Capítulo 1 – Formação histórica do ensino secundário no Brasil e em São Paulo
1.2 A educação em mudança: dos anos 1920 aos 1940
1.2.1 O sentido da Reforma Francisco Campos (1931)
Francisco Luís da Silva Campos nasceu na cidade de Dores do Indaiá/MG, no ano de 1891 e faleceu no ano de 1968, na cidade de Belo Horizonte/MG. Formou-se em Direito no ano de 1914, pela Faculdade Livre de Direito de Belo Horizonte (hoje Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais). Foi deputado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais no período de 1919 a 1921, e deputado federal no período de 1922 a 1926 pelo Partido Republicano Mineiro (PRM) de Raul Soares e Artur Bernardes. Em 1926, foi convocado por Antônio Carlos para assumir a Secretaria dos Negócios do Interior, e nessa pasta promoveu a reforma do ensino primário e normal do estado. Ainda como secretário do Interior, Francisco Campos, considerado da ala renovadora do PRM e da nova geração da oligarquia rural, foi articulador da Aliança Liberal e da “Revolução de 1930” no estado mineiro. Em nome de Antonio Carlos, acordou com Getúlio Vargas e Osvaldo Aranha a participação de Minas no movimento revolucionário. (MORAES, 2000, p. 154).
Francisco Campos assumiu, em 1930, o Ministério de Educação e Saúde Pública (MESP) e promoveu a primeira reforma educacional da Segunda República. Dentre todos os Decretos que compunham a chamada Reforma de Francisco Campos, destacam-se os seguintes: Decreto n. 19.850 de 11 de abril de 1931, que criou o Conselho Nacional de Educação; Decreto n. 19.851 de 11 de abril de 1931, que regulamentou e organizou o ensino superior no Brasil, adotando o chamado “regime universitário”; Decreto n. 19.852 de 11 de abril de 1931, que organizou a Universidade do Rio de Janeiro; Decreto n. 19.890 de 18 de abril de 1931, que organizou o ensino secundário; Decreto n. 20.158 de 30 de junho de 1931, que organizou o ensino comercial e regulamentou a profissão de contador e outras; Decreto n. 21.241 de 14 de abril de 1931, que consolidou as regulamentações sobre o ensino secundário.
Conforme apontada na Introdução a Reforma Francisco Campos, oficializada pelo Decreto n.19.890 de 18 de abril de 1931 e complementada pelo Decreto n. 21.241 de 4 de abril de 1932 foi parte integrante dessa renovação. Modernizou o ensino secundário conferindo-lhe organicidade, aumentando a sua duração de cinco para sete anos, determinando a frequência obrigatória dos alunos, impondo um sistema rigoroso de avaliação e reestruturação do sistema federal de inspeção federal (DALLABRIDA; SOUZA, 2014, p. 12-3).
O Decreto n.19.890/31 estabeleceu que o ensino secundário, oficialmente reconhecido, seria ministrado no Colégio Pedro II e em estabelecimentos sob o regime de inspeção oficial. Com relação à organização do ensino secundário, passou a ser de sete anos, sendo a sua estrutura fundamental e complementar. O curso fundamental, com formação geral, ministrado em cinco anos, e o curso complementar, em dois anos, obrigatório para os candidatos a matricula em determinados institutos de ensino superior, de estudos intensivos. O candidato à matrícula ao curso jurídico cursaria disciplinas diferentes do candidato ao curso de medicina, odontologia e farmácia, e diferentes do candidato ao curso de engenharia e arquitetura (BRASIL, 1931). Na visão de Dallabrida e Souza (2014, p.13), a formação geral do curso fundamental, “sublinhava o caráter elitista do ensino secundário, distanciando-o ainda mais dos cursos técnicos e da escola normal, que preparavam jovens para o ingresso imediato no mercado de trabalho”.
Para ingressar no primeiro ano do estabelecimento do ensino, o aluno prestaria exame de admissão na segunda quinzena de fevereiro. As inscrições
seriam entre os dias 1 e 15 do referido mês e, entre outras exigências, o candidato deveria provar ter idade mínima de 11 anos e apresentar recibo de pagamento de taxa de matrícula. O exame de admissão somente poderia ser realizado no estabelecimento de ensino em que o candidato pretendesse matricula. Não era permitida a realização, na mesma época, em mais de um estabelecimento de ensino secundário, sendo nulos os exames assim realizados (BRASIL, 1931). Segundo Biccas e Freitas (2014, p. 67), o rigor do exame de admissão era um fator “altamente excludente”, haja vista a complexidade das provas escritas e orais de português, aritmética, história do Brasil, geografia e ciências naturais. Afirmam ainda os autores, que “tratava-se de um sistema cuja espinha dorsal era a seletividade combinada com intermináveis rituais de avaliação, aprovação e reprovação”.
A Reforma Francisco Campos também determinou a equiparação do ensino privado ao ensino público; a uniformização pedagógica do ensino secundário e a adoção do regime seriado, permitindo também a oficialização do ensino privado (ROCHA, 2000, p. 18). De acordo com Rocha (2000, p.34-5), a partir dessa reforma, estabeleceu-se um novo compromisso da União para com a educação secundária, a saber: implantação do sistema seriado; abdicação pela União do monopólio do 3º grau, estendendo a política de equiparação das escolas; criação de um sistema federal de regulamentação, fiscalização e orientação pedagógica das escolas equiparadas. O acesso ao ensino superior ficou condicionado ao cumprimento, por completo, do sistema seriado.
Quadro 1 – Reforma Francisco Campos Principais Decretos
Decreto n. 19.426 – 24/11/1930 Dispõe sobre a habilitação dos alunos sujeitos ao regime de exames preparatórios na presente época.
Decreto n. 19.850 – 11/04/1931 Cria o Conselho Nacional de Educação.
Decreto n. 19.852 – 11/04/1931 Dispõe sobre a organização da Universidade do Rio de Janeiro. Decreto n. 19.890 – 18/04/1931 Dispõe sobre a organização do
ensino secundário.
Decreto n. 19.941 – 30/04/1931 Dispõe sobre a instrução religiosa nos cursos primário, secundário e normal.
Decreto n. 20.1 – 30/06/1931
Organiza o ensino comercial, regulamenta a profissão de contador e dá outras providências.
Decreto n. 20.179 – 06/07/1931 Dispõe sobre a equiparação de institutos de ensino superior, mantidos pelos governos dos estados, e sobre a inspeção de institutos livres, para efeito do reconhecimento oficial dos diplomas por eles expedidos. Decreto n. 21.241 – 04/04/1932 Consolida as disposições sobre a
organização do ensino secundário e dá outras providências.
Com a demissão de Francisco Campos, em 16 de setembro de 1932, Washington Pires assumiu o Ministério de Educação e Saúde Pública. Campos substituir Anísio Teixeira na Secretaria de Educação do Distrito Federal e, posteriormente, assumiu o Ministério da Justiça do governo Vargas. A Reforma Francisco Campos foi um marco normativo do ensino secundário e superior e, acima de tudo, a precursora de uma política nacional de educação.