CAPÍTULO 4 AMPLIFICANDO AS VOZES DO DEBATE
4.3 O rock amplificado pela televisão brasileira
O cinema mostrou ao Brasil o que era o rock´n´roll, através de filmes que retratavam a música e a dança dos jovens norte-americanos nos anos 60. Contudo, depois que o estilo ganhou um programa de televisão como porta-voz, o rock não seria mais o mesmo no Brasil. Erasmo Carlos confirma: “A Jovem Guarda começou principalmente quando Rock Around The Clock chegou ao Brasil, mas só o programa nacionalizou o movimento”. (FRÓES, 2000, p. 78).
A TV Record, com o intuito de ocupar a lacuna deixada pelos jogos de futebol nas tardes de domingo, não mais transmitidos pela emissora, buscava uma atração. A agência de publicidade Magaldi Maia & Prosperi comprou o horário vago e lançou, em 1965, o programa Jovem Guarda.
O programa foi responsável por amplificar o rock´n roll, embora, por aqui, o rock tenha sido deglutido e ganhado outra roupagem, mais leve e romântica. Grande parte das canções entoadas pela turma do “iê-iê-iê”, como ficou conhecido o gênero nos anos 60 no Brasil, era de versões de sucessos americanos, britânicos e até italianos.
O programa Jovem Guarda foi idealizado como um grande negócio. A fórmula seria calcada em um “ritmo contagiante” que tomava conta dos grandes centros mundiais, na construção de ídolos e na venda de uma série de produtos atrelados a eles. E, de fato, Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos tornaram-se, em pouco tempo, ídolos juvenis de massa. José Ramos Tinhorão (1998) aponta que o programa envolvia um misto de interesses que incluíam os artísticos, editoriais, fonográficos e de comércio paralelo, como a venda de roupas.
E o programa foi sucesso tanto de audiência quanto na venda de produtos. Saias, blusões, chaveiros, bolsas e vários outros produtos eram adquiridos por um público sedento em aproximar-se dos ídolos. Associar produtos aos ídolos juvenis e depois comercializá-los era uma fórmula muito lucrativa. O jornalista Rui Martins definiria essa relação entre fãs e ídolos: “Cada telespectador pode ter o cantor para si, de modo individual. Não só naquele momento em que, no vídeo, ele parece lhe pertencer, mas todas as vezes em que adquirir e usar aquelas coisas que fazem parte da sua personalidade”. (MARTINS, 1966, p. 37).
Reconhecendo os interesses comerciais que cercavam o fazer artístico, Erasmo Carlos recorda: “Não estávamos preparados culturalmente para aquilo, ainda mais quando começaram a industrializar a transação toda”. (MEDEIROS, 1984, p. 45).
Em Balanço da Bossa (1968), o maestro Júlio Medaglia distingue duas formas de divulgação da música popular. Em uma delas a música nasceria da criação popular, sendo aproveitada e divulgada pelos meios de comunicação. Na outra forma, a música seria fruto da própria indústria de comunicação massiva e cita como exemplo o “iê-iê-iê”.
Coube ao programa Jovem Guarda amplificar o “iê-iê-iê” internacional e “aclimatá- lo” ao Brasil. Música, ídolos e muito comércio seriam o tripé do programa. Certamente, seria muito difícil o “iê-iê-iê” ter conquistado o sucesso que atingiu sem o suporte da televisão, sem o fascínio provocado pela imagem, e embora o cinema também tivesse divulgado o rock. Por conta da TV surgiram publicações especializadas no meio, como a revista Intervalo, e colunas sobre a vida dos famosos, como Mexericos da Candinha. E uma rede de patrocinadores e a indústria do disco estavam atentos ao que era divulgado pela televisão.
A TV Record utilizava como recurso para atrair seu público as gravações ao vivo. Para Zuza Homem de Mello, o “segredo” do sucesso dos programas da Record seria o fato de serem exibidos como se fossem ao vivo, “pois quem estava em casa sentia toda a vibração”. (MELLO62, 2012).
A Record soube explorar seu melhor “cenário”: os artistas e a plateia. O roteirista Manoel Carlos lembra que Paulo Machado de Carvalho dizia: “Não invisto em nada, para que vou investir em cenário? Meu cenário é Roberto Carlos, é Elis Regina”. (CARVALHO, 2009, p. 366). Tendo como “cenário” os ídolos do público, a TV Record e as empresas associadas aos programas passaram a lucrar com a imagem dos artistas. No caso do Jovem Guarda os rendimentos foram evidentes. O público queria consumir os modelos usados pelos apresentadores do programa:
O cabelo comprido de Roberto, os anéis e colares reluzentes de Erasmo, as roupas berrantes, as gírias, qualquer gesto repetido no palco se transformava logo em signo, moeda circulante a atestar quem estava “na onda” entre os maiores de 12 anos, em 1967. (MEDEIROS, 1984, p. 48).
Parte da classe artística, estudantes e líderes de esquerda criticavam ferozmente, como se sabe, a Jovem Guarda, pois a ela estava associado um ritmo estrangeiro, de qualidade supostamente inferior. Augusto de Campos reconhecia as limitações estéticas da Jovem
Guarda, mas as ponderava, pois acreditava que o movimento não era uma mera cópia da música estrangeira. Para Augusto, toda vez que a fusão com elementos exteriores à nossa cultura resultasse em algo novo, estaríamos contribuindo com a inovação da linguagem artística. E foi assim que para o poeta concreto, Roberto e Erasmo Carlos teriam contribuído, acrescendo uma informação nova ao rock ao retomarem o canto singelo e enxuto de João Gilberto. “Os integrantes da Jovem Guarda têm reconhecida a relevância que tiveram como precursores da assimilação das novas tendências da música internacional”. (CAMPOS63, 2013). Já para Tinhorão, a junção de uma cultura de fora era sinal de alienação e resultaria em perdas significativas dos nossos valores. Assim, para o crítico, o “iê-iê-iê” de Roberto e Erasmo Carlos reproduzia no Brasil, de forma empobrecida, o rock´n roll. (1998, p. 335).
Com rivalidades acirradas nos bastidores, a TV Record tentaria conciliar as diferentes tendências estéticas presentes em sua grade de programação. O conflito maior ocorria entre as turmas do “iê-iê-iê” e da chamada MPB. Paulo Machado de Carvalho, diretor da emissora, parecia tirar proveito do embate entre correntes distintas visando atingir um público abrangente. Sobre isso Zuza confirma: “O Paulinho não tinha uma postura unívoca ou direcionada para uma só tendência, ele queria pegar tudo o que pudesse ser sucesso”. (MELLO64, 2012).
Ao julgar pelos programas diferenciados que possuía, percebe-se que não existia na TV Record a defesa por uma linha estética ou corrente ideológica específica. Ao contrário, o que valia era congregar diversos segmentos do público, aumentando a audiência. “É preciso saber que o Teatro Record, na época, era uma assembleia permanente. Todos os dias da semana havia musicais, e todos eles defendendo setores, tendências”. (ECHEVERRIA, 2007, p. 59).
A passeata contra a guitarra elétrica realizada, em 1967, com alguns dos principais nomes da música brasileira é um dos momentos, em nosso ambiente musical, que expõem na prática o confronto de ideias existente entre as alas “nacionalista” e “antropofágica”, das quais José Ramos Tinhorão e Augusto de Campos eram respectivamente defensores. A “Marcha contra a Guitarra Elétrica” tinha como objetivo “defender” a música brasileira e foi motivada pela inadmissão de alguns artistas com a ascensão do programa Jovem Guarda. Na visão de muitos deles, o estilo musical divulgado pelo programa representava uma “ameaça” à música brasileira, pois introduzia sonoridades eletrônicas, apresentava estrutura musical mais simples
63 Entrevista realizada via e-mail, com Augusto de Campos, em 19/01/2013.
em relação à MPB e apoiava-se em um gênero estrangeiro. Em entrevista, Adylson Godoy revela, no entanto, outro motivador da passeata:
E quando aquilo começou a infestar a nossa história, houve um: vamos fazer alguma coisa! Vamos sair, vamos gritar, vamos fazer algum negócio pra ver se a televisão se sensibiliza e não nos penalize pela audiência que tava caindo. (GODOY65, 2011).
Além das pressões pela manutenção do programa, para parte da classe artística, a derrocada do O Fino da Bossa estava diretamente ligada à desvalorização da música brasileira como atrativo do público de televisão. A ordem, portanto, era fazer algo para tentar “salvar” a chamada MPB. Um cartaz conclamando à “guerra” foi visto no Teatro Record.
Atenção, pessoal, O Fino não pode cair! De sua sobrevivência depende a sobrevivência da própria música moderna brasileira. Esqueçam quaisquer rusgas pessoais, ponham de lado todas as vaidades e unam-se todos contra o inimigo comum: o iê-iê-iê. (MELLO, 2003, p. 119).
Gilberto Gil, que cedeu ao pedido de Elis Regina e participou da “Marcha contra a Guitarra Elétrica”, relata o sentimento predominante no evento: “era um ressentimento todo do pessoal se manifestando, uma coisa meio xenófoba, meio nacionalóide: vamos a favor da música brasileira!”. (ECHEVERRIA, 2007, p. 58). Sempre atento Caetano Veloso (2008) via a passeata como uma jogada de marketing para atrair mais atenção para os programas da TV Record. Naturalmente, essa associação de xenofobia, modernidade e interesses comerciais estaria presente em outros eventos ligados à televisão, como os festivais.