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O Sentido do Sentido e as Fronteiras do Conhecimento

Capítulo I- Enquadramento Teórico

7. Transdisciplinaridade

7.1. O Sentido do Sentido e as Fronteiras do Conhecimento

Quando se fala de transdisciplinaridade, coloca-se em evidência uma visão emergente, que é uma nova atitude perante o saber e um novo modo de ser aberto à infinita criatividade, ao cultivo da lucidez, à prudência e ao mesmo tempo à ousadia, assim, a transdisciplinaridade, visa contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade e do ser humano (Litto, 2000).

A finalidade da transdisciplinaridade é o de integrar diferentes níveis de realidade, mais flagrantemente dicotómicos no mundo dominante, uma vez que a crise da modernidade tem origem nas ruturas e é nutrido por elas. Torna-se imprescindível buscar leis fundamentais da vida e a valorização de uma consciência social, ecológica, planetária e espiritual própria da antropologia globalizante. A transdisciplinaridade enraíza-se na demanda concreta da educação e, portanto, no espírito de responsabilidade perante o planeta e na aspiração genuína pela evolução contínua da sociedade e da dimensão global do ser humano (Litto e Mello, 2000).

Pensar em transdisciplinaridade, em primeiro lugar, é pensar no sentido do sentido, é lançar-nos no movimento de um genitivo redundante que remete a si mesmo, ou melhor, em si mesmo, num círculo recursivo. No entendo, essa repetição ao infinito, esses efeitos espelhados, entreabrem-se e deixam escapar um clarão de sentido, o círculo vicioso torna-se espiralado e faz com que os níveis de perceção sejam alterados. Este genitivo redundante,

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aparentemente aprisionado, abre-se e gera sentido, vislumbra o verdadeiro significado, uma indicação de direção, um aflorar de sensibilidade (Pineau, 2000).

Como afirma Junger, a palavra sentido é uma palavra antiga utilizada para definir o caminho da vida, “um movimento circular que se faz no sentido das agulhas de um relógio ou no sentido inverso” (Junger, 1995, p.18).

Jean Piaget, a propósito desta questão, ilustra bem a passagem moderna, da desconversão filosófica à construção de uma abordagem científica, quando afirma que o problema central é encontrar o sentido do sentido e teme que a noção fundamental do sentido, ao redor da qual gravita toda a reflexão contemporânea, não recubra um equívoco não menos essencial. Como o próprio Piaget assevera, existem dois polos que devemos questionar, o do sentido epistemológico e o do sentido vital ou práxico (Pineau, 2000; Piaget, 1968).

“Do ponto de vista epistemológico, certamente: trata-se da hipótese segundo a qual o estado t+1 não pode ser deduzido sem mais do estado t, etc.; há aí um conjunto de significações físicas, psicológicas e lógico-matemáticas que conferem um sentido evidente ao problema, mesmo que ele não possa ser resolvido de uma maneira que seja satisfatória para todos. No ponto de vista da práxis, isto é, do que o homem deve fazer e pode esperar, a liberdade sem dúvida comporta um ‘sentido’, que inclusive engaja toda a nossa responsabilidade” (Piaget, 1968, p.293-294).

No entanto, devemos notar que esses dois sentidos não poderiam ser reduzidos um ao outro, a dedução a partir do segundo não permite a resolução do problema epistémico e a dedução a partir do primeiro não basta de modo algum para assegurar o segundo. Torna-se, portanto, indispensável uma sabedoria que os coordene, sem que por isso ela permita que se chegue a um conhecimento e nem mesmo a uma verdade. Em suma, “um ‘sentido’, e ainda ‘para o homem’ sempre é ao menos dois sentidos, um cognitivo e outro vital” (ibid., p.293-294).

É dado a Edgar Morin o mérito de reabrir a temática da pesquisa do sentido, da construção de uma epistemologia complexa com poder heurístico e que promove o pensamento livre. Este poder aberto por Morin, que recoloca os problemas globalmente, tem por objeto primeiro a construção de uma nova estrutura de pensamento. Na sua visão, a divisão disciplinar, pela sua lógica

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monodisciplinar, levou a avanços separados e até mesmo opostos que atualmente colocam como central o problema das relações, do que se passa ou não se passa entre elas. Descobre-se então com inquietude que o todo não é a soma das partes, que uma irracionalidade de conjunto desfaz a base das híper-racionalidades e torna-as locais e setoriais (Morin, 1991; 1999; 2001; Pineau, 2000).

Na atualidade impõe-se o tremendo problema das duplas ligações para formar o todo como uma unidade vital, tanto no nível social global da humanidade como no de cada ser humano em particular, por isso, novas abordagens de tipo sistémico emergem para tentar desenvolver novos métodos e mesmo uma nova epistemologia para aprender essa complexidade de um mundo novo (Pineau, 2000).

Yves Barel explorou antecipadamente, de uma maneira muito autónoma mas muito informada, o trágico de uma procura do sentido entre dois vazios, o vazio social externo e o vazio pessoal interno. A primeira situação é o paradoxo da autoformação como constitutiva do sistema vivo. A segunda coloca que é no estado de nascimento desse sistema que esse paradoxo pode ser melhor abordado. Assim se formam as questões quanto à redundância entre o sistema e as suas partes, e entre as partes e elas mesmas na formação de um sistema autónomo (ibid.).

Como afirma Barel:

“A superposição e a redundância abrem um campo imenso de interrogações: elas não têm por função e por sentido apenas acompanhar a análise do paradoxo fundamental, do qual elas são ao mesmo tempo a base e a competência. Elas também aparecem sob formas específicas cuja articulação com o paradoxo fundamental se faz menos rígido: ambivalência, ambiguidade, polissemia, multifuncionalidade, incognitividade planificada dos fenómenos, são algumas dessas formas e cada uma delas pode permitir que questões inabituais a respeito das condutas de um sistema social sejam colocadas” (Barel, 1979, p.48).

Também Maturana e Varela refletem acerca desta problemática sobre sistemas ao introduzirem o conceito autopoiético, termo que classifica os sistemas vivos que produzem sua unidade ao se diferenciarem ele mesmo do seu meio ambiente, gerando-se continuamente a si próprios (Pineau, 2000). Como os autores afirmam, “com uma nova linguagem adequada podemos nos

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orientar de maneira diferente e talvez, a partir da nova perspetiva, gerar uma nova tradição” (Maturana e Varela, 1980, p. 17).

Nesta dinâmica de sistemas autopoiéticos, o sentido do sentido, que conota o cognitivo mas também o sensível e o comunicativo, remete para os diferentes níveis que criam a unidade e para a complexidade da autoformação dos sistemas humanos (Varela; 1998; Pineau, 2000).

No seguimento da dinâmica dos sistemas apresentados, Douglas Hofstadter afirma que os fenómenos que emergem dos nossos cérebros, como as ideias, as esperanças, as imagens, as analogias, a consciência e o livre arbítrio, se apoiam em “círculos estranhos, numa interação entre os níveis na qual o nível superior desce de novo ao nível inferior e influencia-o (…) uma ressonância, auto-reforçante entre os diferentes níveis… O eu nasce a partir do momento em que tem o pode de se refletir” (Hofstadter, 1985, p.799).

Resumindo, o sentido do sentido inscreve-se no próprio centro da consciência e, é possível dizer, nasce a partir do momento que ele tem o poder de apropriar-se desse trabalho, de lhe dar uma forma e uma norma próprias, pessoais, singulares. Entre a consciência e o sentido do sentido existe um laço e círculos a estabelecer uma ligação pois os dois movimentos brotam nas fronteiras do cognitivo, do sensível e da conduta da ação, com as suas orientações e direções. Com efeito, longe de subsistir a divisão que Piaget realizou em apenas dois sentidos, acrescenta-se um terceiro: significação, direção e sensação (Pineau, 2000).

A repetição da dinâmica complexa da fórmula no nível de cada um dos sentidos permite distender a sua complexidade da fórmula inicial, constituindo diferentes entradas possíveis numa matriz geradora. Assim, o sentido do sentido pode ser visto como um círculo de círculo no centro da autoformação dos sistemas autopoiéticos, portanto, de nós mesmos. Esta complexidade, apelidada de implexidade por Le Grand, trata-se de uma complexidade implicante na qual o objeto e sujeito, observado e observador, estão ligados. Distender e desdobrar essa implexidade para criar um espaço de tratamento é um dos desafios metodológicos da abordagem transdisciplinar (ibid.).

Constrói-se assim uma matriz para entrecruzar esses três sentidos do sentido. Como vimos, a concentração dos três significados no mesmo

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significado, sentido, é responsável por uma grande polissemia que aumenta a sua repetição, geradora de possibilidades de entrecruzamentos múltiplos que retornam ao nó górdico do sentido do sentido como um indicador de um limite ou de uma impossibilidade dessas divisões para responder a novas buscas de sentido de unidades vivas implicadas no tratamento singular de novas complexidades. Esse retorno ao nó górdico não é isolado, podemos inscreve-lo num movimento coletivo de construção de novas abordagens da complexidade e da autonomização dos sistemas vivos (ibid.).

A abordagem transdisciplinar é resolutamente aberta, polissémica, multifacetada e multidimensional. Ela não nega as disciplinas mas, ao mesmo tempo, não se restringe a elas, é uma dinâmica de através e além, a matriz da exploração do sentido do sentido onde a variedade é uma riqueza a ser investida de maneira autónoma e, assim, atingindo a ipseidade que, como diz Ricoeur, é “aquela de um eu instruído pelas obras da cultura que ele aplicou a si mesmo” (Ricoeur, 1985, p.356).

A essência do sentido, segundo descrita por Morin, refere-se ao surgimento de uma relação que une elementos sem por isso os separar, é algo que emerge do todo, e, ao mesmo tempo, é hologramático, isto é, a emergência do todo dá sentido igualmente às partes como estas dão sentido ao todo. Cada uma das partes propostas para atingir o sentido do sentido só adquire sentido se ligada ao conjunto da matriz, como esta só dá sentido mediante cada uma das suas partes. Nisto, um ato só tem sentido quando ligado ao seu contexto de conjunto, do contrário esteriliza em significações, direções e sensações fragmentadas (Morin, 1991; Pineau, 2000).

A pesquisa pelo sentido do sentido desperta o movimento reflexivo e incita à multiplicação das relações interdependentes existentes acerca dos sentidos possíveis. Além disso está relacionada com a identidade pois é inclusiva e contraditória. Ela compreende, a partir do interior, a formação das entidades vivas e até mesmo a sua autoformação. Como afirma Pineau:

“Mutilando gravemente nossos poderes de compreensão dos sistemas vivos. Dividindo-os, dividindo-nos em peças homogéneas (…) matamos os sistemas vivos. Quanto mais sensação, mais movimentos, mais sinais de vida, mais palavras mesmo. Fazer um sistema vivo calar é matá-lo como sistema autopoiético” (Pineau, 2000, p.50).

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Então, para compreender os sistemas autopiéticos, é preciso ousar utilizar matéria nova para atar de o nó górdico, de nos compreendermos e de nos tomarmos como nós mesmos, “com mais sensibilidade, tato, fineza, brandura, para reconhecer a natureza do nó, a composição dos laços, a direção de seus movimentos, a significação de seus círculos” (ibid., p.50).

Para finalizar, devemos apontar que, para entender o sentido do sentido, cada período histórico tem de enfrentar as suas origens, internas e externas, de modo a contruir uma dominante autorreferencial ou transcendente de modo a atingir a sua autossuperação (ibid.).

Para esclarecer a metodologia proposta pela transdisciplinaridade é necessário entender os três pilares da mesma: os níveis de realidade (axioma ontológico), a lógica do terceiro incluído (axioma lógico) e a (axioma) complexidade (Nicolescu, 2000; 2005).