Quando se trata do pensamento e da organiza- ção política da Idade Média, não se pode esquecer do Renascimento (século XV), e nesse caso é obrigatório destacar a presença do pensador Nicolau Maquiavel, que marca o início de um pensamento moderno sobre a política, a qual aparece como uma atividade separada da religião. Além disso, ele constrói aquilo que pode ser denominado de uma teoria realista da política. Em sua famosa obra O Príncipe, esse pensador formula uma série de conselhos no sentido de o soberano conquistar e manter seu poder. Numa interpretação do pensamento de Maquiavel, pode-se afirmar que, para ele, a função da política seria colocar “ordem” no mundo, a qual po- deria ser interpretada como uma luta para “conquistar”, “manter” e “conter” o poder (HELD, 1987).
Esse pensador também desenvolveu as ideias de virtude e fortuna, que apontavam no sentido de que o bom governo é aquele portador da virtude, ou seja, o conhecimento e a dedicação à coisa pública e à fortuna, que estava associada à dimensão do acaso, da sorte que todo governante precisa ter para se manter no poder. Por fim, temos em Maquiavel um conceito de governo republicano, que seria formado, segundo Magalhães (2001, p. 46), por:
[...] mecanismos capazes de fazer valer a vontade da maioria e educar os membros da comunidade para viverem de acordo com a liberdade cívica e que criem limites para o exercício do poder arbitrário, seja ele do príncipe, da aristocracia ou do próprio povo.
A partir do século XVII, a grande inovação nas formas de pensar a política aconteceu no mo- vimento intelectual conhecido como contratualista. Segundo Bobbio e Bovero (1994), num sentido amplo, por contratualismo deveria se entender uma escola de pensamento político europeu, surgida entre os séculos XVII e XVIII, que colocava os fundamentos ou a origem do poder político num contrato firmado entre os homens. Os principais autores dessa escola foram Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacques Rousseau.
Devemos destacar que cada um desses pensadores tinha uma visão diferenciada sobre a melhor forma de organizar o poder político. Enquanto Hobbes defendia o modelo das monarquias absolutas, Locke era militante da causa da monarquia constitucional. Já Rousseau era defensor de um modelo republicano de organização.
O que unifica esses pensadores é o fato de colocarem a origem do Estado na vontade dos homens. A ideia do contrato pode ser vista como uma abstração, no sentido de justificar o fenômeno estatal como construído pela ação humana. Alguns conceitos são fundamentais no vocabulário contratualista (apesar das particularidades que cada autor confere a esses conceitos):
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Estado de natureza: momento em que os homens vivem semnormas e regras de regulação da vida social.
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Direitos naturais: direitos dos seres humanos que não são oriundosdo Estado, mas derivados da razão humana (MAGALHÃES, 2001).
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Contrato social: momento em que os homens saem do estado denatureza e decidem criar o Estado como instituição capaz de regular a vida social.
Jean Jacques Rousseau (1712–1778)
Declarou-se inimigo do progresso. Para ele, o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau, corrompendo sua natureza íntima. Frequentemente se resume a tese de Rousseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza, a sociedade o corrompe. Sua obra mais polêmica e discutida é O Contrato Social, na qual ele pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo, que não mais corrompesse o homem. Fonte: O Portal da História (2011).
O Quadro 5 ajuda a ilustrar melhor essa questão:
Teoria do contrato social
Estado de natureza Estágio pré-social/Vida não civilizada Contrato social Acordo/Pacto social Sociedade civil Surgimento do Estado/Vida civilizada
Quadro 5: Teoria do contrato social Fonte: Sell (2006, p. 27)
Vejamos alguns aspectos da teoria política de Hobbes, Locke e Rousseau. O primeiro deles, identificava no estado de natureza uma situação de guerra. Tal situação seria derivada do direito natural que todos possuem, sobre todas as coisas, que faz com que os homens entrem em guerra uns contra os outros. Para fugir dessa situação, Hobbes identifica a origem do Estado (sociedade ci- vil) como um cálculo da razão, que através do “cálculo de interesses e o desejo de paz” (HOBBES apud RUBY, 1998, p. 79) leva os homens a se associarem, formando uma associação política dedicada à garantia da conservação da vida de cada um a longo prazo:
Ela se conjura pela transferência da soberania para um só, que conserva seu direito contra todos os outros. Tal esforço de paz con- solida-se no Estado, esse soberano instituído, cujo papel consiste em proteger cada um, privando a todos (daí seu nome, Leviatã, réplica do monstro bíblico, sob a forma de um animal artificial), que submete cada um a concessões recíprocas, que realiza a paz alienando cada direito natural singular. (RUBY, 1998, p. 79).
O Estado, na visão de Hobbes seria fruto de um contrato de sujeição, o qual os homens o autorizariam a governar sem qualquer tipo de limite, desde que atuasse para a realização dos fins para os quais foi criado. Nas palavras de Hobbes:
Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. (HOBBES apud RUBY, 1998, p. 80).
Enquanto o Modelo Contratualista de Thomas Hobbes vai derivar no Estado Absoluto (sem limites), em John Locke temos a defesa do Estado Constitucional.
Vejamos os seus argumentos. Para ele, os direitos naturais correspondem à liber- dade, igualdade e propriedade. É para garantir esses direitos que os indivíduos criam a associação política. Ou seja, as leis devem garantir os direitos individuais e para isso o Estado deve ter sua ação regulada por uma Constituição.
Em Rousseau, temos a defesa do “cidadão legislador”. Ele analisa o surgimento do Estado em dois momentos. O primeiro que pode ser denomi- nado o “falso contrato”, em que se instaura uma associação política destina- da a perpetuar as desigualdades que surgem da instituição da propriedade privada. Já o segundo, denominado o “verdadeiro” contrato, que nasce no momento que os homens decidem colocar os seus destinos em suas próprias mãos, ou seja, através da soberania nas mãos do povo. Nas palavras de Ruby (1998, p. 82–83):
Cada um contrata consigo mesmo, assim como com o corpo social (o todo), do qual, cada um é membro indivisível. Princípio fundador do exercício da soberania democrática, o povo soberano não se identifica a uma multidão demográfica, mas percebe-se como um no ato de alienação (positiva) pelo qual cada um, unindo-se a todos, não obedece senão a si mesmo (I, 6), e encontra sua verdadeira liberdade na obediência à lei que deseja.