Da coconstrução do projeto à coconstrução da vida
5. Quando o pai do mesmo sexo é um modelo de papel negativo, é provável que o indivíduo sinta dissonância e dificuldade em comportamentos relacionados com o género (quando o pa
2.4.3 O self enquanto autor: Narrativas e temas de vida
O carácter compreensivo da teoria da construção da carreira é alcançado na procura do porquê que diz respeito às dinâmicas do sistema mais vasto que opera unificando a auto-organização (personalidade vocacional) e a extensão de si no espaço social (adaptabilidade), num todo com significado (Savickas, 2005). Esta componente explicativa, relaciona-se também, conforme referido em 2.4, com a teoria dos construtos pessoais de Super, que considerou que ao expressar preferências vocacionais, os indivíduos expressam as suas ideias sobre quem são; ao ingressarem numa atividade profissional implementam o seu autoconceito, e ao estabilizarem numa atividade profissional procuram realizar o seu potencial e preservar a sua autoestima, o que traduz a importância conferida ao trabalho enquanto contexto para a expressão e o desenvolvimento humano (Savickas, 2005).
A terceira componente da teoria da construção de vida permite compreender o significado e o sentido das múltiplas escolhas e ajustamentos vocacionais que configuram uma carreira subjetiva. Esta última deriva do processo ativo de atribuição de significado que guia, regula e mantém o comportamento vocacional e pode ser traduzida num conjunto de histórias ou de autodefinições, que se reportam a tarefas de desenvolvimento, a transições ou a traumas a que os indivíduos respondem. As histórias funcionam como um método para revelar os temas utilizados na realização de escolhas com significado nos processos de ajustamento aos papéis profissionais (Savickas, 2005).
As histórias não assumem um caráter determinista, nem a informação nelas contida é do tipo factual. O seu papel é o de traduzir uma organização de significados que se aplica e reconfigura. A verdade narrada difere da verdade histórica ou factual uma vez que a narrativa ficciona o passado, de forma a preservar continuidade e coerência interna face à mudança entretanto interiorizada. Dessa forma as narrativas integram um passado viabilizador de um futuro com significado (Savickas, 2011a).
No processo de formação da personalidade vocacional, que ocorre no contexto da interação da criança com o seu meio social imediato, e conduz à construção de autoperceções e de comparações sociais, são especialmente relevantes as linhas orientadoras impostas pelos pais e pelos ditames socioculturais. Estas produzem preocupações e tensões na vivência psicológica da criança. Os temas que eventualmente irão estruturar a carreira emergem à medida que o indivíduo transforma estas tensões em intenções, considerando-se a escolha de modelos de papel, que irão auxiliar neste processo de transformação, uma importante decisão de carreira (Savickas 2002, 2005, 2013). Pode ser útil solicitar ao indivíduo que compare os seus guias parentais com os seus modelos de carreira. As diferenças entre o guia parental de carreira (influência internalizada por introjeção) e o modelo de carreira (identificação internalizada por incorporação ou imitação) revelam a ligação entre o problema e o objetivo e identificam a linha de movimento de um “menos sentido para um mais percebido”. É neste sentido que a teoria da construção da carreira vê a escolha de modelos de carreira como primeiras escolhas de carreira, os filhos não escolhem os pais, mas escolhem os modelos para elaboração das introjetos parentais. (Savickas, 2011a).
Nas palavras de Savickas (2005, p. 57) “as histórias no âmbito da carreira revelam os temas que os indivíduos utilizam para implementar escolhas com significado e se ajustarem aos papéis de trabalho”. Esses temas são significados que emergem da relação
entre necessidades, interesses e valores, permitindo situar o comportamento vocacional e o desenvolvimento da carreira no processo mais alargado de life design. Savickas utiliza a definição de tema de vida de Cskzentmihlyy e Beatie (1979, citados por Savickas, 2005, p. 59): “um tema de vida consiste num problema ou num conjunto de problemas que uma pessoa deseja resolver acima de qualquer coisa e nos meios que a pessoa encontra para alcançar uma solução”.
A teoria da construção da carreira diferencia self de identidade. O self não é a identidade, não se funde na identidade, é mais vasto do que esta. A identidade inclui como as pessoas pensam delas próprias na sua relação com os papéis sociais. Um silogismo é pensar que a identidade se forma à medida que a tese individual (self) encontra a antítese social (papel) e engendra uma síntese (identidade). Os indivíduos começam por formar identidades psicossociais associando o self psicológico com papéis sociais e representações culturais. Os indivíduos vão reunindo e articulando uma narrativa identitária compreensiva. As narrativas sobre a identidade fornecem autocompreensão na forma de uma interpretação do self que orienta a pessoa para o mundo social. Através das narrativas os indivíduos assumem a autoria do seu eu: interpretam o seu self como se de uma personagem se tratasse, são autores e personagens da sua história de vida (Savickas, 2011c). A componente do tema de vida é, por conseguinte a componente narrativa da teoria da construção de vida que aborda, ou tenta responder, a questão “Quem sou eu?” (Savickas, 2002).
O tema de carreira consubstancia-se no conceito de arco da personagem. O arco da personagem retrata onde o personagem começa, onde está no presente, e para onde pretende dirigir-se relativamente a um tópico essencial da sua existência. Muitas vezes, as narrativas começam com alguma coisa em falta na vida da personagem, algo que se quer ou precisa. Para ultrapassar esta limitação, deficiência, ou fraqueza, a personagem procura atingir objetivos que preencham a sua necessidade, movendo-se para reparar a falha que está na base do seu arco. Enquanto se move da tensão para a intenção, a personagem luta com o medo, as limitações, bloqueios ou feridas. A seu tempo, as personagens aprendem a ultrapassar a adversidade e a transformar os seus sintomas em forças (Savickas, 2011a, 2013). Um tema de vida integra uma preocupação e a sua solução no domínio do trabalho, correspondente a uma ocupação, sendo que a construção da carreira reflete a transformação de um problema pessoal, ou preocupação, numa força pública que representa um contributo social. O tema de vida representa, assim, o paradigma pessoal que transforma a tensão em interesse e a obsessão em
profissão, uma resolução socialmente produtiva de algo passivamente sofrido (Savickas, 2005, 2011a).
A transformação do self em autor implica a capacidade para compor uma narrativa identitária e uma história de carreira. O indivíduo-autor seleciona e organiza incidentes e episódios de micronarrativas. Na sua forma mais simples, a macro narrativa põe estes episódios em sequência cronológica, criando um resumo, que consiste numa progressão de tarefas e posições que o indivíduo-agente ocupou ao longo da sua carreira objetiva observável e documentada, o que sendo uma história, é sobretudo uma sequência histórica. Criar uma narrativa implica que o indivíduo estabeleça a causalidade entre os pequenos episódios que entram na história, destaque certos factos, determine que elementos ligam os episódios, ou seja, explique a sequência orientada para uma conclusão. Dessa forma, os pequenos episódios integram e corroboram uma narrativa de vida mais ampla, e com mais significado, ou seja, uma narrativa subjetiva (Savickas 2011a, 2013).
Contudo, esta é ainda a narrativa do indivíduo enquanto agente pois explica a causalidade, mas não as razões íntimas subjacentes. É a introdução de um tema que transforma o agente num autor, identificável pela sua repetição em micronarrativas acumuladas, numa abstração recorrente que confere consistência e maior significado à narrativa. O tema traz um sentido de unidade que cristaliza a narrativa do indivíduo e permite a continuidade, não obstante a diversidade de micronarrativas atualizadas. Mesmo quando tudo parece mudar, o tema permanece o mesmo, numa reflexão autobiográfica e unificadora de motivos e crenças. Uma vez articulado e autenticado, o tema de carreira oferece uma ideia unificadora que, através da recorrência, transforma a vida num todo (Savickas, 2011a, 2013).
A construção narrativa de significados que está subjacente a esta componente da teoria da construção de vida promove o autoconhecimento e uma melhor adaptação pois o tema de vida exprime a coerência, continuidade, finalidade, unidade e singularidade de cada indivíduo (Savickas, 2005). Ao contar como o self de ontem se tornou no self de hoje e se tornará no self de amanhã a narrativa identitária de um autor sustenta também o ator estável e a sua história contínua, assim como o agente flexível capaz da mudança. É o tema que mantém a narrativa em ação ao integrar continuamente os diversos eventos da vida (McAdams & Olson, 2010).
De acordo com McAdams e Manczak (2015) nas sociedades modernas as pessoas interagem com as suas experiências e recursos culturais de forma a construir e
internalizar histórias de vida que lhes forneçam um sentido de unidade, propósito e significado. A história de vida constitui uma estrutura internalizada da mente, em constante evolução, sobre quem se é no agora, como se chegou até aí, e para onde a vida poderá seguir. A história de vida é uma reconstrução muito seletiva do passado, em articulação com um futuro imaginado, que se liga (de forma ténue) à consciência atual, para assim definir o self no tempo. As histórias de vida não refletem a personalidade, elas são a personalidade. Ou, mais precisamente, elas são partes importantes da personalidade, em conjunto com outras partes, como os traços disposicionais, os objetivos e os valores.
Assim, o tema é o elemento central na história de vida. Consiste naquilo que está em jogo, e traz a perspetiva essencial à análise e à síntese das experiências. O tema traz para o contexto de trabalho preocupações que constroem o indivíduo e que são o mais importante na definição do self e na expressão de uma identidade; articula uma atitude de propósito na vida, e estabelece a ideia que a vida serve. O tema faz do trabalho a representação exterior de algo extremamente pessoal: “Eu vou tornar-me (reputação do
ator), para que possa (objetivo do agente), e no processo eu consiga (tema do autor).”
Por exemplo, “Eu vou tornar-me psiquiatra, para que possa ajudar famílias em crise e no processo eu consiga reduzir o desamparo sofrido na minha família” (Savickas, 2013, p. 165).
Em síntese, a carreira pode ser vista como uma história ou narrativa, em que o indivíduo é simultaneamente o seu protagonista, o seu agente mobilizador e o seu autor, este último com capacidade para interpretar o significado e o tema dessa história (Savickas, 2013). Após os anos da infância e da adolescência o indivíduo é já um ator com sentido de agência pessoal, que interpreta uma amálgama complexa de influências e de identificações. No final da adolescência o indivíduo torna-se capaz de agregar toda uma constelação de objetivos e de projetos numa história coerente e credível. Trata-se de uma narrativa da identidade que “não constitui uma soma, mas sim uma síntese” (Erikson, 1968, citado por Savickas, 2013. p. 163).