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O «rigor» científico

No documento Os factos do direito (páginas 87-91)

C. Regras constitutivas

7. O «rigor» científico

Isto não significa, todavia, que as disciplinas filosóficas atualmente conhecidas como ciências sociais e humanas não sejam, tal como as ciências naturais, igualmente passíveis de observação e registo. O conselho fornecido por JOHN STUART MILL ao Estado no sentido de que os exames sobre religião, política, ou outros assuntos controversos não devem estar dependentes da verdade ou falsidade da opinião, mas sim do facto de que tal e tal opinião é defendida, por tais razões, por tais autores, escolas ou igrejas31 demonstra que os objetos de estudo criados pelo

pensamento humano são, tais como os objetos de estudo criados pela natureza, passíveis de observação e registo. Contudo, ao passo que os fenómenos naturais evoluem independentemente do estudo que deles se faça, tanto no sentido de que a existência do objeto estudado não se encontra relacionada com a existência da disciplina que o estude, como no de que a observação não afeta aquilo que é observado, o fruto do pensamento humano, por seu turno, não é passível de ser somente observado e registado; dito por outras palavras, a

manutenção do pensamento humano implica necessária e simultaneamente a sua modificação

porque, se uma realidade do domínio das ideias for encarada pura e simplesmente como um facto histórico, a mesma estará condenada a desaparecer. Desta forma, estudar, por exemplo, o conceito de Justiça, em virtude precisamente de este ser formulado por seres humanos, implica ir muito além da mera observação e registo, sendo necessário desenvolvimento, reformulação e, porventura, modificação do objeto original do estudo. A Justiça não é, deste modo, um objeto de estudo extrínseco às disciplinas que a abordam, visto que não tem uma existência independente da dessas mesmas disciplinas. A Justiça é criada e desenvolvida pela Ética, não sendo indiferentes, para o seu estudo, as contribuições da Teologia ou do Direito, por exemplo. Este estado de coisas conduz, por vezes, a uma conclusão a todos os títulos errada, e que deriva de uma confusão precisamente entre o objeto de estudo de uma disciplina filosófica e a forma de pensar sobre o mesmo. Com efeito, constatando-se que há disciplinas filosóficas que tratam de factos brutos, e disciplinas filosóficas que incidem sobre factos mentais, certos autores defendem que as primeiras são mais rigorosas do que as segundas, usando como argumento para sustentar a distinção a possibilidade de verificação através de demonstração empírica existente nas ciências naturais. Na medida em que não cremos que os defensores desta posição ignoram que o rigor é uma característica do pensamento humano, e não de fenómenos e eventos da natureza, a única explicação possível para sustentar a admissibilidade desta hipótese encontra-se na assunção de que o pensamento científico é mais rigoroso do que o dos demais filósofos na medida em que apenas os cientistas naturais poderão alcançar a verdade,

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dado que apenas na ciência da natureza as várias teorias e hipóteses postuladas podem ser refutadas ou confirmadas não através de argumento, mas sim de verificação empírica. Isto implica que se faça uma outra assunção, a saber, a de que a verdade só é cognoscível através dos sentidos, e não do intelecto, o que revela ignorância da lição que acima extraímos da Alegoria da Caverna, segundo a qual toda a realidade, tanto física como intelectual, se encontra obscurecida por sombras. Como vimos, esta metáfora pretende significar que é impossível ao pensamento humano chegar a um estado de elucidação que atinja a verdade objetiva e que acarrete consigo o fim da Filosofia, i.e., a desnecessidade de prosseguir com a investigação filosófica, e isto tanto no âmbito das ciências sociais e humanas como no das ciências naturais. Contudo, ao fazerem-se estas duas assunções, chega-se à conclusão, manifestamente errada, de que se pensa de uma forma rigorosa no âmbito das ciências naturais porque só aí é possível apurar a verdade; no domínio das demais disciplinas filosóficas, todo o pensamento é especulativo, e, por não ser empiricamente demonstrável, não é possível apurar a verdade; logo, é um pensamento menos rigoroso.

Ao se fazer derivar o grau de rigor do pensamento da possibilidade de verificação empírica das teses postuladas está-se a confundir o objeto de estudo com a forma de se pensar acerca dele, e, de uma forma indevida, transpõe-se o rigor, que é uma característica do pensamento, para o objeto de estudo. Segundo este prisma, uma área do saber é tão mais rigorosa quanto a sua capacidade de demonstração empírica da veracidade das doutrinas, hipóteses e teorias formuladas pelos peritos em questão.

Contudo, a partir do momento em que se entenda que o rigor, que é uma qualidade do pensamento humano, não é comunicável ao objeto de estudo sobre o qual o pensamento incide porque, pelas razões avançadas por HUME e S.TOMÁS, não se pensa de forma diferente quanto à matéria e quanto à realidade ideacional, chega-se à conclusão de que uma investigação filosófica acerca do significado de, por exemplo, termos e expressões como «Justiça», «princípio da legalidade», «segurança jurídica» ou «Estado de Direito», poderá ser mais, menos ou tão rigorosa quanto uma investigação científica acerca do comportamento das células nos corpos ou do funcionamento de placas tectónicas, mas isto depende exclusivamente do empenho do investigador em questão, e não do assunto que é investigado.

Uma das razões para esta forma errada de atribuição às ciências naturais de um «rigor científico» que supostamente se encontra ausente da restante investigação filosófica, e que acaba por conduzir à conclusão de que a forma de pensar varia consoante o objeto de estudo seja a matéria ou o pensamento humano, resulta possivelmente de uma interpretação incorreta de algo que ARISTÓTELES diz, a saber, «que, de facto, não tem de se procurar um mesmo grau

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de rigor para todas as áreas científicas».32 À primeira vista, Aristóteles parece estar a conceder que há disciplinas filosóficas mais rigorosas do que outras; a ser assim, não nos restaria outra alternativa senão afirmar que o autor, nesta instância, diz algo incorreto. Contudo, parece-nos que se trata de um mero lapso linguístico, visto que, posteriormente, ARISTÓTELES esclarece

que

[d]amo-nos (...) por satisfeitos se, ao tratarmos destes assuntos, a partir de pressupostos que admitem margem de erro, indicarmos a verdade grosso modo, segundo uma sua caracterização apenas nos traços essenciais. Pois, para o que acontece apenas o mais das vezes, com pressupostos compreendidos apenas grosso modo e segundo uma sua caracterização nos seus traços essenciais, basta que as conclusões a que chegarmos tenham o mesmo grau de rigor. Do mesmo modo, é preciso pedir que cada uma das coisas tratadas seja aceite a partir dessa mesma base de entendimento.33

Ora, o exemplo porventura mais claro de assuntos cujos «pressupostos admitem margem de erro» encontra-se nos assuntos criados pelo pensamento humano, e, por isso, na medida em que há uma margem de erro, a verdade só pode ser indicada grosso modo. Assim, não é por uma questão de rigor, ou de falta dele, que é mais controvertido apurar o pensamento de Shakespeare manifestado em Hamlet do que chegar ao entendimento verdadeiro do processo de fotossíntese nas plantas. Tanto críticos literários como cientistas que se empenhem em descobrir as verdades encerradas nos seus respetivos objetos de estudo usam o mesmo rigor na investigação, ainda que aos primeiros apenas lhes seja possível indicar a verdade grosso modo (o que, em todo o caso, também é válido para os segundos, tendo em atenção o que foi dito a propósito da Alegoria da Caverna); o que os diferencia é a maneira como a crítica literária e a ciência natural tentam descobrir as verdades daquilo sobre que se debruçam, dado que essa maneira tem que se ajustar às características do objeto estudado. Assim, apurar a verdade acerca do funcionamento da fotossíntese nas plantas implica observação, que, no caso, se traduz em efetuar experiências laboratoriais e registar os resultados das mesmas, ao passo que apurar o verdadeiro pensamento de Shakespeare manifestado em Hamlet não implica observar reações biológicas mas sim ler Hamlet, porventura as demais obras de Shakespeare, crítica literária shakespeariana bem como outros textos que se revelem importantes durante a investigação, e, a partir daqui, tentar perceber as alusões feitas pelo autor no texto. Tanto experiências científicas como críticas literárias podem ser feitas com maior ou menor rigor, mas isso depende exclusivamente do investigador em questão e não da área do conhecimento em que a investigação se processa. O maior grau de consenso que indubitavelmente existe entre cientistas quando se compara o grau de consenso presente entre especialistas das áreas do

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Direito, da ciência política, da literatura ou da psicologia, por exemplo, não deriva, por conseguinte, de um suposto rigor inerente às ciências da natureza que faz empalidecer por comparação o rigor das demais áreas do saber. Esse maior consenso deriva da circunstância de haver muitos factos brutos sobre os quais os cientistas especulam que permitem a comprovação ou refutação dessas mesmas especulações através de observação empírica. Nas áreas do saber que se debruçam sobre realidades não apreensíveis pelos sentidos não há verificação empírica possível porque o objeto da investigação, o pensamento especulativo, é simultaneamente criação humana, e, por isso, é interno à disciplina que o estude. Nas ciências naturais, o pensamento especulativo serve para entender o funcionamento da matéria. Nas demais áreas do conhecimento, o próprio pensamento especulativo é constitutivo das mesmas.

Desta forma, aquilo a que se pretende aplicar a expressão «rigor científico» nada mais é do que a constatação trivial de que as ciências naturais estudam matéria e fenómenos que não são criados pelo ser humano e que não estão sob o seu controlo. Seria tentador aproveitar este fio argumentativo para arguir que, na realidade, as ciências naturais nem sequer são «rigorosas» no sentido erróneo que temos vindo a discutir, dado que não faltam exemplos históricos de paradigmas «científicos», «rigorosos», que acabaram por se revelar totalmente falsos, como, por exemplo, a conceção de que a Terra é o centro do Universo e que todos os restantes corpos celestes giram à sua volta. Mas tal argumentação seria falsa porque implicaria confundir o objeto de estudo das ciências naturais com a forma de entender esse mesmo objeto de estudo, o que entraria em contradição com o que temos vindo a defender até aqui. É perfeitamente possível, e seguramente provável, que o entendimento que os seres humanos têm de certos fenómenos naturais seja falso, e que essa falsidade não tenha sido até agora detetada por ainda não existir tecnologia adequada para se proceder à verificação empírica da veracidade de determinadas teorias científicas. Note-se, portanto, que, nestes casos, as ciências naturais encontram-se exatamente na mesma situação das demais disciplinas filosóficas, ou seja, os cientistas não têm alternativa ao método que consiste em tentar explicar o funcionamento de determinado fenómeno natural através da postulação de teorias especulativas insuscetíveis de verificação empírica, do mesmo modo que os filósofos não podem demonstrar a veracidade das suas doutrinas acerca do «Justo», do «Belo» ou do «Bom» apontando para um pedaço de matéria e verificando se aquilo que eles defendem é verdade. Assim, também os cientistas partem, por vezes, de «pressupostos que admitem margem de erro». Daqui conclui-se que o raciocínio científico é filosófico, especulativo, e, portanto, assenta exatamente sobre as mesmas bases que o raciocínio das chamadas ciências sociais e humanas.

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