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O ritual do 5 de novembro em Bento Rodrigues

A manhã do dia 05 estava bastante chuvosa, era o último dia de marcha. A chegada em Bento Rodrigues foi carregada. Descemos dos ônibus antes de chegar à comunidade, pois o percurso até chegar em Bento Rodrigues era de estrada de terra. Ainda sob uma chuva fina começamos a andar, sendo coordenados, como de costume, em duas filas, com os estandartes e faixas sendo distribuídos e carregados. Era muita gente, carros passando o tempo todo. No meio da lama muitas pessoas, entre idosos e crianças, de chinelos e até mesmo descalças, caminhando rumo à comunidade destruída pela lama de rejeitos. Foi uma caminhada longa. Gritos de luta: “ocupa Bento”, hinos que foram cantados durante o percurso, a marcha seguiu

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rumo ao destino final. Durante a caminhada, uma das coordenadoras do MAB disse que aquele momento se tratava de uma Via Sacra.

Essa fala já se mostra como um novo elemento da marcha evocado no contexto de Bento Rodrigues. O exercício da Via Sacra é uma prática religiosa em que os fiéis percorrem, mentalmente e por via de orações próprias, o percurso de Jesus ao carregar a Cruz. A expressão Via Crucis, como também é conhecida, significa “Caminho da Cruz”. Nesse sentido, a marcha já se iniciou nesse dia com um caráter de luto.

Imagem 13. Marcha seguindo para Bento Rodrigues. Fonte: Acervo GESTA, novembro de 2016.

Depois da caminhada, chegamos finalmente à comunidade. Em meio aos destroço das casas de lama, fotógrafos por todos os lados, um calor abafado em meio ao tempo chuvoso, mosquitos, a mente bagunçada e uma mistura de sentimentos. Estavam presentes muitas pessoas que ainda não haviam participado da marcha, inclusive atingidos de Bento Rodrigues, alguns vestidos de preto, evidenciando o seu primeiro um ano de luto pela perda de entes queridos, da terra, do trabalho, da história. Perda de vidas.

A mística inicial organizada pelo MAB já havia começado quando chegamos. Em meio de toda aquela confusão, multidão, conflitos de sentimentos, a encenação da mística foi algo que aflorou ainda mais os sentimentos e tornou aquilo que já era doloroso para os atingidos, algo ainda mais intenso e pavoroso.O cenário, juntamente com o espetáculo criado pelos jovens contactados pelo MAB – muitos deles do Levante Popular da Juventude –,

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mexeu muito com todos ali, principalmente para os atingidos de Bento que reviveram com mais intensidade o dia em que a lama tomou conta de tudo.

Os jovens estavam cobertos de lama, segurando uma cruz, em meio a gritos de:

“estamos juntos, estamos vivos e somos muitos!”. Em dada situação, uma jovem encenou o momento em que uma mulher de Bento Rodrigues sofreu um aborto, causado pelo trauma dos primeiros instantes após o rompimento. O grito da atriz foi pavoroso! O ritualprosseguiu com os atores plantando 20 mudas de árvores, cada muda acompanhada com uma cruz. A cruz com a muda, representavam, a morte e vida, a luta e o luto.

A eficiência da ação ritual ancora-se no fato de acionar crenças culturais essenciais, crenças que constituem uma cosmologia, isto é, concepções fundamentais para um determinado universo social. O conjunto de crenças ativado através de formas rituais estáveis, torna-se sancionado pela idéia de tradição nelas embutida: forma e conteúdo são indissociáveis na ação ritual” (CHAVES, 2000, p.139).

Imagem 14. Encenação organizada pelo MAB. Foto: Maryellen Lima, 05/11/11

Diante da força desse momento, muitas pessoas chegaram a passar mal, uma atingida de Bento Rodrigues precisou ser carregada e levada para um canto, os jornalistas a acompanharam, queriam de todas as formas tirar fotos e gravar vídeos espetaculares. “Eu não queria estar aqui”, ela repetia isso o tempo todo.

Após o espetáculo, foi realizado um culto ecumênico, realizado em cima de um monte de rejeitos, e conduzido por um padre e um pastor, junto com o MAB. Em meio da pregação

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do evangelho, foram feitas comparações de passagens da bíblia com o contexto da situação dos atingidos. “Povo que defendeu Barrabás, a história se repete quando o povo criminaliza os atingidos e defende o criminoso” (anotações de campo, novembro de 2016). A luta também foi comparada à luta de Davi contra o gigante Golias.

O momento do culto também foi bastante tumultuado, enquanto as lideranças religiosas falavam, a todo o momento eram interrompidas pelas pessoas que os assistiam. Frases de denúncias. Gritos evidenciando o número de mortes. Manifestações contra as mineradoras. Ações que partiam, grande parte das vezes, dos atores da mística de abertura. No final da celebração, atingidos de Bento também foram falar, vestidos com uma blusa preta contendo a frase “Tomamos banho, mas a lama não sai”, mais uma forma de ressignificar o estigma criado pela lama para fins políticos. “A lama impregnou não só nos nossos corpos, mas também na nossa alma. Por isso essa frase: Tomamos banho, mas a lama não sai. Porque ela está impregnada na nossa alma e eu acho que jamais vai sair.” (Depoimento de Mauro, Bento Rodrigues, 5 de novembro de 2016).

Em meio às confusões das falas do microfone, drones (patrocinados pelo Greenpeace) estavam sobrevoando. Nesse momento, um dos representantes do MAB convocou todos para tirar a foto da marcha em Bento. A marcha precisava ser vista de cima.

Imagem 15. A marcha vista do alto, Bento Rodrigues, novembro de 2016. Fonte: MAB

Nessa imagem se destaca a palavra justiça – colocada na edição da foto – e principalmente as bandeiras do MAB, como símbolos maiores da Marcha. Havia a

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necessidade de tornar público o ato através de uma imagem espetacular que pudesse sintetizar os elementos da destruição e da ação política de um movimento social. Mas, mais do que isso, a marcha evidenciou, principalmente, o protagonismo do MAB que apresentava um propósito que se diferenciava das avaliações de alguns atingidos, acerca dos procedimentos e da cerimônia adequados para aquele momento.

A caminhada de volta parecia algo como um velório, a angústia tomou conta, e o pesar do corpo e da mente impossibilitava até mesmo a fala de muitos ali. Foi realmente um dos momentos mais difíceis da marcha. Ao andar pelas ruas cobertas de lama de Bento Rodrigues, a sensação era de ódio, indignação, impotência e repúdio a tudo que aconteceu e estava acontecendo ali. Olhando para cada rosto presente, observava que esses mesmos sentimentos eram compartilhados pela maioria dos participantes.

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CAPÍTULO 4 – RITUAIS DE RESISTÊNCIA: CARACTERÍSTICAS NO TEMPO E