção de Deus no que diz respeito à transferência do reino.
1 Samuel 31.1-13 corresponde a 1 Crônicas 10.1-12 com poucas mudanças ou omissões de palavras e expressões. É digna de nota a mudança da palavra “homens” (1 Sm 31.6) para “casa” (1 Cr 10.6). Esta substituição transfere o foco dos que lutavam ao lado do rei Saul para a sua família. Isto implica no fim de uma dinastia. Ao dizer “e toda a sua casa pereceu juntamente com ele” em vez de “e também todos os seus homens foram mortos naquele dia com ele” o narrador em Crônicas está apontando para a impossibilidade de a
dinastia se levantar novamente. Outra mudança facilmente perceptível é que o narrador em Samuel aponta o destino do corpo enquanto que o de Crônicas, o da cabeça decapitada de Saul (1 Sm 31.10; 1 Cr 10.10). No entanto, essa variação parece não influenciar o discurso.
Em dois momentos o narrador autoral faz uso de sua onisciência. Primeiro, quando afirma que Saul temeu os flecheiros; depois, ao afirmar que o escudeiro de Saul temeu matá- lo, conforme sua ordem. Essa onisciência encontra-se em Samuel e permanece em Crônicas (2 Sm 31.3-4; 1 Rs 10.3-4), ambos como sumário. O único trecho constituído de evento narrativo é a ordem de Saul para que seu escudeiro o execute para não ser humilhado pelos incircuncisos. O efeito dessa pequena dramatização aproxima o leitor da cena e permite que a história se passe do ponto de vista de Saul.
O ponto de maior interesse para esta pesquisa encontra-se no acréscimo que o narrador de Crônicas estabelece no final da narrativa (1 Cr 10.13-14), que é um comentário explícito, uma avaliação27 da história. Ele dá significado à morte de Saul vinda de um plano superior, dizendo que Saul morreu “por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR que ele não guardara; e também porque interrogara uma necromante e não ao SENHOR”. E interpreta ainda mais, dizendo que além de Deus matar a Saul por ter tomado essas atitudes, pelo mesmo motivo também “transferiu o reino a Davi”.
Esse comentário, característico do narrador autoral, interpreta uma passagem omitida28 em Crônicas, na qual Saul desobedece deliberadamente uma ordem divina (1 Sm 15.1-11). Em Samuel a rejeição de Saul acontece num evento narrativo, de forma dramatizada: “então veio a palavra do SENHOR a Samuel dizendo: Arrependo-me de haver constituído Saul rei, porquanto deixou de me seguir e não executou as minhas palavras”.
A outra razão para a rejeição de Saul como rei foi o fato dele ter consultado uma necromante (1 Sm 28.1-25). Isto era contrário à lei de Moisés, conforme Levítico 20.27 e Deuteronômio 18.10-12. A morte e a perda do reino para Davi foi pronunciada mais uma vez num evento narrativo (1 Sm 28.16-19). A consulta à necromante vai desembocar na morte de Saul (1 Sm 31.1-12) após a narrativa do sucesso militar de Davi (1 Sm 29.1-30.31).
27 Marguerat e Bourquin tratam da intrusão do narrador através de comentários explícitos que faz em sua própria
voz. Segundo eles, avaliação e explicação são formas de glosa explicativa nas quais o narrador dirige-se diretamente ao leitor (2009, p. 125,128-129).
28 A omissão da descrição do evento é um indício de que os leitores ideais conheciam aquele enredo, de modo
que tornou-se desnecessário descrevê-lo novamente. Para os propósitos do narrador cronista bastaria a interpretação dele.
É notável que Saul não seja julgado por sua habilidade militar ou política, nem mesmo por suas falhas, conforme aponta Steven Mckenzie (2004, posição 1721)29. A ideologia é apresentada no sentido de que Davi não seria um golpista, mas um legítimo rei, e o argumento principal é que esta era a vontade de Deus, e que Saul não merecia o trono por ser infiel a Deus.
Esses dois episódios omitidos em Crônicas são apenas referidos brevemente em Crônicas para servirem de base para a avaliação do narrador autoral (1 Cr 10.13-14). O cronista cria um narrador autoral para explicitar seu ponto de vista ideológico avaliando em apenas dois versículos toda a história de Saul. Aquilo que precisaria da percepção do leitor dentro de uma longa narrativa, o narrador de Crônicas dá em poucas palavras, indo direto ao ponto de seu interesse com autoridade interpretativa. Isto significa que, o narrador não pretende desenvolver sua mensagem a partir de Saul, e sim de Davi. Ele é explícito com relação ao motivo que levou Saul a perder o trono preferindo que o leitor vivencie através da dramaticidade dos eventos narrativos a ascensão de Davi ao trono.
Nota-se que tanto em Samuel quanto em Crônicas o narrador interfere na história explicando-a de modo breve e o mais sutil quanto possível em torno do discurso direto de Saul. O narrador de Crônicas, no entanto, é muito mais intrusivo ao acrescentar seu ponto de vista ideológico com dois versículos no final.