2 O INSTITUTO EVANGÉLICO DE LAVRAS
3.4 O Relacionamento da EAL com o Poder Público
“A Escola Agrícola de Lavras é subvencionada pelos governos Federal, Estadoal e Municipal”69. Grande parte do pioneirismo atribuído à escola Agrícola de Lavras deve-se à sua parceria com o Estado, cuja política combinava com os ideais pragmáticos de progressos trazidos pelos missionários norte-americanos. A política agrícola no Estado de Minas Gerais no início no século XX, seguia a tendência nacional, pretendendo “sair na frente”, “servir de exemplo”70 no que se
refere aos esforços para a modernização. Para isso, o governo, além dos
69 Prospecto do Instituto Evangélico de 1922
70 Expressões utilizadas pelo engenheiro Carlos Prates, diretor de Agricultura, Comércio, Terras e
estabelecimentos do Estado, por ele criados, dispunha-se a apoiar iniciativas privadas voltadas para a instrução agrícola. A Escola Agrícola de Lavras cujos trabalhos eram realizados em sua fazenda-modelo Ceres, a partir do ano seguinte à fundação buscou recursos junto ao Governo do Estado para a ampliação dos seus projetos. Inicialmente, a fazenda Ceres participou do programa de subvenção para a formação de aprendizes. Posteriormente, foi incluída em outros projetos, como importações de animais de raça71, bolsas de estudos para alunos
do curso de agronomia72, apoio no envio de formandos para aperfeiçoamento dos estudos nos Estados Unidos e, um dos principais, a criação de um posto zootécnico73 nos moldes de outros criados pelo Estado em outras regiões.
No relatório apresentado por Carlos Prates em 1910 ao Secretário da Agricultura Dr. José Carlos de Souza, são dez fazendas particulares subvencionadas pelo governo do Estado, entre elas, a fazenda Ceres da Escola Agrícola de Lavras. Logo no primeiro ano dessa parceria com o Estado, a produtividade agradou o diretor Carlos Prates, que destaca:
Dentre os estabelecimentos subvencionados, convem destacar a fazenda Ceres onde está installada a escola Agrícola de Lavras, e as Escolas Dom Bosco, em Cachoeira do Campo. A Escola Agrícola de Lavras, creada e dirigida pelo sr. Dr. Samuel Gammon, foi esta escola subvencionada, de acordo com a instrução em vigor, em data de 1º de junho do anno passado.
71 A Escola Agrícola de Lavras
72 Os critérios para a manutenção das bolsas de estudo estão relacionados ao aproveitamento do
aluno. Há registros, nos relatórios, de alunos que perderam a bolsa por apresentarem aproveitamento aquém do exigido. Em 1920, por exemplo, das 10 bolsas disponíveis, apenas 8 foram preenchidas, “ficando abertas duas por falta de candidatos merecedores desse favor” (Relatório de Álvaro da Silveira, referente ao ano de 1920)
73 O posto zootécnico serviria para a instrução dos alunos e aprendizes e para servir à
comunidade, aos criadores da região que poderiam melhorar a raça dos seus rebanhos, utilizando os reprodutores do posto. As normas para essa utilização, bem como tabelas de preços foram estabelecidos pelo Estado e deveriam ser rigorosamente cumpridas pela direção da escola, responsável pela administração do Posto Zootécnico de Lavras. A partir de dezembro de 1913, a Secretaria da Agricultura designa uma verba mensal no valor de 200$000 para a manutenção do Posto Zootécnico, atendendo a solicitação da Escola Agrícola de Lavras. Em contra-partida, exige que não mais fossem cobradas as taxas de coberturas dos reprodutores, devendo ficar todas as despesas por conta da Escola.
Contem 58 hectares de terras dos quaes 17 se acham lavrados (...) Possue 18 machinas agrárias e 2 de beneficiamento, sendo: 10 arados, 2 destorroadores, 2 grades, 2 semeadores, 2 capinadores, 1 debulhador de milho e 1 máchina de cortar capim. Receberam o ensino prático de agricultura nesta escola 29 aprendizes. Os pagamentos efectuados pelo estado, até esta data, importam em 1:650$000. A produção foi avaliada em 200 alqueires de milho, 50 de arroz e 150 arrobas de batatas, estando a venda calculada em 400$000 para o primeiro produto, 250$000 para o segundo e 300$000 para o terceiro.74
A parceria entre a instituição e o governo do Estado intensifica-se com o passar dos anos. Sob o argumento da seriedade da administração da escola e dos benefícios que ela proporcionava à região, atendendo aos anseios do governo, investimentos eram feitos para a sua ampliação. O Diretor Álvaro Silveira, em relatório de 1917, atesta:
Durante o ano foram melhorados os laboratórios e adquiridos modernos aparelhos para o curso de agrimensura. Serve de campo de demonstrações para os alunos a fazenda-modelo ‘Ceres’ de propriedade da Escola e cujas instalações tem sido sempre melhoradas. Com a aquisição de porcos de raça, directamente importados dos Estados Unidos, tornaram-se necessários alguns melhoramentos nas pocilgas, melhoramentos esses que foram feitos também nos estábulos. Todo o gado foi tratado contra o carrapato, com o emprego de uma bomba simples e barata.75
Foi neste mesmo ano de 1917 criada a lei 690, no dia 10 de Setembro, pelo Congresso Estadual, autorizando o registro na Secretaria de Agricultura, dos diplomas de agrônomos conferidos pela Escola Agrícola de Lavras.
74 Relatório da Diretoria de Agricultura, Comércio, Terras e Colonização, referente ao ano de
1910, apresentado ao secretário da Agricultura, Dr. José Gonçalves de Souza
FIGURA 14: Desfile para comemorar o reconhecimento da EAL pelo Governo de Minas (1917) Fonte: Acervo do Museu Bi-Moreira
Nos relatórios da diretoria de agricultura a partir desse período e, principalmente, na correspondência trocada entre o diretor da escola, Benjamin Hunicutt e os responsáveis pelo órgão do governo, aparecem referências a verbas concedidas à fazenda modelo de Ceres para diversos fins76. É possível observar,
entretanto, nessas correspondências, o embate entre a instituição em busca de recursos e o Estado. Se por um lado o diretor da escola recorre continuamente ao poder público, requerendo verbas para diversos empreendimentos, inclusive para
76 Em ofício do dia 24.10.1913 , autoriza-se a aquisição de balança de pesar gado, deixando claro
de que o equipamento pertence ao Estado. No dia 28.10, outro ofício é expedido, autorizando verba de 200$000 para construção de abrigo para a balança. Esse abrigo é construído e as despesas ficaram em 222$000 e, conforme correspondência do dia 19.05.1914, a Secretaria de Agricultura recusa-se a pagar o excedente, liberando apenas a verba previamente votada. No dia 28.10 de 1913 é expedido ofício comunicando ao diretor da escola o indeferimento de verba solicitada para a construção de uma estrumeira. No dia 30.10.1913 é comunicada a impossibilidade de atender ao requerimento de passagens gratuitas para dois alunos da escola. Nessa mesma data é respondida uma solicitação de verba para publicação de monografias confeccionadas para estudo na escola. É solicitado o envio das monografias para análise do órgão. No dia seguinte, 31.10.1913, é respondida a solicitação de verba no valor de 750$000 para a construção de um banheiro carrapaticida, informando à direção da escola que para estudo da possibilidade de liberação da verba seria necessário o envio da planta, do orçamento e do atestado do presidente da Câmara de ter sido o único a ser construído no município.
aquisição de simples equipamentos e pequenas construções, a diretoria, por sua vez, impõe restrições, indefere pedidos77. Apesar da relativa tensão, pela leitura dos documentos percebe-se um relacionamento amistoso entre a instituição privada e o poder público. A parceria perdurou, ampliando-se a ponto de alcançar as diversas atividades realizadas pela escola.
Desde 1910, a Secretaria de Agricultura do Estado de Minas Gerais já oferecia prêmios aos alunos que se destacavam na escola. No prospecto de 1912, é anunciado:
A Secretaria de Agricultura de Minas Geraes, autorisada pela lei n. 530, de 20 de Setembro de 1910, offerece annualmente ao alumno que for indicado pelo corpo docente, como prêmio, uma viagem aos Estados Unidos do Norte ou a algum outro paiz, para alli continuar seus estudos agrícolas.
O ex-aluno da escola, formando da primeira turma, Manoel Deslandes, ao avaliar o seu desenvolvimento, após dez anos de existência, escreve:
Com a subvenção de vinte contos que o Governo federal concedeu este ano à Escola, vai este estabelecimento aumentar os seus laboratórios de modo a torna-los mais aproveitáveis. Além dos dez alunos que o governo do Estado mantêm na Escola, resolveu este mesmo governo dar um auxílio ainda maior, reconhecendo-a de modo a seus agrônomos terem diplomas garantidos e mais valorizados. O Governo federal aceitou o oferecimento que os docentes e discentes lhe fizeram para que o Instituto concorra de algum modo, nesta fase melindrosa que o país atravessa, para aumentar a produção no país, e assim, o diretor, vai trabalhar mais diretamente, prestigiado pelo governo, dirigindo a 4ª Exposição do Milho, criando clubes agrícolas, etc.
Esse relacionamento da escola com o poder público verifica-se também pelas homenagens prestadas àqueles que ocupavam cargos na área em nível estadual e federal. Em 1922, por exemplo, foi inaugurado o prédio “Carlos Prates”, onde funciona atualmente a Editora da Universidade Federal de Lavras,
em homenagem ao então diretor de agricultura do estado de Minas Gerais. Posteriormente construído, outro edifício homenageia um ocupante da pasta de agricultura em nível federal: o Edifício Odilon Braga.
A Escola Agrícola de Lavras surge, portanto, como um segmento dos projetos educacionais dos missionários presbiterianos que chegaram a Lavras na última década do século XIX, intimamente conectada às questões agrícolas no Brasil e, em Minas Gerais, em particular, cuja compreensão se faz imprescindível. A educação presbiteriana em Minas Gerais, especificamente no que se refere ao ensino agrícola, tem os mesmo objetivos dos que são implementados em outras regiões do país. Resta saber, com maior aprofundamento, que princípios educacionais nortearam as atividades da Escola Agrícola de Lavras? Quais as práticas pedagógicas adotadas? Em quais modelos praticados internacionalmente tais princípios e práticas se inspiraram? De que maneira deu-se a adaptação desses modelos às condições regionais? Que qualidades éticas e morais entendia-se que deveriam ser inculcadas para produzir novas atitudes mentais, hábitos e modo de vida em seus alunos e na sociedade local? Quais as estratégias adotadas para atingir a população regional? Qual foi o impacto desse projeto na região onde se instalou? A escola atingiu os seus objetivos propostos no que se refere à modernização da agricultura regional?