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O riso na clínica do sofrimento psíquico grave

No documento O riso pela lógica do Palhaço na (páginas 48-51)

A lógica de obtenção da felicidade pode cair no pensamento da beleza social, aquela que às vezes esconde com máscaras a matéria do corpo. Ao desdramatizar esta configuração, transformando a pessoa ou a sociedade em coisa, desconfigurada, ridícula, pode-se perceber o cômico com o riso bergsoniano, pelo efeito de distração e nonsense, certo bloqueio na alma, e não a repetição da flexibilidade que tanto a vida pede para que a humanidade cumpra. Já o humor freudiano vem dizer que a todo o momento a pessoa pode lidar com situações complicadas e que, se por um lado é importante aceitar essa condição de falta, como a possibilidade de morte, por outro é possível gerar uma potência capaz de glorificar a vida, e poder rir de si e do outro. Para Kupermann (2005), o humor parece apontar “tanto para uma extrema vitalidade quanto para a mortificação, em uma estranha oscilação entre vida e morte” (p. 22). O autor ainda faz referência à ambivalência e ao paradoxo do tragicômico, o que conflui em concordar com a dificuldade de compreensão do humor. Para Slavutzky, o humor “consegue brincar com o pânico do homem, que é a morte, o equivalente da castração,

36 que representa a perda das perdas” (p. 223). Já o chiste cumpre a lógica da linguagem do inconsciente freudiano, com o aparecimento da palavra em seu sentido inusitado.

Em relação ao aspecto do efeito risível do humor, do cômico e do chiste poder apresentar-se com características semelhantes, Gilbert Diatkine (conferência proferida na Sociedade Psicanalítica de Paris, 15 de novembro, 2005) resume algumas proposições sobre tal fato, tais como: a) a distinção entre humor, cômico e chiste é menos absoluta do que afirmou Freud; b) nos três casos, o superego é reduzido ao silêncio – no chiste, por meio de técnicas verbais refinadas; no cômico, por uma utilização sábia da imagem; no humor, através da apresentação de uma realidade ameaçadora em forma de brincadeira; sendo que em todos esses mecanismos os processos secundários (pré-conscientes e conscientes) são utilizados para dar acesso ao processo primário (inconsciente) e à satisfação das pulsões sexuais e agressivas recalcadas. Para o autor, tanto um quanto outro processo permite rir de onde se poderia sentir angústia, como se nos três casos ocorresse suspensão da inibição e, conseqüentemente, satisfação das pulsões normalmente proibidas.

Os estudos do riso na clínica do sofrimento psíquico são raros. Sobre as práticas psicoterápicas, Birman (2005) comenta que têm um melhor rendimento “quando uma atmosfera de bom humor e de chiste se faz presente no espaço terapêutico” (p. 88), em que novos canais de comunicação podem abrir-se, potencializando o discurso e a narrativa de pessoas com sofrimento psíquico, dando lugar à palavra. O autor chama a atenção para a desdramatização do estilo dramático ao qual está submetido o sofrimento psíquico, certa desconstrução da realidade ou subversão da ordem, aspectos acentuados no humor. Ainda considera que “o chiste, o humor e o riso se inscrevem como formas de o sujeito poder efetivamente lidar com o mal-estar” (p. 95).

Sobre isto, Ungier (2005) reflete que “se o ato psicanalítico pode ser aproximado do ato político pelo que tem de revolucionário, o humor se revela um instrumento privilegiado de intervenção, justamente por oferecer essa subversão” (p. 253). A arte, e o riso nela embutido, vêm dessa forma contribuir com uma parcela daquilo que é entendido como modo de representação humana, na medida em que se permite rir do que é mais cruel: a própria morte. Talvez como um grande mestre palhaço Márcio Libar diz que só ama verdadeiramente aquele que pensa na morte, ou ainda pensar na morte para produzir vida. Eis uma questão simbólica possível na e pela Arte,

37 em que há uma construção da mediação do processo de laço social de forma sublime e mesmo indizível.

Ribeiro (2006) faz um interessante estudo sobre o riso na clínica do sofrimento psíquico grave, mais especificamente aborda questões de tal fenômeno nas psicoses e questiona se “o riso, o humor, o dito espirituoso, seriam tentativas pontuais de cura, maneiras de tratar o real do gozo pelo significante?” (p. 16), ao mesmo tempo em que concorda que o riso faz laço na clínica psicanalítica com “psicóticos”. Isso se deve principalmente ao fato do processo que envolve o riso fazer corte ao mecanismo que a psicose apresenta, em que o sujeito é invadido por um “Outro”. Porém, quando há um nonsense possível para o riso existir, é como se esse terceiro que participa do jogo espirituoso pudesse ser compartilhado e, portanto, aliviasse a angústia invasora do delírio ou da alucinação, podendo assim rir do gozo do Outro e havendo um reconhecimento da enunciação do sujeito.

A autora acredita que “com humor, o paciente responde às vozes que escuta e inaugura uma possibilidade própria de não recuar diante de sua psicose: aponta para o significante” (p. 122), o que pode construir novos sentidos a partir do inusitado. Por fim, Ribeiro conclui: “tanto o humor como os chistes são capazes de promover transformação sobre as relações em impasse na psicose, entre sujeito e temporalidade e entre sujeito e objeto" (p. 177).

Apesar do conhecimento ainda escasso sobre a questão do riso na clínica do sofrimento psíquico grave, alguns estudos demonstram certos efeitos significantes pelas evidências perante os sentidos produzidos a partir dessa ferramenta. Deste modo, vale realçar a angústia que Viganò (2006) se coloca, o questionamento de como reanimar a clínica, como reabilitá-la àquela interlocução com o mal-estar mental que seja criativa de subjetividade nova?

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5. O Palhaço e o lúdico no hospital

No documento O riso pela lógica do Palhaço na (páginas 48-51)