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d Concretagem in loco

2.2 O S T EMPOS DA G RANDE O BRA

O cronograma para a construção da usina foi organizado em três fases consecutivas (CESP, 1972: 1): a primeira com a construção da Ensecadeira da margem esquerda, sobre o rio, possibilitando a Concretagem in loco; a segunda marcada pelo desvio do rio, permitindo a construção da Barragem de Terra no leito do rio; a terceira com as obras complementares das estruturas de concreto e os trabalhos relativos ao enchimento do reservatório (e formação do lago).

A etapa do desvio do rio representava um momento crucial para a definição do cronograma dos trabalhos na obra, porque, obrigatoriamente, deveria ocorrer em época de estiagem. Em Ilha Solteira foi programado que o desvio seria orientado para o interior do conjunto Tomada d Água e Casa de Força, cuja estrutura em concreto deveria estar concluída antes do prazo previsto para o momento do desvio.

Quando a construção já estava em andamento, os técnicos responsáveis avaliaram a possibilidade de aumentar a produtividade nas obras necessárias ao desvio do rio, para antecipá-las em cerca de dois meses, visando ao melhor aproveitamento dos trabalhos nos meses secos de 1972 (CESP, 1988: 76). Isso porque os trabalhos de terraplenagem da segunda fase da construção ocorreriam em época chuvosa, o que não era recomendado para a devida compactação da Barragem de Terra. Para esse fim, foi lançado mão de todos os recursos humanos, de materiais e equipamentos possíveis CESP, : . Posteriormente, os técnicos avaliaram e programaram uma nova antecipação com relação ao cronograma inicial: toda a obra seria concluída com 8 meses de antecedência, [...] graças à plena utilização da capacidade técnica e gerencial da CESP CESP, : . Ressalta-se, dessa maneira, como a

por meio da intensificação do emprego do seu corpo de trabalho — recursos humanos, materiais e equipamentos— e mediante o empenho das técnicas e da gestão da CESP.

Figura 2.18 — Sequência de desvio do rio (CESP, 1979: 23). A construção da usina se desenvolveu em três fases:

Entre 1965-1966: trabalhos de preparação do terreno99;

De 1967-1968: trabalhos de preparação das frentes de concretagem e construção das demais estruturas de apoio à obra100;

Do início do ano de 1969 a abril de 1972: período que concentrou a maior parte das atividades da concretagem das estruturas da usina101.

 A 2ª fase, de abril a dezembro de 1972, foi marcada pelo desvio do rio para a Tomada d Água e a Casa de Força sem as turbinas 102.  3ª fase, de janeiro de 1973 a janeiro de 1974, correspondeu ao

enchimento do reservatório e obras complementares103.

Em julho de 1973, entrou em operação a primeira unidade geradora e, em janeiro de 1974, outras 4 unidades geradoras, com a inauguração oficial da usina104.

Durante a primeira fase de construção foram realizadas as principais etapas do trabalho da concretagem da obra para poder dar início ao desvio do rio. Este foi também o período que correspondeu à instalação da cidade- acampamento de Ilha Solteira, sendo 1969 o ano de sua fundação, quando

99 Obras de terraplenagem para a construção da Pré-ensecadeira de Enrocamento,

conclusão da Ensecadeira com ampliação e alteamento até a cota de segurança e a drenagem da água na área ensecada.

100 Os trabalhos de escavações em rocha e a preparação das frentes de concretagem, bem

como início da construção do acampamento e da passagem por estrada de Jupiá a )lha Solteira dos instrumentos pesados para serem instalados no canteiro.

101 As estruturas principais são: Muro de Ligação Direito, Barragem de Gravidade, (all de

Montagem, Tomada d Água e Casa de Força, Subestação, Vertedouro de Superfície e Muro de Ligação Esquerdo.

102 A etapa do desvio do rio incorporou os seguintes trabalhos na obra: remoção completa

das Ensecadeiras, ao mesmo tempo em que se fazia o fechamento do Canal de Fuga com a Barragem de Terra, realização dos trabalhos de compactação da Barragem de Terra no Canal de Fuga com a vedação das Pré-ensecadeiras; esgotamento final do recinto para preparar a área ensecada; execução do maciço compactado do canal para o enchimento parcial do reservatório. (ouve, ainda, nesse ano, a finalização da concretagem de partes complementares das estruturas da usina citadas no ponto anterior.

103 Desenvolveram-se nessa fase a complementação da Barragem de Terra na margem

direita e da Barragem de Enrocamento e Terra na margem esquerda, os trabalhos de complementação das estruturas de concreto da crista da Tomada d Água e Casa de Força e conclusão da montagem das comportas do Vertedouro.

104 A Usina de )lha Solteira foi inaugurada oficialmente em de janeiro de , mas já

se instalaram as primeiras famílias, e 1972 quando começa a evasão da população, devido à desaceleração do trabalho na construção da usina. Desse modo, a fase de maior atividade da concretagem in loco correspondeu às obras que foram intensificadas com vistas a aumentar a produtividade e antecipar o cronograma — como já se identificou. Nesse momento de grande concentração dos trabalhos de concretagem das estruturas da usina, a CESP afirmava que eles haviam alcançado o [...] aproveitamento sistemático de todo tempo disponível, por meio de trabalho contínuo nas 24 horas de todos os dias, inclusive aos domingos e feriados CESP, : . Em outro documento, a empresa ressaltava que [...] de segunda a sábado, horas por dia, homens e máquinas moldam a maior estrutura de concreto do país: 3.392.000 m3 CESP, -1971: 11). Outro fator que atuaria na produtividade da obra foi mencionado por Ribeiro (1987): trata-se da [...] manipulação da data de inauguração para acelerar a produção. A proximidade do Dia D maximiza o emprego de métodos de aceleração e de aumentos da jornada de trabalho : 105. O Dia D da construção de uma hidrelétrica é a data do Desvio do Rio, ocasião em que toda a etapa de concretagem da estrutura da usina deveria estar concluída a fim de o rio poder ser desviado para o seu interior.

Figura 2.19 —Desmonte da Ensecadeira no Dia D (CAMARGO CORRÊA, 1968?: slide). Assim, a intensificação da concretagem correspondia à intensificação do emprego de homens e máquinas nessa atividade, o que condicionaria a aceleração do programa de trabalho em toda a obra, tanto porque ditaria o ritmo da produtividade das atividades antecessoras na cadeia produtiva (como vimos no item anterior 2.1) e também visto que, antecipando a fase crítica de maior concentração da atividade da concretagem, adiantavam-se também as demais fases e toda a obra.

Com isso, a fase de maior concentração da atividade da concretagem apresentou, a um só tempo, o "pico" da mão de obra e o maior investimento e inovação tecnológica do canteiro.

GRÁFICO 2.1—GRÁFICO DE EVOLUÇÃO DOS TRABALHADORES EMPREGADOS (A PARTIR DE DADOS EM AEIS,1974: TABELAS)

O "pico" da mão de obra ocorreu em fins de 1971 e início de 1972, com 32.111 trabalhadores. Após esse período, houve uma queda abrupta do contingente recrutado para a obra.

A maior inovação tecnológica que o canteiro de Ilha Solteira forneceu à construção civil foi o aprimoramento do concreto refrigerado, cujo objetivo era a aceleração das atividades de concretagem e antecipação do cronograma da obra.

O tempo previsto para a construção de uma obra determinada é o aspecto básico a ser considerado para o dimensionamento de seu canteiro industrial. Como não é possível trabalhar em camadas contínuas de concretagem e existe um intervalo mínimo para o lançamento de duas camadas sucessivas de concreto, a velocidade de concretagem depende diretamente das dimensões destas camadas, que por sua vez têm limitações devidas ao indesejável calor liberado pela reação exotérmica do cimento./ Para que o cronograma de Ilha Solteira fosse atendido, optou-se pela concretagem em blocos de grandes dimensões (30 x 50 x 2,25 metros) e [...] [viabilizado mediante] a utilização de concreto refrigerado (CESP, 1988: 60).

Investimentos em inovações como essas representavam significativa vantagem no prazo final da obra, o que pode ser comprovado em Ilha Solteira. Certamente esse seria o principal motivo para os investimentos em industrialização e racionalização do trabalho nas Grandes Obras, diferentemente das obras convencionais.

Dessa forma, podemos concluir que a produção no canteiro de Ilha Solteira se fundou na combinação de trabalhos industrializados em alguns segmentos da obra, automatizados em alguns casos, e ainda, manufatureiros e variáveis, sendo estes empregados de forma estrutural no canteiro. A produtividade das empresas se apoiava, portanto, na exploração combinada de mais-valia relativa e absoluta, sendo que o trabalho propriamente manufatureiro era realizado de forma ainda mais extensiva do que nas obras comuns.

Assim sendo, a questão que seria preciso analisar é sobre como a empresa obteria a racionalização do trabalho nessa produção, acomodando a coexistência de diversos estágios de trabalho numa mesma unidade produtiva. Vejamos isso a seguir, pesquisando sobre a qualidade da gestão do trabalho nesse canteiro de Grande Obra.