dever, uma obrigação revestida do mais profundo amor, da compreensão e de saudades dos seus entes queridos. Eram ali seus legítimos irmãos, que caçavam como se caçaria nos tempos primitivos feras animalizadas, onde todo cuidado é pouco e toda atenção necessária, pois, devido às deturpações, provavelmente tinham perdido suas formas e seus padrões de comportamento. Seriam agressivos e lutariam contra aquele resgate até que a última gota de suas energias acabasse.
Respectivamente, outras naves se dirigiam para pontos fundamentais; durante muito tempo, anos, foram empregados na construção de paredes ou cercas magnéticas em torno daquele vale onde residia o núcleo organizacional, o cérebro do etérico; seu quartel general, de onde saíam todas as ordens de comando a serem executadas. Outros grupos de amacês interromperam os seus suprimentos ectoplasmáticos, grandes usinas armazenadoras de forças extraídas da Terra, impedindo que eles se alimentassem com energias vindas do planeta físico.
Por último, um grupo, de duas amacês, que estacionou mais acima e tinha a missão de construir uma plataforma a lhe servir de apoio, de moradia e de descanso, como também uma grande ala, um departamento hospitalar com todos os recursos espirituais destinados aos resgatados pelos cavaleiros caçadores – legião de espíritos especializada nesse tipo de trabalho, de socorro e recolhimento de outras almas de outros planetas. Eles possuíam experiência nesse campo e não era a primeira vez que mergulhavam nos vales e pântanos escuros em busca de almas perdidas.
E assim todas as diligências foram tomadas, tendo o comando pessoal do seu idealizador, o Pai Seta Branca, que mesmo encarnado, se desprendia do corpo durante o seu merecido descanso físico e se desdobrava até aquelas regiões onde ele
mesmo fazia questão de comandar e orientar todo o trabalho.
Para o espírito iluminado, esclarecido, dono do seu destino pelas conquistas no amor e no bem, o corpo físico nada representa. Não é obstáculo a impedir que ele continue no seu plano, as tarefas que tem; é bem verdade que, em muito casos, por uma questão de respeito e reconhecimento aquela entidade iluminada o mundo espiritual poupa-lhe o desgaste de uma encarnação, situação essa que de forma alguma foi aceita pelo Pai Seta Branca...
Numa dessas noites altas que avançam pela madrugada, o Pai Equitumãn, na roupagem de Tumuchy dava orientações a um grupo que partiria em breve para regiões escuras, comunicando-os sobre os cuidados e o carinho que tinham que ter com aquelas almas sofridas, pois os cavaleiros trabalhavam em turnos e se revezavam constantemente. Quando então discursava aos que em breve partiriam às tarefas daquela noite, um mensageiro penetra no ambiente, trazendo no rosto as feições que revelavam seu estado de complacência, preocupação e ao mesmo tempo de surpresa. O Pai leu-lhe os pensamentos e, perspicaz, colheu de imediato a informação de que o primeiro grupo, os primeiros capturados acabavam de chegar.
Por mais evoluído que fosse aquele angélico espírito, dificilmente poderia adivinhar as formas e os aspectos individuais de espíritos que permanecem muito tempo em regiões do submundo, onde o teor animalizado das energias operavam transformações impressionantes, mutações que são inconcebíveis ao cérebro humano; cada um, na degradação de seus pensamentos, de suas mentes, assumia uma permutabilidade individual. Apesar da larga experiência que tinha, extraída de muitas vidas, e de uma ascensão evolutiva edificada pelos caminhos comuns a todas as criaturas, o Pai Seta Branca sentiu as
emoções e apreensões, acelerando-lhe as batidas do coração. Havia vivido e presenciado muito conflitos, dores e sofrimentos, mas aquilo, para ele era uma experiência nova, pois os caçados eram as pérolas de sua coroa, a preciosidade do seu coração que não mais se dividia, pois, pela extensão do seu amor, seu coração era a terra que todos os filhos habitavam. Não, não era seu o coração que no peito lhe batia. Mas representava sim a união e os laços de amor sublime e verdadeiro de todos que formavam seu centro coronário.
Baixou então a fronte, e, em silêncio, elevou-se em prece, pedindo a Jesus que não o abandonasse naquela jornada. Energias novas lhe invadiam o espírito. Ele, entre amoroso e decidido, caminhou para a porta de entrada, onde minutos adiante desembarcaria aquela esperada comitiva.
Eram cerca de trinta espíritos. Mal se podiam distinguir suas formas; homens e mulheres que não mais caminhavam; somente se arrastavam, como se seus corpos envergassem todo o peso da terra em suas costas. Seus aspectos haviam se transformado. As extremidades de seus corpos haviam crescido, como num desenho rascunhado, desorientado por mão de um artista deformado, com tendências e idéias horrendas. Não se reconheciam como humanos.
Perderam a forma da natureza humana. Seus membros deformados, muitas vezes se arrastavam pelo caminho, como relva rasteira, a se espalhar pelos arredores. Os corpos, pareciam camuflados por folhagem úmida e lamacenta; seus olhos diminuídos pelo crescimento de suas cabeças inchadas não haviam, entretanto, perdido a expressão de seus espíritos, de suas evoluções.
Apesar de terem perdido o brilho e a luz, no fundo de seus corações revelavam a natureza de seus sentimentos puros e verdadeiros, suas conquistas espirituais; apesar de guardarem nessa altura poucas lembranças de seus passados, que perdidos no
esquecimento, numa espécie de amnésia espontânea, em que no esquecimento encontravam o alívio momentâneo de suas culpas e responsabilidades; dos remorsos e humilhações que haviam sofrido. Essa, aliás é uma das facetas da mente humana: afastando-se da verdade, vai apagando da memória aquilo que lhe causa dor e vergonha. É uma espécie de bloqueio, aonde chegamos a nos distanciar completamente das nossas realidades.
Todos então correram com macas, cercando-os de todos os cuidados possíveis, que somente dedicamos a quem verdadeiramente amamos. Todos que ali se encontravam se compadeceram nas fibras mais íntimas de seus corações. Houve uma comoção geral, onde todos ofereciam de si o que podiam em pedidos aos céus, para que não desamparassem aqueles hipo-humanos, almas de suas almas, irmãos de seus sentimentos mais puros e sinceros. Se pudessem, aqueles mensageiros da luz assumiriam metade dos padecimentos e sofrimentos que reconheciam em seus irmãos revoltosos pelos gemidos e gestos de desespero e agonias...