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4. Espaço e desenvolvimento

4.3. O rural e a propriedade fundiária em Sever

A área identificada encontra-se repartida por um total de 285 proprietários fundiários, aos quais cabe uma média de 1,87 hectares. Em consonância com a estrutura da exploração antes referida, é de salientar uma considerável concentração da propriedade do espaço da freguesia, na medida em que somente 21 proprietários, 7,4% do número total, detêm 49% da superfície total inquirida. Em contrapartida 60% dos proprietários tem menos de um hectare, de vinha, mas detém apenas 13% do espaço total recenseado na freguesia (Quadro 4.9). A propriedade encontra-se ainda repartida por várias parcelas cujo número e dimensão aumenta à medida que cresce a dimensão total da propriedade21. O designativo de quinta é então comummente atribuído a estas propriedades, acima dos 5 hectares ou também a muitas das parcelas/prédios com mais de um hectare que as constituem.

21 Parcela é a “porção contínua de terreno de um mesmo proprietário, a que foi atribuído um mesmo uso” (Esteves, 2004).

Quadro 4.9 - Concentração e pulverização da propriedade fundiária na freguesia de Sever, em 2003 Proprietários fundiários Superfície na freguesia Parcelas

Classes de superfície total % Ha % Nº total Nº médio / proprietário Área média por parcela Até 1 ha 172 60.4 68.74 12.9 287 1.7 0.24 De 1 a 2 ha 46 16.1 66.05 12.4 179 3.9 0.37 De 2 a 5 ha 46 16.1 138.67 26.1 208 4.5 0.67 De 5 a 10 ha 10 3.5 70.17 13.2 44 4.4 1.59 De 10 a 20 ha 9 3.2 131.97 24.8 117 13.0 1.13 De 20 a 50 ha 2 0.7 56.59 10.6 37 18.5 1.53 Total 285 100.0 532.19 100.0 872 3.1 0.61

Fonte: Projecto AGRO 62

Aliando a exclusão da propriedade da terra, por parte de algumas (38%) das famílias residentes à elevada concentração da propriedade, conclui-se por um acesso pouco restrito à propriedade fundiária, mas também uma muito desigual apropriação do espaço da freguesia pela comunidade dos seus residentes. De qualquer modo, sendo grande a implantação da propriedade da terra no rural (por cada 100 famílias residentes na freguesia há 62 proprietários de terra da freguesia residentes nesta) é também grande o controlo local do espaço pelo rural. Com efeito, a maior parcela da área total inquirida, 324 hectares, encontra-se na propriedade de residentes, sendo minoritária a parte dos não residentes (Quadro 4.10). Os residentes na freguesia de Sever constituem 67% do número total de proprietários fundiários do espaço contido na freguesia e detêm 324 hectares, ou seja, 61% da superfície total nela recenseada por inquérito (532.19 hectares). Em Sever, tal como em geral nas restantes freguesias do Projecto, os residentes dos povoados rurais são os principais proprietários do espaço que os cerca.

Se tivermos em consideração que dos proprietários não residentes na freguesia 37 habitam no concelho, nomeadamente, em freguesias contíguas às de Sever, e que nas 5 entidades se engloba a Junta de Freguesia e empresas agrícolas de locais, conclui-se ser ainda maior o peso dos povoados rurais na detenção da propriedade fundiária que os rodeia, perto de 70% da superfície da freguesia. Os residentes detêm ainda 76% do total de alojamentos recenseados, 306 com famílias residentes e 15 sem famílias residentes.

Quadro 4.10 - Proprietários fundiários e do património edificado da freguesia de Sever segundo o local de residência e estatuto jurídico do proprietário, em 2003

Proprietários fundiários Superfície detida Alojamentos Local de residência e estatuto

jurídico do proprietário % Ha % % Residentes 191 67,0 323,97 60,9 321 75,9 Total 89 31,2 172,70 32,5 102 24,1 Concelho 37 13,0 32,8 6,2 5 1,2 Distrito 6 2,1 2,6 0,9 6 2,1 País 16 5,6 33,6 6,3 23 5,4 Estrangeiro 27 9,5 11,0 2,1 62 14,7 Não residentes nd 3 1,0 19,9 1,9 6 1,4 Entidades 5 5,9 35,52 6,7 - - Total 285 100,0 532,19 100,0 423 100,0 Fonte: Projecto AGRO 62

Analisando exclusivamente a propriedade da terra e a sua distribuição entre residentes e não residentes por escalões de superfície total verifica-se que: a importância da propriedade local (dos residentes na freguesia) é maior na pequena propriedade e, em particular, no escalão de 1 a 2 hectares, no qual corresponde a 78,9% da superfície classificada nesse escalão. Em contrapartida, o peso da propriedade de não residentes é máximo nos escalões entre 2 e 5 hectares e entre 20 a 50 hectares.

Quadro 4.11 - Superfície em propriedade segundo o local de residência e natureza jurídica dos proprietários, por classes de superfície, em 2003

Residentes na freguesia Não residentes no espaço

da freguesia Entidades Total

Ha % Ha % Ha % Ha % Até 1 ha 48.13 70.0 20.26 29.5 0.35 0.5 68.74 100.0 De 1 a 2 ha 52.10 78.9 12.01 18.2 1.94 2.9 66.05 100.0 De 2 a 5 ha 77.81 56.1 60.86 43.9 0.00 0.0 138.67 100.0 De 5 a 10 ha 35.81 51.0 16.61 23.7 17.75 25.3 70.17 100.0 De 10 a 20 ha 75.10 56.9 41.39 31.4 15.48 11.7 131.97 100.0 De 20 a 50 ha 35.02 61.9 21.57 38.1 0.00 0.0 56.59 100.0 Total 323.97 60.9 172.70 32.5 35.52 6.7 532.19 100.0 Fonte: Projecto AGRO 62

Deve começar por se referir que os níveis de concentração da propriedade fundiária e os usos do espaço não se distinguem grandemente entre residentes e não residentes. Aquele nível de concentração é apenas ligeiramente inferior no caso dos primeiros. Assim, 61% dos residentes com terra detêm menos de um hectare e em conjunto controlam pela propriedade apenas 15%

do espaço total recenseado na freguesia. Em contrapartida, enquanto 5,7% dos residentes com propriedade controlam 45% daquele espaço, 8% dos proprietários não residentes detém 46% da área detida na freguesia pelos não residentes. Área média detida pelos singulares residentes e pelos não residentes é, respectivamente, 1,7 hectares e 1,94 hectares. Os usos do espaço não se distinguem notoriamente entre uns e outros. O decréscimo de importância relativa da vinha em favor da floresta, no caso das entidades, deve-se integralmente ao baldio detido pela Junta de Freguesia. Local de residência ou natureza jurídica não são então variáveis diferenciadoras dos usos do espaço onde os vinhedos são hegemónicos.

Quadro 4.12 - Os usos do espaço na freguesia de Sever, em 2003

Total Residentes Não residentes Entidades Usos do espaço

Ha % Ha % Ha % Ha % Terras aráveis – de sequeiro 10.71 2.0 7.47 2.3 2.32 1.3 0.92 2.6 Terras aráveis – prados temporários 1.06 0.2 0.11 0.0 0.95 Culturas permanentes - vinha 413.66 77.7 256.38 79.1 138.51 80.2 18.77 52.8 Culturas permanentes – pomar 6.64 1.2 0.87 0.0 2.77 1.6 3.00 8.4 Culturas permanentes - olival 12.52 2.4 7.33 2.3 2.89 1.7 2.30 6.5 Florestas – mista de folhosas e coníferas 78.16 14.7 42.72 13.2 25.86 15.0 9.58 27.0 Meios com vegetação arbustiva 5.49 1.0 5.49 1.7

Espaços abertos sem ou com pouca vegetação 0.50 0.0 0.50 0.0

nd 3.45 0.6 3.10 1.0 0.35 0.0

Total 532.19 100.0 323.97 100.0 172.70 100.0 35.52 100.0 Fonte: Projecto AGRO 62

Veja-se então quem são uns e outros, residentes e não residentes. Comece-se pelos residentes. A terra dos residentes está maioritariamente na mão dos activos. Mais de metade da superfície dos residentes é propriedade de agricultores e de dirigentes e quadros superiores de empresas. O que não surpreende lembrando que 11 proprietários residentes detêm 45,1% da superfície total dos residentes. Cruzando com a actividade económica, onde sobressaem os ramos “agricultura” e “comércio por grosso e a retalho”, conclui-se que aquela última categoria profissional de dirigentes e quadros deverá exercer a sua actividade neste sector.

Com excepção dos activos - agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, onde se enquadram maioritariamente os trabalhadores por conta própria e familiares não remunerados, as decisões sobre a propriedade e a exploração “são fortemente condicionadas pelas actividades e rendimentos da família, exteriores à própria actividade agrícola” (Baptista, 2004:53).

Veja-se agora quem são os não residentes detentores do património fundiário edificado da freguesia e o que caracteriza esse mesmo património. Socorremo-nos para isso do local de residência como principal elemento diferenciador dos não residentes (Quadro 4.14). Na situação dos não residentes relativamente à propriedade fundiária distinguem-se três situações ou perfis patrimoniais que se relacionam com o local de residência desses proprietários.

Quadro 4.13 - Proprietários singulares do espaço não residentes na freguesia: número e superfície segundo as classes de superfície total, em 2003

No concelho e

distrito No país No estrangeiro nd Total Classes de

superfície total

Área Área Área Área Área Até 1 ha 27 13.01 6 1.04 21 6.22 54 20.26 De 1 a 2 ha 3 4.23 1 1.71 3 4.47 1 1.60 8 12.01 De 2 a 5 ha 11 32.43 6 20.20 3 8.23 20 60.86 De 5 a 10 ha 2 11.61 1 5.00 3 16.61 De 10 a 20 ha 0 0 2 30.12 1 11.27 3 41.39 De 20 a 50 ha 0 0 1 21.57 1 21.57 Total 43 61.28 16 58.07 27 18.92 3 34.44 89 172.70 Fonte: Projecto AGRO 62

O primeiro perfil é o da maioria dos proprietários residentes no concelho de Santa Marta ou no distrito de Vila Real, que detém uma parcela do espaço da freguesia com menos de um hectare. Uma parte menor destes proprietários é detentora de áreas ligeiramente superiores, entre 2 e 5 hectares.

A figura do proprietário que reside fora dos limites do distrito mas ainda em território português (Lisboa, Porto, são as urbes mais referidas), configura um segundo perfil, que se distingue do anterior pela maior dimensão do património fundiário que detém na freguesia: maior que 2 hectares e podendo exceder os 10 hectares. Mantém normalmente uma casa na freguesia, que herdou e que visita de acordo com as necessidades de gestão da propriedade vitícola. Por último, para a maioria dos emigrantes com interesses fundiários na freguesia, esses interesses relacionam-se quase exclusivamente com o património edificado, normalmente já depois de ter iniciado o percurso migratório. Uma parte menor dos emigrantes com interesses na freguesia concilia a propriedade de casa com a de pequenas courelas de vinha, que por regra não excede 1 hectare por agregado. Efectivamente, a comparação entre o número de emigrantes com terra na freguesia e o número de emigrantes com alojamentos na freguesia, bastante mais numeroso, dá ideia que realmente quem emigra não tem terra. Por vezes o seu

retorno permanente relaciona-se com a possibilidade de a adquirir. Com efeito, a maioria dos que foram recenseados na freguesia como recebendo pensões de reforma de França têm também courelas na aldeia. Regressam porque têm terra ou porque a puderam comprar. Assim, a propriedade de alojamentos familiares não ocupados em permanência, que em Sever constituem cerca de um terço do total de alojamentos familiares recenseados na freguesia, pode ser acompanhada pela propriedade de terra: um em cada dois destes proprietários de alojamentos a residir fora do concelho é também proprietário de terras, independentemente de residir no estrangeiro ou fora do distrito de Vila Real. O que distingue estes dois tipos de agentes com interesses na freguesia é a dimensão da propriedade fundiária que lhe está associada: maioritariamente inferior a 2 hectares e nunca superior a 5 hectares, no caso dos emigrantes; frequentemente acima dos 5 hectares no caso dos residentes fora do distrito de Vila Real. O primeiro delegou os amanhos da sua vinha a familiares e vizinhos, o segundo gere ele próprio.