3.1. Portugal – da Monarquia à Primeira República
3.1.6. O Reinado de D Manuel II
“É inegável que, sem a conivência da [M]açonaria inglesa e da Casa Real Britânica, a República não teria sido implantada em Portugal”314.
“Por uma coisa que ouvi o Rei Eduardo dizer ao [Marquês de] Soveral depois do jantar, perdi esperanças do casório (…). Quem é que vae dar uma filha ao Rei d’um paiz insubordinado?”315.
A morte de D. Carlos, considerado “(…) uma das mais belas expressões de [H]umanista na Europa do seu tempo (…)”316, teve consequências políticas decisivas. O rei, o seu prestígio no exército e a sua popularidade junto de grande parte da população eram já o único esteio da Monarquia, e o atentado veio deixar os meios políticos paralisados de assombro e medo. Subiu ao trono D. Manuel II, com apenas dezoito anos de idade e escassa preparação para o cargo. João Franco, considerado o grande culpado do regicídio, foi demitido. A linha adoptada foi a da acalmação, isto é, a de uma acção descompressora baseada na cooperação e reconciliação dos partidos monárquicos. Contudo, depressa se voltou à agitação anterior, e D. Manuel, durante os dois anos em que reinou, viu- se obrigado a mudar sete vezes o Ministério.
A conjuntura então vivida encontra-se bem documentada por Jorge Morais. O autor refere que, em entrevista a Joaquim Leitão, o Embaixador Luís de Soveral
314 Jorge Morais em entrevista a Paulo Pizarro. Vide PIZARRO, Paulo, “Outro Mistério, outro olhar sobre a Maçonaria”, in: Magazine Grande Informação, Nº 7, Junho de 2006, p. 38.
315 Anotação constante no Diário do monárquico Thomaz de Mello Breyner, a propósito do tão desejado casamento de D. Manuel II com qualquer das filhas do Duque de Fife. Respeitada a redacção da época. Vide MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 43.
316 Assim o classifica João Mendes Rosa, Historiador da Universidade de Salamanca, num texto que data de 1 de Fevereiro de 2006, disponível para consulta em http://jacarandas.blogspot.com/2006_02_01_archive.html. Por considerarmos este texto particularmente interessante optámos pela sua transcrição no Anexo VIII.
contará que o rei inglês Edward VII, que nutria grande estima por D. Carlos, sofreu com a notícia do seu assassínio um desgosto que chegou a ser pessoal, “[o] maior desgosto da sua vida”317. Também o Marquês do Lavradio recordará:
“[p]assados anos, quando a Monarquia já tinha deixado de existir, contou- -me [o Marquês de Soveral], em Londres, que tendo, depois do Conselho de Estado, regressado ao seu posto, logo que chegou à capital inglesa foi visitar o Rei Eduardo e este disse-lhe: «[q]ue país é esse onde matam um Rei e um Príncipe e a primeira medida que se toma é demitir o Ministério? A revolução triunfou, não é verdade?». Foi só então, acrescentou Soveral, que compreendi o erro que tínhamos cometido”318.
Na verdade, Edward VII nunca aceitará a complacência oficial portuguesa perante o regicídio, cujos autores materiais eram alvo, dias depois, da homenagem pública dos apologistas da República. Em Novembro de 1909, numa longa conversa privada com o Conde de Mafra, o soberano inglês lamentá-lo-á ainda. Regista Thomaz de Mello Breyner no seu Diário:
“[o] grande Rei inglez com os seus olhos azuis húmidos (parecidos com os d’ El Rei D. Carlos) mostrou-me uma moldura de oiro com os retratos dos dois mortos queridos (…) e disse-me: [«] estes retratos acompanham-me para toda a parte. Fazem parte do meu sacco de viagem [»]. Depois [,] franzindo a testa e levantando a voz [,] acrescentou: [«] matam-se dois Cavaleiros da Jarreteira como se fossem dois cães e ninguém se importa no paiz d’Elles! [»]319.
Duas semanas após o regicídio, a 19 de Fevereiro de 1908, D. Manuel deixa o Paço das Necessidades rumo ao seu primeiro acto oficial – a inauguração da estátua do Duque de Saldanha, para a qual fora convidado pelo Presidente da Edilidade, o Conselheiro António Castelo-Branco. “Está a vereação em peso, republicanos incluídos – e o Rei a todos cumprimenta”320.
Em Abril, o maçon Magalhães Lima é autorizado a reunir em Lisboa o I Congresso Nacional do Livre-Pensamento, a que atrai activistas espanhóis e
317 MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 38.
318 ALMEIDA, D. José Luís de (Coord.), Memórias do Sexto Marquês do Lavradio. Lisboa, 1993. Citado a partir de MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 39. 319 Vide MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 39.
franceses. Decorrem eleições legislativas “(…) em que os republicanos conquistam [sete] especiosos lugares num Parlamento de [cento e cinquenta e cinco]”321, sendo constituído, sob Francisco Ferreira do Amaral, um Ministério de Coligação, a chamada “Acalmação”, incluindo regeneradores, progressistas e “independentes”. A Monarquia Constitucional aparenta, desta forma, regressar à normalidade.
Todavia, logo a 1 de Novembro de 1908 o Partido Republicano vence a eleição para o Município de Lisboa e para várias outras câmaras322 sitas no Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, enxovalhando os dois principais partidos da facção monárquica: o Regenerador e o Progressista. Refere Jorge Morais que “[c]om lágrimas calculadas, a Imprensa republicana carpe a triste sorte de um Rei imberbe rodeado de incapazes e subordinado a uma mãe ‘beata’”323.
Assim, em Dezembro de 1908 cai, sem surpresa, o Gabinete Ferreira do Amaral, dando lugar a uma longa série de Governos que, de fracasso em fracasso, se sucederão até à instauração da República.
Apesar de tudo, pensamos, como Morais324, poder considerar que a sobrevivência das instituições, a par da relativa ordem burguesa das ruas daria a um observador mais desatento / incauto a ilusão de que a Monarquia portuguesa, velha de setecentos e cinquenta anos recuperara de apenas mais um sobressalto.
Porventura interessado em aparentá-lo também, D. Manuel II parte para Inglaterra em finais de 1909. Na verdade, o Rei vai em busca de noiva, bem como da confirmação do apoio de Edward VII, ferido ainda pela apatia de Lisboa aquando do regicídio. Para grande indignação da imprensa republicana, esta visita de D. Manuel II a terras de Sua Majestade vai orçada em sessenta contos de réis. Porém, para o Chefe da Casa Real Portuguesa, cada centavo seria bem empregue325.
De facto, se tivermos em conta o “aperto” em que o Regime monárquico se via, um casamento de Estado com um rebento da Nobiliarquia real do “mais
321 Loc. cit..
322 A saber: Moita, Montijo, Alcochete, Vila Franca, Benavente, Grândola, Santiago do Cacém e Lagos. Vide loc. cit..
323 Loc. cit.. 324 Vide loc. cit..
antigo aliado” surgia, indubitavelmente, como um instrumento político de alta potência. Segundo o Marquês do Lavradio, que integrou a comitiva de D. Manuel II nesta empresa na qualidade de seu secretário particular, as esperanças da corte lisboeta estavam depositadas em três jovens de sangue real em “idade útil”: as duas filhas do Duque de Fife – Alexandra (1891 - 1938) e Maud (1893 - 1945) – e Victoria Patricia (1886 - 1938), filha do Duque de Connaught. Um enlace com qualquer delas seria visto em Portugal como um reforço da aliança luso-britânica, e às pressões nesse sentido não era alheia a Rainha Dona Amélia, defensora confessa das vantagens políticas da “operação”.
Também, e em qualquer dos casos, o Rei Edward e a Rainha Alexandra viam o casamento com simpatia. Todavia, depressa se compreenderá que Edward VII, que tão dedicado fora a Portugal e ao seu rei, se encontrava “de mãos atadas” no âmago e no foco das necessidades dos seus vassalos expressas pelos ministros, enquanto que os dirigentes dos seus Governos encaminhavam como “conveniências de instante” o que poderia haver de generoso nas suas intenções. Deste modo, a Edward VII restava refrear a vontade de interceder com o intuito de conseguir de imediato o ambicionado pelo “moço rei de Portugal” e aguardar por ocasião “mais oportuna”326.
Na realidade, por então já a conspiração republicana portuguesa passara por Inglaterra e fizera os seus estragos: abordado por Óscar Araújo327, o
Manchester Guardian iniciara uma campanha contra D. Manuel II. O Marquês do
Lavradio assinala-o nas suas Memórias: “[u]m jornal liberal escrevia mesmo que o casamento do Sr. D. Manuel com uma filha do Duque de Fife podia ser considerado como uma intervenção da Inglaterra nos negócios de Portugal, e, como este país desejava a República não havia direito de intervir”328.
Estava por demonstrar que este país desejasse a República… mas os trabalhos da propaganda republicana na sabotagem do casamento real não se ficaram por Londres. Ainda em Novembro de 1909, a própria imprensa portuguesa dá conta do rompimento das negociações para o casamento do monarca com
326 Cf. op. cit., p. 41 - 42.
327 Agente em Londres do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, Óscar Araújo detém um papel fulcral nos contactos dos republicanos portugueses com o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico.
uma inglesa: “[d]iz-nos de Londres pessoa de absoluta confiança que o casamento de Sua Majestade El-Rei não pode realizar-se por ora com princesa daquela nação. Nada disto nos surpreende. Lá fora é bem conhecido o estado interno do nosso país”329.
Contudo, as esperanças na concretização do matrimónio não haviam ainda desvanecido por completo e, se a dúvida atormentava a Realeza, tampouco tranquilizava os republicanos. Alguns activistas menos informados, desconhecendo as démarches da Maçonaria portuguesa nos subterrâneos da imprensa e da política britânicas, e cientes dos esforços monárquicos empreendidos na obtenção de um casamento, desesperavam, como era o caso de Guerra Junqueiro.
Conta Raúl Brandão nas suas Memórias que, já em Novembro de 1909, conversara com um Junqueiro “desalentado”. Lamentava este: “[i]sto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma inglesa e vem aí um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra por trás da cortina (…). A ocasião passou, a [R]epública passou”330.
No mesmo mês, porém, o melhor informado Augusto Fuschini, antigo dirigente da Liga Liberal331 e ex-colega de Bernardino Machado num dos Governos da Monarquia, confidenciava ao mesmo Brandão: “[o Marquês de Soveral] obrigou agora o rei a ir a Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que há dois meses [em Setembro de 1909] esteve em Lisboa um correspondente do Daily Mail, que contou (…) que o próprio Duque de Fife mandara ao jornal o seu secretário desmentir a notícia do casamento”332.
Não obstante, em Janeiro de 1910 ainda D. Manuel mantinha a esperança de vir a desposar uma princesa de sangue inglês, dado que recebera uma missiva do Marquês de Soveral em que este se mostrava muito animado e lhe garantia estar bastante esperançado relativamente a esse assunto. E a 5 de Março desse
329 Vide loc. cit.. 330 Vide op. cit., p. 43.
331 Órgão criado em Julho de 1894, juntando republicanos e monárquicos progressistas, de que Fuschini foi inspirador e dirigente. Não confundir com a chamada Junta Liberal, de inspiração carbonária, criada em 1909 por Miguel Bombarda, Egas Moniz, Cândido dos Reis, Avelino Lopes Cardoso, Marinha de Campos, pelo Visconde de Ribeira Brava, entre outros.
ano ainda Dona Amélia se deixava iludir: “[o] Soveral chega daqui a pouco. Veremos se ele traz alguma notícia boa”333. Mas a boa nova nunca chegou.
Em finais de Abril de 1910, o Partido Republicano volta a reunir em Congresso, desta feita no Porto (no ano anterior a escolha havia recaído em Setúbal), e aí toma uma “(…) decisão que há-de torcer o curso dos acontecimentos e precipitar a queda da Monarquia (…)”334: dos trabalhos sai nomeada uma comissão que viajará por França e Inglaterra com vista à angariação de apoios para a revolução.
Mas a D. Manuel II não é sequer dado tempo para reflectir, pois, logo na primeira semana de Maio, morre em Sandringham Edward VII, “(…) que desde o reinado de D. Luís amara Portugal e [,] com discrição mas firmeza [,] protegera a Casa de Bragança”335. Nas palavras do Marquês do Lavradio, era “(…) um verdadeiro desastre para a Monarquia portuguesa e, consequentemente, para Portugal”336. Por seu turno, o Conde de Mafra anota no seu Diário que não seria uma grande asneira afirmar que Edward fazia mais falta a Portugal do que à própria Inglaterra337.
Neste contexto, Lord Granard é enviado a Lisboa, encabeçando uma Embaixada extraordinária e, recebido na Ajuda pelo monarca português, comunica formalmente a subida de George V ao trono inglês (devido à morte prematura do seu irmão mais velho, o Príncipe Albert Victor). O Rei George V acabará por confirmar-se como o elo mais fraco da cadeia de relações anglo- - portuguesas do início do século XX338. Com Edward VII no poder dificilmente se tocaria na Coroa Portuguesa. Porém, três escassos meses após a sua morte, o
333 Vide loc. cit.. 334 Op. cit., p. 45. 335 Loc. cit.. 336 Vide loc. cit.. 337 Cf. loc. cit..
338 Jorge Morais refere que George V (George Frederick Ernest Albert – 1865 - 1936 –) é igualmente questionado em vários outros aspectos do seu reinado, marcado por um estilo que os seus biógrafos, talvez devido à grande paixão intelectual do monarca – a filatelia –, classificam de “doméstico”. De facto, mesmo sendo primo dos Bragança, Portugal pouco ou nada significava para o Rei inglês e, oito anos mais tarde, aquando do cativeiro e brutal homicídio da Família Imperial russa (que, aliás, lhe era muito mais chegada), George, primo-direito de Nicolai II (suas mães eram irmãs), não conseguirá erguer um dedo para salvar a vida dos Romanov. Por outro lado, em 1917, para não melindrar a opinião pública de uma Inglaterra em guerra com a Alemanha, aboliu o rule da Casa de Hannover, substituindo-a pela mais inglesa Casa de Windsor, ainda hoje reinante. Cf. op. cit., p. 53.
seu irmão, Duque de Connaught, permitirá, enquanto Grão-Mestre da Maçonaria inglesa339, que seja dada carta branca aos revolucionários republicanos portugueses para que avancem com os seus propósitos.
Este percurso e teia de cumplicidades são descritos sucintamente por Jorge Morais numa entrevista concedida a Paulo Pizarro340. Explica Morais que a conspiração republicana tinha, fundamentalmente, três problemas para resolver: França, Espanha e Grã-Bretanha.
A França estava indexada aos ingleses, uma vez que ao Governo francês não interessava romper a “Entente Cordiale”341. Por sua vez, a Espanha era um caso grave, dado que o Rei Afonso XIII não queria de todo ficar “ensanduichado” entre duas repúblicas, pelo que ponderava uma intervenção armada em socorro dos Bragança, embora jamais avançasse sem o aval de Londres. Quanto a Inglaterra, a sua fama de protectora da Casa Real portuguesa fazia recear uma intervenção anti-republicana.
No entender do autor, o “golpe de génio” do Grão-Mestre Magalhães Lima residiu em perceber que, “(…) cativando Londres para a sua causa (…) matava três coelhos com uma cajadada, pois nem Paris nem Madrid iriam mexer uma palha para socorrer os Braganças”342.
Assim, em 1909, Magalhães Lima terá viajado rumo a Londres e garantido a cumplicidade dos altos graus da Maçonaria inglesa. Em 1910 obteve acesso ao Governo, assegurando, por essa via, uma “neutralidade cooperante” da parte do novo Rei, George V, sobrinho do Grão-Mestre Connaught.
339 O Duque de Connaught sucedeu a Edward no Grão-Mestrado da Maçonaria inglesa quando este ascendeu ao trono, em 1901. Até então, e desde que fora eleito Grão-Mestre, em 1875, Edward logrou desenvolver em muito a Maçonaria inglesa, sendo que, quando abandonou o cargo para se tornar Rei, a Grande Loja de Inglaterra contava com 2413 Oficinas maçónicas em pleno funcionamento, contra as 654 herdadas do seu antecessor. Ao resignar, e à semelhança de George IV, Edward (também carinhosamente chamado de Bertie) reservara para si o título de “Protector da Maçonaria”. Cf. Op. cit., p. 52 - 53.
340Vide PIZARRO, Paulo, “Outro Mistério, outro olhar sobre a Maçonaria”, in: Magazine Grande Informação, Nº 7, Junho de 2006, p. 38.
341 “Entente cordiale” é o nome dado às boas relações existentes entre a França e a Inglaterra, no início do século XX. Esta expressão divulgou-se após a assinatura de um tratado entre os dois países a 8 de Abril de 1904, sob proposta de Eduardo VII. Por meio deste tratado, as duas potências acabavam definitivamente com as suas quezílias e desavenças coloniais (algumas delas com largos anos de existência), tendo em vista a prossecução de uma política comum. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Entente_cordiale.
342 PIZARRO, Paulo, “Outro Mistério, outro olhar sobre a Maçonaria”, in: Magazine Grande Informação, Nº 7, Junho de 2006, p. 38.
Por outro lado, na capital inglesa tudo era propício aos republicanos: a Grande Loja Unida de Inglaterra; o Governo liberal de Asquith (com a pasta dos Negócios Estrangeiros a cargo do maçon Edward Grey); e a imprensa radical e a City coincidiam numa análise negativa ou céptica sobre a Monarquia portuguesa.
Em suma, era uma oportunidade única e Magalhães Lima foi exímio em aproveitá-la. Dois meses depois do seu regresso de Londres a República estava instaurada em Portugal343.
A 27 de Maio de 1910, terminadas as exéquias de Edward VII, o até então “apagado” soberano português regressa a Lisboa decidido a mostrar a sua fibra.
Assim, em Junho, D. Manuel II chama a Lisboa o pioneiro francês da Sociologia Léon Poinsard para que estude as reivindicações operárias e dite soluções para os problemas sociais.
Na realidade, não era a primeira vez que o Rei manifestava interesse pela questão operária e pelas condições de vida dos trabalhadores. Já em 1908 essa preocupação o levara a estabelecer um contacto comprometedor com o Partido Socialista, que, contrariamente ao Partido Republicano, se mostrava bem mais interessado em reformas sociais do que propriamente numa eventual mudança de regime político.
No seu estudo, Jorge Morais dá-nos conta da existência de correspondência directa e informal trocada entre D. Manuel II, Azedo Gneco e Alfredo Aquiles Monteverde, estes últimos respectivamente ideólogo e principal organizador dos socialistas no período pré-republicano344. Numa dessas cartas, Monteverde confessa depositar no Rei uma confiança que se inspira na predilecção de Sua Majestade pelas classes laboriosas345.
Alentado pelo patrocínio do jovem monarca, e a seu pedido, Azedo Gneco elabora, no início de 1909, um memorandum sobre as prioridades da política
343 Na verdade, Magalhães Lima contou com a ajuda José Relvas, Bernardino Machado e Alves da Veiga para o sucesso da viagem. Juntos constituíam a “respeitável embaixada” que visava a instauração da República em solo nacional. Todo o processo da viagem, desde a sua preparação, é pormenorizadamente descrito e analisado por Jorge Morais em MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 68 - 156.
344 Vide op. cit., p. 48 - 49. 345 Cf. op. cit., p. 48.
social portuguesa, defendendo a construção de bairros populares / operários “higiénicos”, bem como a criação de Caixas de assistência, pensões e reformas.
Pouco tempo depois, D. Manuel II escreve ao Primeiro-Ministro, Wenceslau de Lima, recomendando-lhe que proceda à leitura do memorandum de Gneco, de alguns recortes do jornal O Trabalho e ainda do Programa do Partido Socialista
Portuguez, que junta no mesmo envelope. Depois de reconhecer que Aquiles
Monteverde prestara “muitíssimos serviços”, o Rei solicita ainda ao seu “querido Presidente do Conselho” que mande chamar Monteverde e converse com ele.
Wenceslau de Lima, que “(…) não está, ele próprio, virgem de contactos com os socialistas (…)”346, responde afirmativamente.
Nos bastidores, Aquiles Monteverde é informado da diligência e escreve a D. Manuel II, agradecendo e mostrando-se “reconhecidíssimo” pelo bilhete, a carta e o interesse que Sua Majestade continua a dedicar aos operários: “[m]al sabem êles do alto patrocínio que tam eficazmente os está auxiliando (…)”347, e declara, sem margem para dúvidas, a feição positivamente monárquica (intervencionista) do movimento e a grande conveniência de não se desprezar essa “(…) poderosíssima força proletária, que tam bem orientada se mostra”348.
Em Portugal, para onde viajou a expensas pessoais de D. Manuel II, Léon Poinsard estabelece um quadro sociológico das várias regiões do país, estuda a agricultura, a mineração, as pescas e analisa o Ensino. As suas conclusões confirmam, em muitos aspectos, o teor do memorandum de Gneco e adoptam propostas do próprio monarca português sobre a criação de cooperativas de consumo. Porém, nenhuma das medidas chegaria a ser implementada: passados quatro meses, El-Rei estaria a caminho do exílio e os socialistas à beira do ostracismo349.
Obviamente, a referida perspectiva de colaboração entre o trono e as forças socialistas não podia ser do agrado do Partido Republicano. Desde Antero de Quental, o movimento socialista português, apesar de crítico em relação a
346 Loc. cit.. 347 Loc. cit.. 348 Loc. cit..