A partir de meados da década de 1990 encontramos o tema da agricultura familiar no centro das discussões acadêmicas e políticas. O debate central não está apenas em torno das “novas” formas de trabalho e geração de renda, como, por exemplo, as ARNAs, mas passa também pela possível revalorização ampla dos espaços rurais. Assim, mais do que um local de produção de alimentos, ao rural passa a ser atribuído também outras funções.
Temos, na França, uma referência sobre o tema da multifuncionalidade. Principalmente por esta noção ter-se tornado base para a adoção de políticas públicas em larga escala, que mais tarde iriam influenciar outros países. A origem deste tema naquele país, e na Europa como um todo, permitiu reavaliar a agricultura em termos do desenvolvimento sustentável, inclusive balizando os investimentos estatais e sugerindo novos valores a serem incorporados nas considerações sobre o rural, como a preservação da natureza, o resgate cultural, a melhoria da qualidade de vida mediante fatores como moradia, lazer, esportes, exaltação das belezas naturais. A noção de multifuncionalidade parece estar ligada a uma resposta aos resultados negativos da implantação da modernização da agricultura, como a homogeneização ambiental (favorecida pelas monoculturas), a padronização sócio- cultural, além da dimensão econômica.
Para Carneiro e Maluf (2003, p. 17), o enfoque da multifuncionalidade da agricultura requer “[...] que sejam contemplados três níveis de análise
correspondendo, respectivamente, às famílias rurais, ao território e à sociedade”. Para os autores, a noção de multifuncionalidade rompe com a visão setorial e amplia o campo das funções sociais atribuídas à agricultura, que deixa de ser entendida apenas como produtora de bens agrícolas. Esta visão é diferenciada por estimar as particularidades do agrícola e do rural, vendo o rural como algo amplo, complexo e repleto de especificidades, muito além do funcionalismo produtivista. “Enfim, a noção de multifuncionalidade favorece a passagem do “agrícola”, para o familiar e o rural, olhados desde a ótica territorializada”. (Carneiro e Maluf, 2003, p. 20).
Quatro dimensões centrais foram abrangidas no enfoque da multifuncionalidade por Carneiro & Maluf (2003,p.22): (1) a dinâmica de reprodução das famílias e comunidades rurais; (2) características técnico-produtivas e sustentabilidade da atividade agrícola; (3) questões de identidade, integração social e legitimidade relativa às famílias rurais; (4) e as relações com o território e com a natureza.
Graziano da Silva (2000) salienta que existem alguns velhos mitos relacionados ao rural como, por exemplo: o rural como sinônimo de atraso; o rural predominantemente agrícola; que o êxodo rural é inexorável; que o desenvolvimento agrícola leva ao desenvolvimento rural; e, por último, que a gestão das pequenas e médias propriedades é familiar. Todavia, estas premissas não podem ser consideradas como superadas, ao contrário, tanto no meio acadêmico como nos ambientes político e institucional ainda as encontramos estas como “paradigmas” norteadores. Por outro lado, o autor salienta que é possível estarmos perante a formação de novos mitos, muitos deles relacionados com o objeto de estudo deste trabalho, tais como: as ocupações rurais não agrícolas são opções ao desemprego; as ocupações rurais não agrícolas são motor do desenvolvimento rural, a reforma agrária não é mais viável; o novo rural é melhor do que o velho; e o novo rural não precisa de regulação pública.
Dentro da complexidade que cerca os temas da multifuncionalidade dos espaços rurais e a pluriatividade das famílias, o que temos de certo é que estas noções não podem definitivamente serem consideradas sinônimas. É possível que a crescente atribuição das múltiplas funções aos espaços rurais desencadeie alternativas, situações que favoreçam os residentes rurais para que exerçam mais de uma atividade, seja ela agrícola ou não.
Para Beskow33, a ótica da multifuncionalidade da agricultura familiar provém do reconhecimento do papel da agricultura e suas relações com os diversos setores da sociedade. O conceito de multifuncionalidade consiste em reconhecer que o seu papel não se restringe à produção de matéria-prima e alimentos, à liberação de mão- de-obra para atividades urbanas, à geração de divisas e à transferência de capital a outros setores da economia, mas também destacar suas outras funcionalidades, tais como a social, a ambiental, a patrimonial, a estética e a recreativa/ pedagógica.
Todavia, antes de finalizarmos a discussão sobre as múltiplas funções do meio rural na atualidade, é apropriado fazermos algumas ressalvas sobre o debate da agricultura familiar, como salienta Wanderley (2003 p.09):
Boa parte dos estudos brasileiros sobre o campesinato e a agricultura familiar, inspirada nos seus clássicos, se fundamenta em dois pressupostos complementares. Por um lado, a convicção de que a condição de produtor de produtos agrícolas é apenas uma dimensão – central, sem dúvida – da unidade familiar, não esgotando, portanto o seu caráter multifacetário. Por outro lado, a convicção de que o exercício da atividade produtiva, nestes casos, corresponde a um modo de funcionamento – produção e reprodução ditada por interesses presentes e futuros da família camponesa.
Assim, mais do que a atividade agrícola, Wanderley salienta que o que devemos analisar são as complexas relações que existem dentro deste ambiente “familiar”, que na verdade moldam as particularidades encontradas na vida social rural. Todavia, é necessário ter claro que simplesmente por considerar a multifuncionalidade do espaço rural não implica excluir da análise e das considerações a sua característica atual mais marcante, a produção de alimentos. Não tratamos aqui de duas formas antagônicas, a produção agrícola e as demais funções do rural. Estamos diante de um processo complementar. Wanderley (2003) alerta também para que não incorramos no equívoco de levar em conta neste debate a questão meramente econômica, como se os bens e serviços produzidos e atitudes tomadas pelos agricultores só se explicassem se medidos a partir de valores mercantis.
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Beskow, P. R. A agricultura familiar, multifuncionalidade da agricultura e políticas de desenvolvimento agrícola para o Brasil. Fonte: http://www.cca.ufscar.br. Pesquisado em 14/01/205.