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CAPÍTULO 3

3.1 O Reino aventuroso de Ariano Suassuna

Segundo Ariano Suassuna, o Romance d‟A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta resulta de um esforço para recuperar a figura do pai assassinado. As crises políticas e familiares vividas pelo autor marcaram profundamente a vida do menino Ariano, que começou a escrever o que viria a ser A Pedra do Reino nos anos 50, pensando de início em uma biografia do pai.

Para Suassuna, ―a carga excessiva de sofrimento‖ levou-o a buscar outro

gênero, a poesia, por volta de 1954, mas tal escolha também se revelou difícil e insatisfatória. Assim, em 1958 começou a tomar notas para um romance longo, que viria ser A Pedra do Reino, concluído em 1970 e imaginado de início como primeiro volume da trilogia A maravilhosa desaventura de Quaderna, o decifrador. O texto foi lançado juntamente com o lançamento do Movimento Armorial, criado por Suassuna no mesmo ano em Recife. O movimento veio a ser, como já mencionamos, sua afirmação e comprometimento com a arte popular sintetizados na música, teatro, dança e literatura. Dirá o autor:

A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como característica principal a relação entre o espírito mágico dos folhetos do Romanceiro popular do Nordeste [literatura de cordel], com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha suas canções e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como o espírito e a forma das artes e espetáculos populares em correlação com este Romanceiro.236

Canto, folheto, romance, danças populares ou espetáculo de marionetes, o conjunto complexo constituído pelas manifestações tradicionais, tanto orais como escritas impõe-se sobre a obra de Suassuna como objeto artístico. O autor, por sua vez, recusa o termo ―regionalista‖ para classificá-la; a Pedra, segundo ele, ―não é um romance rural‖. Para o autor o termo regionalista teria sido excessivamente marcado

236

SUASSUNA, Ariano. Cadernos de literatura brasileira. Instituto Moreira Salles: São Paulo, 2000, p.147.

―pelo Movimento Regionalista de 1926 [...] e o romance regionalista aparece-lhe

como uma espécie de neonaturalismo que privilegia a interpretação sociológica‖.237

Ao definir seu livro como Romance, Suassuna explicita o sentido da

composição poética narrativa do romanceiro popular, próprio para ser cantado:

Quaderna define de início, os termos do ensino do seu mestre em poesia: ―Começou ensinando-nos que havia dois tipos de romance: o ‗versado e rimado‘, ou em poesia; e o ‗desversado e desrimado‘, ou em prosa‖ [...] Os dois tipos de romance, citados pelo mestre, correspondem, portanto, ao romance tradicional e ao romance em prosa, de aventuras ou cavalaria.238

A Pedra do Reino almeja para si um caráter universal, ao atualizar matrizes presentes na cultura popular brasileira, fundadas pela tradição oral trazida de Portugal e da Espanha, elevando essa mesma tradição à condição de arte, pura e simplesmente. Em Suassuna, o teatro converte-se em fonte particularmente apropriada para, em sua literatura, engendrar o espaço ficcional entre o sertão e o universo urbano, entre oralidade e texto. Sobre a tradição popular e a poesia, ele enfatiza a beleza do romanceiro popular do Nordeste, que apresenta, segundo ele,

característica ―surrealista e de caráter simbolista e obscuro‖,239

um caráter universal de beleza.

A obscuridade de que fala Suassuna em sua obra tem, segundo ele, a intenção de levar ao sublime e aproximar a estranheza do maravilhoso. ―É, porém, ao ‗espírito do romanceiro‘ que o autor se refere com mais freqüência, espírito

mágico que se distingue do realismo mágico e do surrealismo‖240

, segundo entende Idelette Fonseca. Para a pesquisadora, ―tal distinção, fundada numa anterioridade das obras de Suassuna, permite eliminar qualquer idéia de influência [do realismo

mágico e do surrealismo], mas não estabelece critérios de avaliação‖241

. E Idelette conclui:

237

Cf. FONSECA DOS SANTOS, Idelette Muzart. Em demanda da poética popular-Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. Campinas: Ed. Unicamp, 1999, p. 36.

238

FONSECA DOS SANTOS, Idelette Muzart. Em demanda da poética popular-Ariano Suassuna

e o Movimento Armorial. Campinas: Ed. Unicamp, 1999, p.112. 239

SUASSUNA, Ariano. Cadernos de literatura brasileira. Instituto Moreira Salles: São Paulo, 2000, p.33.

240

FONSECA DOS SANTOS, Idelette Muzart. Em demanda da poética popular-Ariano Suassuna

e o Movimento Armorial. Campinas: Ed. Unicamp, 1999, p.35. 241

Suassuna recusa qualquer semelhança do espírito mágico do romanceiro com o surrealismo europeu: este era um movimento de intelectuais que tentavam libertar-se, pelo automatismo ou pelo sonho, das obrigações lógicas, estéticas ou morais da criação artística. Em compensação, reconhece a unidade cultural da América Latina e até um parentesco com a arte oriental: o espírito dos folhetos evoca, por momentos, o real maravilhoso de Alejo Carpentier e do romance hispanoamericano.242

Das tradições populares e orais da literatura e da gesta medieval, A Pedra do Reino empresta a religiosidade, o dualismo e o picaresco, o sagrado e o profano da visão do mundo cristão e do mundo da cavalaria. Segundo o crítico e ensaísta uruguaio Ángel Rama, há uma importante peculiaridade desenvolvida no interior da literatura latino-americana que não se construiria apenas como obra das elites

literárias, mas como um afã de vastas sociedades com suas linguagens simbólicas:

Restablecer las obras literarias dentro de las operaciones culturales que

cumplen las sociedades americanas reconociendo sus audaces

construcciones significativas y el ingente esfuerzo por manejar auténticamente los lenguajes simbólicos desarrollados por los hombres americanos, es un modo de reforzar estos vertebrales conceptos de independencia, originalidad, representatividad. Las obras literarias no están fuera de las culturas sino que las coronan y en la medida en que estas culturas son invenciones seculares y multitudinarias hacen del escritor un productor que trabaja con las obras de innumerables hombres. Un compilador, hubiera dicho Roa Bastos. El genial tejedor, en el vasto taller histórico de la sociedad americana.243

Esses elementos, no Nordeste brasileiro tiveram como característica preponderante o ―prolongamento‖ de uma memória vivificada através da força da oralidade e, no caso de Suassuna, como já vimos anteriormente, percebe-se a opção por uma literatura recriada através da arte popular brasileira:

Como já disse a respeito da Cultura medieval, a preferência por uma ou outra atitude é uma questão pessoal. Por mim, assim como prefiro os

romances populares ibéricos às cantigas de amigo ou de amor do Cancioneiro, tenho preferência, aqui, pelos escritores e artistas que procuram ligar seu trabalho criador à raiz popular. Mas, de fato, as duas correntes se interpenetram e se influenciam desde o século XV [...]. Gregório de Mattos, poeta brasileiro seiscentista, herdeiro direto do Século de Ouro ibérico, é um espírito tipicamente barroco: como tal, absorve em

242

Ibid., p. 35. 243

RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Buenos Aires: El Andariego, 2007, p. 24.

sua obra elementos os mais contraditórios – cortesãos e populares, religiosos e obscenos, místicos e desesperados e assim por diante.244

Por essa razão, muitos elementos populares e profundamente arraigados à vasta tradição secular, permanecem até hoje vivos e atuantes, como por exemplo, o hábito das festas e cerimônias da rua como palco aberto, na tradição do grande teatro do mundo. Para Rama, no nordeste do Brasil ―quem se aproxima do povo está entre mestres e se torna aprendiz, por mais bacharel em artes ou doutor em

medicina que seja‖245

:

[…] Las ciudades-puertos quedan simbolizadas por la incorporación del Papá Noel con su vestimenta invernal y su trineo para recorrer zonas nevadas, en tanto la cultura pernambucana y en general nordestina no es superada por ninguna ―en riqueza de tradiciones ilustres y en nitidez de carácter‖ y ―tiene el derecho de considerarse una región que ya contribuyó grandemente a dar a la cultura o a la civilización, autenticidad y originalidad‖ con lo cual además refuta el discurso extranjero despreciativo de los trópicos y el anti-lusitano de los modernizadores que ven ―en todo que la herencia portuguesa es un mal a ser despreciado‖.246

Suassuna fala da herança dos romances populares ibéricos, das cantigas de amigo ou de amor do Cancioneiro, do gosto por escritores e artistas que procuram ligar seu trabalho criador à raiz popular. Essa ligação, incluídos textos impressos e textos escritos na memória e no sangue, levanta outra vez o tema da recriação, da renovação que a literatura empreende.

Por sua vez, o crítico francês Antoine Compagnon questiona: quais são os livros que, ao escrever, eu desejaria reescrever? E lembra, em Barthes, a ideia dos livros ―escriptíveis‖: ―Que textos eu aceitaria escrever [reescrever], desejar, levar adiante como uma força nesse mundo que é o meu? O que a avaliação encontra é

este valor: o que pode ser hoje escrito [reescrito] – o inscriptível.‖247

E o escriptível, muito mais que uma atitude amorosa para com o texto, seria esta postura que deborda a enunciação possível e singular do sujeito, no movimento em que o texto

244

SUASSUNA, Ariano. A arte popular no Brasil: almanaque armorial. Org. Carlos Newton Jr. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p. 157.

245

RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Buenos Aires: El Andariego, 2007, p. 28.

246

Id., p. 29. 247

nunca se repete, fluxo em um rio de muitas margens, evocando aqui, por exemplo, a escrita caleidoscópica de Jorge Luis Borges:

A obra de Borges representa, sem dúvida, a exploração mais aguda do campo da reescrita, sua extenuação. Pois se a escrita é sempre uma reescrita, mecanismos sutis de regulação, variáveis segundo épocas, trabalham para que ela não seja simplesmente uma cópia, mas uma tradução, uma citação. É com esses mecanismos que Borges organiza a violação. ―Pierre Menard, autor do Quixote‖ [...]248

Percebe-se que Borges e Suassuna utilizam recortes distintos, como bem observou Idelette Fonseca, tendo em vista que no primeiro, Pierre Menard reescreve outro Quixote que é palavra por palavra idêntico ao original de Cervantes, enquanto com Suassuna, Quaderna recorre a versos do Romanceiro popular, dos cantadores, do cordel e a fatos históricos para compor a grande obra, sua Epopeia.

O que aproximaria ambos, Borges e Suassuna, é notadamente a utilização da citação como ação do indivíduo [ou indiviso] que rompe com a fixidez da condição subalterna de herdeiro das culturas com as quais estariam atados aos nós do colonizador. Borges viola a obra maior, que é o Quixote, para a Espanha, que aí é a mesma se não fosse outra paradoxalmente inversa, atravessada pelos mecanismos sutis de regulação, pelas variáveis segundo cada época.

Ariano Suassuna reorganiza a fala do universo mítico do Romanceiro nordestino, bebendo na fonte dos poetas populares, que por sua vez receberam-no de além-mar, dos negros, judeus, vermelhos e mouriscos. O resultado poderia ser apenas o da simples reescritura, não fosse outra a recepção, não fosse outro o caráter espacial, não fosse a própria criação literária um processo em constante e vivo movimento:

Quaderna pretende se tornar Rei escrevendo uma Obra completa, genial e clássica. Ora, a única obra verdadeiramente completa que ele conhecia era a Antologia Nacional de Carlos de Laet: tendo textos de todo mundo, tinha todos os estilos. Logo, ele teria que fazer de sua Obra uma outra Antologia Nacional.249

248

Id., p.42. 249

SUASSUNA, Ariano. A arte popular no Brasil: almanaque armorial. Organização : Carlos Newton Jr. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p. 234.

No livro Cavalaria em Cordel, sobre o Cavaleiresco Épico e seu ciclo de transmissão, a visão de Jerusa Pires Ferreira é a de que quando nos aproximamos da Literatura de Cordel não podemos deixar de pensar na referência à literatura popular:

Está-se consciente da precariedade de distinções já tão colocadas entre literatura popular e culta, como é o caso de outras formas de expressão artística, vendo-se sempre aberta a possibilidade de uma se transformar em outra, sucessivamente. Tem-se, além disto, a percepção de estar diante de texto-letra que se oferece como resultado de um complexo percurso sócio-cultural, equilibrando-se entre os andamentos de vai e vem do culto ao popular e vice-versa, em alternâncias.250

E essa alternância que movimenta a literatura em sua estrutura interior,

estaria dotada de uma continuidade criadora, de um desejo de futuro e de uma vida real, que se forma em consonância com a sociedade na qual as dinâmicas culturais coexistem. Interessa-nos, na proposição de um romance sobre o Sertão brasileiro e de sua história nos séculos XIX e XX a questão de como Suassuna reescreve o mito moderno ocidental, considerando o que foi visto sobre a recepção do Fausto.