As ruas centrais do Rio de Janeiro foram eternizadas pelos escritores da literatura brasileira. Neles estão vivas construções, praças, ruas e vielas; o conjunto urbanístico da sociedade daquele século, de forma a transportar o leitor em uma viagem ao tempo. A topografia do Rio de Janeiro oitocentista compõe o cenário para os romances brasileiros como os bairros de Santa Teresa, Engenho Velho, de Laranjeiras, Glória, Flamengo, Botafogo, Largo de São Francisco de Paula; as ruas Bela Princesa, da Quitanda, do Ouvidor, da Assembleia, da Misericórdia, Sete de Setembro, dos Ourives, da Ajuda, do Hospício; a Praça do Comércio, o Passeio Público, O Catete, o Aqueduto da Lapa, além de importantes lojas na Rua do Ouvidor, da Capela Imperial, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do Hospital da Misericórdia, entre outros.
Assis e Alencar descrevem com perfeição um quadro do que foi o Rio de Janeiro dos oitocentos, apresentando fatos precisos daquela época, como a construção da Santa Casa da Misericórdia e as ruas de comércio, muito importantes no Rio do século XIX, e que marcaram presença obrigatória nos romances. A Rua do Ouvidor, a mais sedutora do Rio, por exemplo, era um local no qual se concentravam as mais luxuosas e caras casas de comércio da época, onde ricos e pessoas de boa posição faziam suas compras. Na Ouvidor, concentravam-se as famosas lojas dos franceses e ingleses. Tal era a importância da rua para o Rio
oitocentista que o romancista Joaquim Manuel de Macedo (1963) dedicou-lhe o livro
Memórias da Rua do Ouvidor, e com dez adjetivos a definiu como “a mais passeada
e concorrida, a mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro, fala, ocupa- se de tudo [...]” (MACEDO, 1963, p. 1).
O escritor descreve que a rua era famosa pelas lindas vidraças das lojas e pelo estabelecimento de luxuosos comerciantes estrangeiros, principalmente os franceses. As pessoas de posses e aparência nela gostavam de passar, mesmo que não comprassem nada. Nela estavam estabelecidos os famosos alfaiates como o Raunier, a Camisaria Especial, a florista madame Ronsevald, a florista Mme Finot, Mme Joséphine, a caríssima e a mais célebre das modistas francesas; a Casa Edison, e os finos sapateiros, como o Milliès e o Campás, o Masset, o vendedor de luvas, a loja Wallerstein de artigos finos parisienses, a casa Desmarais, as livrarias Laemmert, precursora da Garnier e, finalmente, o Hotel Europa; todos muito presentes nos romances de ficção, sobretudo em Alencar.
Na Ouvidor as novidades e as notícias do mundo afora primeiro chegavam. Era o ponto de encontro de intelectuais, aristocratas e flanêurs12. Era o local no qual as mulheres entravam em delírio com os luxuosos artigos de consumo e terror para o bolso dos maridos, sobretudo os menos abastados. Conta Macedo que as mulheres só queriam ir a festas, saraus, batizados e reuniões com os vestidos da Rua do Ouvidor, o grande império da moda. Lá os dândis e as moças bem vestidas costumavam mostrar suas roupas em passeios na Rua do Ouvidor; os moços de posses costumavam divertir-se em um café-concerto, o mais conhecido, o Alcázar.
Segundo Macedo (1963, p. 110), o Alcázar era o “teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas, que corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade”. Descreve que o teatro foi a causa da degeneração do teatro nacional. No romance Senhora, Alencar (2005) menciona o teatro como um dos locais mais frequentados por Fernando Seixas, o que era comum para os rapazes que desejavam ostentar certo modo de vida relacionado
12
Um termo que vem do francês e significa vagabundo, vadio ou preguiçoso; alguém que perambula sem compromisso por uma cidade, alguém que percorre as ruas sem objetivo aparente, mas secretamente atento à história dos lugares por onde passa e à possibilidade de aventuras estéticas ou eróticas (Dicionário Informal).
ao luxo. Na Rua do Ouvidor o personagem almoçava “à fidalga” no Hotel Europa e lá ficava em rodas da sociedade, assim como Horácio, de A pata da gazela, e Jorge, de Iaiá Garcia, os rapazes da moda, os dândis, os leões dos romances.
Os ricos e abastados moravam em bairros nobres. Nos romances aqui analisados, Laranjeiras está presente em Senhora e em A pata da gazela. Nas Laranjeiras, Amélia, filha de um abastado consignatário de café estabelecido à Rua Direita, e Aurélia Camargo moravam em luxuosas chácaras. Em Dom Casmurro, Bentinho e Capitu moravam, quando adolescentes, na Rua de Matacavalos, no Engenho Novo e, quando casados, na Tijuca. Aí também foi o local onde Jorge e Estela deram seu único beijo, em Iaiá Garcia. No Morro do Livramento, onde nasceu Machado de Assis, Brás Cubas relembra que brincava com o amigo de escola. Na Gamboa, ele se encontra com a ex-namorada Virgília, mulher casada com quem teve um caso.
Outros pontos de lazer do Rio Oitocentista também estão presentes nos romances como O Cassino Fluminense, famoso clube da Rua do Passeio Público e salão de maior sucesso durante o Segundo Reinado, frequentado, inclusive, pela Família Real; foi referência em Senhora e Lucíola. No primeiro, Alencar referencia também O Teatro Lírico, um teatro para grandes espetáculos, inclusive óperas, que existiu na cidade do Rio de Janeiro entre 1852 e 1875, portanto, ainda existente à época da publicação do romance em 1875: “As moças conversavam alto; no meio dessa garrulice ouviu Fernando que falavam da representação de uma ópera que se dava então no Teatro Lírico” (ALENCAR, 2005, p. 45).
Vale lembrar que o Rio de Janeiro foi consagrado já nos primeiros romances brasileiros, como A moreninha, 1844, e O Moço Loiro, 1845, de Joaquim Manuel de Macedo, tendo como pano de fundo a sociedade carioca do século XIX.
4 LITERATURA E SOCIEDADE NO SÉCULO XIX
4.1 BRASILIDADE NO ESPÍRITO ROMÂNTICO: O INÍCIO DA LITERATURA