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Capítulo 2 – O sentido de cidadania feito carne: subjetividades em construção

2.7 O sentido tensional entre identidade e diferença

Quando Stuart Hall119 explica o funcionamento interno da “identidade” ele fala de pontos de identificação que possuem a capacidade de excluir aquilo que não é o seu “idem”. Ao deixar fora o seu diferente ele o transforma em abjeto. Essa margem da identidade carrega sempre esse excesso excluído, aquele outro oposto. Dessa forma, a identidade sempre é constitutiva de relações de poder, de violência entre aquilo que é e que não é entre aquilo que ameaça o ser que a identidade enfoca. A diferença é, portanto, marcada por esses processos: psicanalítico entre o ser e a falta que ele produz; semântico entre as significações das imagens sobre esse ser e seus desejos; e histórico entre aquilo que ele constrói, repele e ressignifica, repete na continuidade e na ruptura.

Ele diz que as identidades “emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma identidade idêntica, naturalmente construída”120. Esse jogo de poder onde as estabilidades são esperadas, e todas as margens e exclusões que emanam dela, expõe um dos limites pelos quais os Estados são fragilizados. Administrar o caos entre esses limites identitários e os múltiplos processos de identificações e diferenças dos vários grupos sociais é um tabuleiro onde o xeque mate é regra. Regular as dissonâncias nesses espaços é um constante jazz em construção.

Nos corpos dos jovens pesquisados essa tensão com os outros pareciam estereotipadas, caricaturizadas. A sensação que tive durante a aplicação da pesquisa era que

119

HALL, Sturat. Op. Cit. p. 109-110 120 Ibid. p. 109.

as subjetividades em construção não tinham corpos que lhes sustentassem. Essas tensões identitárias, adolescentes no sentido mais rebelde do termo, parecem não ser sustentadas por aqueles corpos. Eles são irrequietos, desengonçados, correm pelos corredores como se tivessem pressa; outros se arrastam e são literalmente atropelados pelos mais estabanados. Às vezes a sensação é de que o outro, o senso de coletividade não está sendo considerado.

Porém, em outras situações parece que apenas o outro está em cena. Muitos jovens, apesar da exigência do uniforme na maioria das escolas, subvertem o estilo básico com acessórios e maquiagens da moda urbana. O estilo jovem é homogêneo, porém, os apelos são adultos: a sensualidade erótica das meninas e a estética de violência associada à masculinidade nos meninos. O outro é muito evidente em ambos os casos. Muito mais do que mostrar uma identidade individual, mas uma resposta para o que se imagina que o outro vai gostar de ver e vai aprovar. As meninas parecem estar em competição de moda e sensualidade com as outras meninas e os meninos parecem competir o tamanho de sua masculinidade com outros garotos. O exibicionismo em ambos os casos é evidente.

A ultima questão da pesquisa apresentava uma situação hipotética de relações entre várias diferenças. E as respostas dos jovens frente a essa possibilidade disseram muito sobre a forma como as suas subjetividades cidadãs estão sendo construídas. Do universo de 390 jovens, 51,54% disseram não ter problemas em conviver com qualquer diferença. A princípio parece que cerca da metade desses jovens está assujeitada a idéia do múltiplo, das diferenças, No entanto, a forma como justificaram essa ausência de problemas abre outras possibilidades de análise. O sentido de igualdade entre todos foi muito grande. A idéia de que todos somos iguais, que apareceu nas questões relacionadas à educação e saúde, justificou também a escolha de conviver bem com o outro; 84 vezes apareceram discursos que defendem a harmonia com o outro pelo viés da igualdade. No entanto, como já foi trabalhado, o conceito de igualdade não resolve os problemas reais que esses jovens vivem. A defesa da igualdade é um eco do discurso jurídico, mas reflete e refrata o real da desigualdade. Apenas 8 vezes o discurso da diferença apareceu e 6 vezes a igualdade foi relativizada pela diferença. Ou seja, 14 vezes os jovens disseram que não possuem problemas com o outro diferente, porque no espaço em que vivemos as diferenças são regras. Esse sentido não exclui possíveis atritos ou negociações. Essas vozes assumem que existem negações nas relações humanas e nem por isso o outro precisa ser excluído. Como

é o exemplo da frase: “não sou eu que vou escolher quem vai ficar ou quem vai sair. Sou diferente de muita gente e convivendo vou saber o que fazer”. Existe um reconhecimento da diferença e dos jogos de poder: “convivendo vou saber o que fazer”.

Somaram 50 as vezes em que apareceram bandeiras contra o preconceito nas falas dos jovens. Essas falas se mostraram em consonância aos apelos midiáticos de paz. Essas vozes somaram as 18 vozes que defenderam a solidariedade e as 14 que agiriam com compaixão. Entre essas falas, algumas foram destaques:

Não me importaria em ficar com qualquer pessoa porque todos são humanos e cidadãos sejam eles brancos, negros, rico ou pobre.

Em qualquer situação dificiu temos de nos unir e nos ajudar porque a escluir os outros, ter preconceito só vai atrapalhar nessas horas.

Eu tiraria a pessoa idosa dessa situação porque ela não merece passar por isso.

Uma criança mais nova não pode ficar na casa, eu iria tentar salvar ela.

Ajudar, salvar, ter compaixão foi um discurso que apareceu pouco, mas ganhou notoriedade pela sensibilidade com que foi falado e por desviar das possibilidades de interpretação pensadas quando da construção do instrumento. Apenas 14 vezes essa interpretação apareceu. Dessas, a metade não ficariam com as pessoas mais velhas e três com as crianças, duas com pessoas com necessidades especiais porque entendem que essas precisam ser protegidas de situações de risco. O instrumento de pesquisa sugeria a seguinte situação hipotética: “Se você tivesse de ficar trancado com alguém em uma casa, em uma situação acidental (uma tempestade, um desmoronamento, uma enchente etc) e pudesse escolher as pessoas, quais você jamais escolheria na lista abaixo?”. Durante a aplicação foi tomado o cuidado de, ao listar as identidades estereotipadas, também destacar a última opção, que era: “( ) não teria problemas em ficar com qualquer uma dessas pessoas da lista”. Esse cuidado era tomado a partir do receio do adolescente entender que obrigatoriamente ele teria que incluir e excluir pessoas. Havia também essa opção. E a lista era:

( ) uma pessoa idosa ( ) uma criança bem mais nova que você ( ) um padre católico ( ) um pastor evangélico

( ) um islâmico ( ) um judeu

( ) um negro velho do terreiro de umbanda ( ) uma pessoa negra

( ) uma pessoa obesa ( ) uma pessoa muito pobre ( ) uma pessoa muito rica ( ) um homossexual masculino ( ) uma homossexual feminino ( ) um ex-presidiário

( ) um emo ( ) uma pessoa com necessidades especiais

( ) um roqueiro ( ) um pagodeiro

( ) uma “patricinha” ( ) uma prostituta

( ) não teria problemas em ficar com qualquer uma dessas pessoas da lista.

Porém, para qualquer que fosse a escolha desse adolescente, era necessário que ele justificasse sua iniciativa. Não ter problemas em ficar em uma casa fechada com um grupo de pessoas, das mais diversas identidades, não revela por si só a tolerância. Nos discursos da justificativa, ficou claro que existem sentidos de direito a igualdade, enfim, dos direitos civis que consonam a esses discursos, como já foi apresentado. Mas também apareceram outros sentidos que levaram à mesma atitude, mas revelam outras faces da tolerância. O sentido de tolerância veio à tona 36 vezes. A tolerância foi escutada silenciosamente em seu contrário – a intolerância. E essas vozes ecoaram na pesquisa como um coral. Muitos adolescentes revelaram em suas falas uma tolerância velada. É como se cantassem ou tocassem seguindo a partitura, o ritmo, mas a dissonância fosse um “semi-semi-tom”, algo muito sutil, quase imperceptível. Como exemplo, um jovem diz: “Se não me anger não tem problema. Tendo chocolate, brigadeiro, refri e salgado, não tem problema, podia ficar até o papa La dentro que eu não me importaria” (frase reproduzida como foi escrita). Esse é um exemplo típico de tolerância velada. Em outras palavras, foi dito que “se todas as diferenças ficarem cada uma no seu canto, e for me garantido tudo que eu gosto, não me importo que elas existam”. O debate sobre o coletivo não existe nessa fala: sendo mantido o bem-estar individual, não há problemas com as diferenças. Essa é uma materialização da subjetividade do consumo e da individualidade contemporânea.

Outros exemplos de intolerância velada foram as falas: “Por que sim nada A ver o que que algumas dessas pessoas tem de errado”. Ao mesmo tempo que o discurso diz sobre a negativa ao preconceito, ele afirma que as diferenças são erros. Outro, afirma no mesmo sentido, dizendo: “porque igual são seres humanos. merecem ter chance na vida. As pessoas podem mudar”. Existe uma intenção de normalidade, de homogeneidade, de tolerância, até que se regenerem do seu “erro”. Há frases ainda, que começam afirmando a igualdade e terminam revelando a fragilidade da tolerância, como: “Bem, na verdade, eu não tenho preconceito mais seria orrivel”; ou ainda: “porque no

fundo todos somos iguais” e “não tenho preconceito, mesmo sendo prostituta eu aceito igual”, são a materialidade de que existe um entendimento sobre a tolerância, um assujeitamento ao discurso cidadão. Mas efetivamente, a subjetividade em questão está subjugada a um agenciamento de sentido outro, diferente daquele proposto no plano nacional.

Mas existem também sons consoantes, que dizem: “não me importaria em ficar com qualquer pessoa diferente de mim, porque todos são humanos e cidadãos, sejam eles brancos, negros, rico ou pobre”, ou ainda “são apenas pessoas com características diferentes” e “porque todos são iguais”.

Algumas falas não foram sutis e trouxeram a intolerância por si mesma, e a palavra “ódio” apareceu algumas vezes. Foram 93 as vezes que as respostas apresentaram sentidos de intolerância. Como na frase a seguir:

“o idoso já ta pra morrer. odeio padres. islâmico não pertence ao meu país. odeio políticos. é impossível ficar com 1 pessoa obesa. os ricos são esnobes. odeio patricinhas. odeio crianças. odeio pastor. judeus nogentos. Não gosto de negros. odeio políticos. necessidades não combina com tempestade. odeio pagode”.

Aparentemente, um discurso do despropósito. Mas frases desse tipo, faladas por jovens, precisam ser lidas. E como lê-las? Elas realmente dizem os sentidos diretos das palavras? Trata-se de um jovem que sabe sobre aquilo que a escola quer ouvir e diz exatamente o contrário, pelo prazer da controvérsia? Existe aqui a intensão de chocar, mais do que aquilo que realmente diz? Ou seria imprudência da interpretação achar que “isso é coisa de adolescente” e não se atentar para os sentidos colocados?

O que importa é que essas palavras foram escritas, esse discurso foi produzido e os sentidos que dele emanam transbordaram do texto. Importa ainda que existe uma subjetividade em construção, que grita uma dissonância não permitida e estraga o jazz. Não

há música se o ritmo está desencontrado. Existem nesse discurso não só desencontros nos sentidos produzidos em relação ao que se propõe a educação brasileira, mas também desconhecimento dos conteúdos argumentativos do discurso. Mesmo que o assunto “conteúdo” não seja o centro da questão, ele infere na construção do argumento discursivo. Esse jovem mistura a religião islâmica com a nacionalidade. E isso, muito mais que um desconhecimento histórico, sinaliza por onde caminham os ares da intolerância.

Algumas falas revelam a intolerância por si só. Outras tentam argumentar essa intolerância, esses apareceram 35 vezes. E, na argumentação, revelam preconceito, no sentido mais convencional da palavra: um conceito prévio, com distanciamento e influenciado pelo senso comum. Um jovem diz: “Emo: porque não gosto de Emo. Pastor: porque ia me encher o saco. homossexual m: porque poderia dar em cima de mim. prostituta: poderia me passar doenças”. Essa fala se inicia apenas dizendo “não gosto”; em seguida, mostra uma intolerância com as atitudes do pastor e segue mostrando medo, por preconceito ou desconhecimento. Querer se proteger do outro é entendê-lo como ameaça. E o desconhecimento torna o outro ameaçador. Essa intolerância marcada pelo (pré) conceito marca uma possibilidade de afinação dos instrumentos. É possível tornar consonantes notas musicais como essas. No entanto, a intolerância por ela mesma, como na frase “essas pessoas me dão nojo”, é uma dissonância que grita; é uma música que não deu certo, do ponto de vista da partitura musical. Não se trata de um jazz, mas de um desafino.

Mas como lidar com a intolerância no jazz, em uma idéia democrática segundo a qual

todos possuem o direito de dizer o que pensam? Poderia ser considerado o direito desses jovens de dizerem que gostam dessa ou daquela identidade? Por que essas falas são tratadas aqui como desafino e não como dissonâncias permitidas? Michele Perrot já apontava para essa limitação da tolerância no Foro Internacional sobre a Intolerância, em 1997121. Ela disse que essa limitação, essa virtude pacificadora da tolerância recebe culpas de indiferença e de passividade frente ao intolerável. E, em seguida, ela define o intolerável. Intolerável? Diz ela,

“é a própria intolerância, temível parceira do totalitarismo, nacional, religioso ou étnico, cuja recusa ao outro chega a ponto de aniquilá-lo. A estigmatização de estrangeiro, a xenofobia, o racismo são suas armas preferidas [...] Intolerável? É o sofrimento dos fracos, joguetes e vítimas dos poderes públicos e privado: crianças, estrangeiros, deficientes, pobreza extrema, prisioneiros cujo encarceramento cria uma zona de não- direito, reduzidos, portanto, á abjeção, quando não, sujeitos a tortura; todas essas vítimas corriqueiras da dominação cotidiana, ou vítimas excepcionais das guerras, das deportações e das limpezas étnicas, mais que nunca, na ordem do dia [...]”122

121 PERROT, Michelle. O intolerável. In: FORO Internacional sobre a Intolerância. A Intolerância: Foro Internacional sobre a Intolerância, UNESCO, 27 març. 1997, La Sorbone, 1997. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. p. 111.

Discursos como desses adolescentes citados consonam com o intolerável e reforçam a massa de subjetividades semelhantes àquelas que permitiram os regimes totalitários de governo e ainda permitem as guerras. Essas falas desnudam de forma assustadora, aos olhos das instituições reguladoras das subjetividades cidadãs, a fragilidade do conceito de diferença. Talvez seja por isso que os Parâmetros Curriculares Nacionais, várias vezes, ao falar dessas diferenças, não as explicitam dessa forma. A fala oficial assume a diversidade. A diversidade é tolerante. Ela é constitutiva da identidade. A diferença quer arrancar à força a sua liberdade, barbaramente. Ela possui casos de amor com as identificações furtivas.

A fala do jovem que diz ser tolerante se não for incomodado é consonante com o discurso da diversidade. O que é o diverso senão um conjunto de coisas diferentes e tolerantes? Grupos, mais ou menos harmônicos, que negociam civilizadamente seus espaços no território do direito. A música que embala os pátios das escolas nos horários de intervalo canta um refrão “cada um no seu quadrado” e exprime exatamente a idéia do diverso e da tolerância. Esse é um limite da musicalidade do Estado. O jazz acontece nesse

parâmetro e, como as diferenças são inevitáveis, são reguladas constantemente para que as dissonâncias não escapem das notas permitidas.

Observando as respostas dos jovens percebe-se que os jovens do grupo 2 são os mais assujeitados a essa partitura estatal. Foram 62,81% daqueles jovens que se mostraram tolerantes, que ergueram bandeiras contra o preconceito, a favor da solidariedade e da compaixão com o outro. Do grupo 1 foram cerca da metade, 50,33% que mostraram essa subjetivação e no grupo 3, um índice menor – 41,53%. Mesmo que o grupo 1 não tenha sido aquele que mais se mostrou intolerante, foi o grupo que, entre aqueles que assumiram suas intolerâncias, maior foi o número de excluídos.

Sobre essas exclusões, observa-se que a questão do racismo contra os negros parece estar assimilada como algo negativo. Apenas 21 jovens, em um universo de 390, assumiram que não gostariam de conviver com negros. Mesmo no grupo 1, onde todas as categorias foram escolhidas muitas vezes, em torno de 35, 25 vezes, apenas 11 jovens assumiram excluir negros.

Exclusivamente na escola rural, quando da aplicação da pesquisa, um grupo de jovens brancos, filhos de agricultores, definiram-se como descendentes de italianos, e com um sotaque estrangeiro bem carregado foram grosseiramente racistas em relação aos negros.

Havia um aluno negro na sala e um dos jovens disse algo mais ou menos assim: “Desculpa o colega ali, a gente gosta da família dele, mas vou falar o que penso. Agora é proibido falar de nego, muita gente não fala porque senão vai preso, mas a gente aqui não gosta de nego trabalhando com a gente. Some coisas, eles não trabalham direito”. A turma ficou em silêncio total, o professor de História chamou o aluno pra fora da sala. Ao sair ele me disse: “não falei? Não pode falar de nego” e para o professor ele disse: “você não diz que a gente precisa de liberdade pra dizer as coisas?” Falar sobre negros precisa ser da forma permitida, ou seja, positivada. Existe uma lei da tolerância que, por sua vez, instaura a lei do silêncio. A diferença produzida no contexto de trabalho da família precisa ser transformada apenas em uma diversidade tolerante, um jeito outro de ser tolerável e tolerante.

Ao ler essas respostas dos jovens, na questão 28 do instrumento de pesquisa, acredito que o silêncio sobre os negros está escrito. Essa hipótese torna-se mais possível quando 61 vezes o velho do terreiro de umbanda é excluído. Uma fala justificada diz: “só de pensar já me dá arrepios”. Se o sentido sobre os negros pode ser calado, o silencio não conseguiu se fazer diante do choque com a religiosidade de raiz africana.

A expectativa de produção de identidades mais ou menos fixas e as experiências na ordem da diferença desses jovens desnudam uma maneira de saber sobre o mundo que não é harmônica. Tensional também quando estão dentro da instituição escolar que possui o objetivo de regular essas dissonâncias. Um dos instrumentos de regulagem, além do esporte, do lazer, das atividades culturais que vez ou outra as escolas promovem no contraturno, está também o currículo convencional. Como parte dele, o livro didático. E é sobre esse consumo que o próximo capítulo se ocupa.