2.2 ASPECTOS CONCEITUAIS
2.2.2 O Repositório Institucional
[...] apesar dos desvarios do mundo e desabonos da fortuna, cada coisa tem o seu lugar e cada lugar reclama a coisa que lhe pertence [...] (SARAMAGO, 2006, p. 63).
Tammaro e Salarelli (2008) ressaltam a importância da biblioteca digital, incluindo os repositórios digitais como uma experiência das mesmas:
No modelo de arranjo digital em que a biblioteca digital cria a melhor infra-estrutura para a comunicação de uma comunidade específica, como, por exemplo, uma comunidade científica, ou de uma instituição, por exemplo, a universidade, a biblioteca digital assume a função de um laboratório onde as diversas ‘partes interessadas’ são estimuladas a colaborar para atingir o objetivo comum. Como exemplo desse novo papel das bibliotecas digitais pode-se apontar a experiência dos repositórios institucionais. As comunidades possuem alguns instrumentos operacionais interativos da biblioteca digital para executar determinadas funções, que administram diretamente com ou sem coordenação por parte da biblioteca (TAMMARO; SALARELLI, 2008, p. 136).
E, complementam:
As experiências dos repositórios institucionais, que são os que mais se aproximam do serviço antecipado por Vannevar Bush, mostram que neles o usuário não é apenas o autor dos conteúdos, permanecendo essencialmente passivo na gestão dos recursos. Ao contrário, ele possui algumas atribuições, como enriquecer de metadados a coleção e contribuir para torná-la acessível (e compreensível) também para outros consulentes, fora do estreito círculo dos usuários institucionais (TAMMARO; SALARELLI, 2008, p. 143).
Atkins (1998) propõe que:
O conceito de biblioteca digital está na analogia com um lugar onde se encontra um repositório contendo uma coleção organizada de publicações (que possam ser impressos) e outros artefatos físicos, combinados com sistemas e serviços que facilitem o acesso físico, intelectual, e disponível por longo tempo. (ATKINS, 1998, p.11).
Weitzel (2006) enfatiza que:
Os repositórios temáticos ou institucionais, de um modo geral, não substituem as publicações genuínas, tais como teses e dissertações, revistas científicas, anais de eventos, etc. Em outras palavras, os repositórios digitais não são publicações, são como bibliografias especializadas, ou melhor, são serviços de indexação e resumo constituídos pelas próprias comunidades científicas. Sua função precípua é permitir o acesso organizado e livre às publicações e a toda a produção científica.
Isto é feito de forma descentralizada e dependente da iniciativa de cada autor. Por isso, é fundamental que sejam instituídas políticas para cada repositório, a fim de incentivar o maior número de depósitos da produção científica para estimular a disseminação e uso desta produção, mas também como forma de espelhar a memória institucional ou de uma área. (WEITZEL, 2006, p.61).
Portanto, repositórios institucionais são um caso particular de bibliotecas digitais, nos quais é esperado que o autor (produtor) dos conteúdos seja também responsável pela alimentação dos repositórios. E ainda, segundo Atkins (1998), pode-se entender o termo repositório como o artefato tecnológico (em analogia, a base de dados) que possibilita a
construção de bibliotecas digitais. Neste trabalho, considera-se que repositórios institucionais são alimentados pelos autores, produtores dos documentos digitais, ou por profissionais de informação (bibliotecários) das instituições de pesquisa.
Segundo Mueller: “O movimento para acesso livre ao conhecimento cientifico pode ser considerado como o fato mais interessante e talvez importante de nossa época no que se refere à comunicação cientifica” (MUELLER, 2006). Segundo Costa (2006), o modelo de desenvolvimento de pesquisa científica consiste de cinco ações básicas:
• autores são financiados por suas instituições ou por agências de fomento (maioria esmagadora dos casos, em todo o mundo) para realizarem suas pesquisas;
• autores realizam pesquisas, escrevem sobre seus resultados e submetem seus manuscritos a um editor;
• editores solicitam parecer sobre os manuscritos a pesquisadores especialistas na área de interesse;
• se aceito o trabalho, editores o publicam;
• a audiência desses pesquisadores autores tem o acesso a seus trabalhos restringido pelos custos das assinaturas dos periódicos em que publicaram. (COSTA, 2006, p.47).
Assim, segundo Costa (2006), os países ricos “estão começando a questionar a eficiência do sistema de publicação, dominado por interesses comerciais e estão começando a demandar que a pesquisa que eles financiam esteja tão amplamente acessível quanto possível”. Em seguida, o questionamento alcança outros países, especialmente os países em desenvolvimento, que dependem do acesso a resultados de pesquisa. Desta forma, a discussão de condicionar a concessão de financiamento público à pesquisa ao depósito dos resultados em repositórios de acesso aberto está em progresso em vários países.
Portanto, e como afirma Mueller, “O movimento pelos repositórios institucionais, especialmente nas universidades, é outro indicador importante de aceitação” (MUELLER, 2006). Pode-se afirmar que hoje se torna imperativo, nas universidades e centros de pesquisa, a utilização de repositórios institucionais.
Os repositórios institucionais reúnem documentos produzidos na instituição. Por exemplo, repositórios de uma universidade reuniriam toda a produção científica ou acadêmica produzida na universidade, em forma digital, formando coleções de documentos digitais. Os mantenedores dos repositórios assumem então a responsabilidade de preservá-los, atribuindo-lhes, portanto, funções de memória institucional, mas a função principal é aumentar a visibilidade da instituição, permitindo e estimulando o acesso à produção da universidade. Os repositórios são abertos a todos os interessados, oferecendo meios de busca, identificação e recuperação. Todo tipo de documento produzido na universidade seria depositado no
repositório universitário, como trabalhos dos professores e pesquisadores apresentados em congressos e reuniões profissionais, versões de artigos impressos, relatórios de pesquisa, programas de disciplinas e textos elaborados para aulas, trabalhos elaborados por alunos, teses e dissertações, trabalhos de disciplinas e outros” (MUELLER, 2006, p.32).
No cerne da questão está o fato de que a informação cientifica – resultado de pesquisa científica, produzida em Universidades e centros de pesquisa pública, financiada através de investimentos públicos, deveria ser um bem público, disponível e acessível tão amplamente quanto possível (COSTA, 2006). Kuramoto (2006) enfatiza este fato: “É importante ressaltar que as pesquisas científicas, em sua maioria, são financiadas pelo Estado, portanto, com recursos públicos. Do ponto de vista ético, os resultados dessas pesquisas deveriam ser de livre acesso”.
Mais do que livremente disponíveis, espera-se que esses resultados/trabalhos, estejam acessíveis on-line, isto é, sejam documentos digitais (ou seja, objetos digitais - unidades de informação cujo conteúdo está codificado em meio eletrônico para uso pelo computador) disponíveis através da Internet.
Assim, o interesse pela implantação de bibliotecas digitais e repositórios institucionais vem crescendo em todo o mundo, em especial, no âmbito das instituições de ensino superior e, com ele, surgem na literatura, trabalhos científicos, relatos e estudos que buscam divulgar e mapear este crescimento e apontar as características deste tipo de serviço, no contexto do acesso aberto à informação.
No Brasil, as discussões sobre acesso aberto/livre surgiram com as iniciativas nacionais de implantação do Scientific Electronic Library Online (SciELO), da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e da distribuição de sistemas como o Sistema de Publicação Eletrônica de Teses e Dissertações (TEDE) e o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER). Da mesma forma, também contribuíram para a discussão a realização de eventos voltados à publicação eletrônica e bibliotecas digitais, como: o 8th International Conference on Eletronic Publishing (ICCC) (2004), as edições da Conferência Ibero-Americana de Publicações Eletrônicas no âmbito da Comunicação Científica – CIPECC, as edições do Simpósio Internacional de Bibliotecas Digitais e o Seminário Internacional de Bibliotecas Digitais. Estes eventos além de fomentarem a discussão, serviram para confirmar o interesse de pesquisadores e profissionais da Ciência da Informação e Biblioteconomia para
a questão do acesso aberto/livre, como alternativa para acelerar a organização, o registro, a disseminação, o acesso e preservação do conhecimento científico produzido em instituições de pesquisa.
Utilizando a definição de repositório institucional de Lynch (2003): “repositório institucional é um conjunto de serviços que a universidade oferece aos membros de sua comunidade para a gestão e disseminação de materiais digitais, criados pela instituição e por membros de sua comunidade”, pode-se afirmar que os objetivos da implantação de repositórios institucionais são: difundir, disseminar, divulgar e permitir o acesso à produção científica, preservar os conteúdos produzidos, aumentar a visibilidade institucional e da produção científica da instituição, reunir a produção da universidade em uma única base de dados, organizar e armazenar a produção cientifica da instituição e manter a integridade da produção científica armazenada.
Na pesquisa realizada por Carvalho, são apresentadas diretivas para o projeto de implantação de repositórios institucionais:
As estratégias utilizadas ou planejadas para aumentar a contribuição de docentes e pesquisadores são: realizar campanhas de divulgação interna e externa; ministrar palestras de sensibilização para diretores e docentes; divulgação dos benefícios; aprovar o RI nos colegiados; demonstrar a qualidade do RI para angariar a confiança do usuário; tornar o depósito obrigatório; realizar a coleta diretamente nas Secretarias dos Programas e solicitar o de apoio dos Coordenadores e Secretários de Programas; criar o RI oficialmente na instituição, propor ações de estímulo ao acesso; utilizar e compartilhar o acervo nas diferentes atividades de ensino, pesquisa e extensão; oferecer treinamentos para depósito; apresentar as estatísticas e os relatórios para os coordenadores de unidades acadêmicas; divulgar as estatísticas de depósito, de acesso e de uso comprovado dos trabalhos depositados; e utilizar os dados do RI para avaliação institucional interna. (CARVALHO, 2008).
Após discorrer sobre a importância de implantação de repositórios institucionais e sobre as diretivas para sua criação e alimentação, cabe a discussão do ‘novo’ documento, o ‘documento digital’.