Paradoxalmente, ao retratarmos os dilemas dois, três e quatro, que versam sobre o relacionamento entre colegas do mesmo time, encontramos a prevalência de um sentimento mútuo, guiado pela primazia do companheirismo.
Este companheirismo, quase sempre, é determinado pelo respeito que se estabelece à união do grupo, de tal forma que, notadamente, os julgamentos dos sujeitos, perante os dilemas, indiciam um sentimento peculiar que pode ser expresso no jargão popular “a união faz a força”.
Portanto, diferentemente dos valores morais expressados na primeira categoria - sentimento de cooperação entre grupos -, as respostas desta segunda categoria apontam uma redimensão, no sentido de cooperação, do outro, quando este faz parte de uma mesma equipe o que não ocorre; como observamos na primeira categoria, quando o outro é componente da equipe contrária.
É interessante destacar a reação dos sujeitos de ambos os grupos quando deparamos com o segundo dilema. As respostas, todas sem exceção, reportam a uma noção de grupo que está além de qualquer sentimento que venha a caracterizar um individualismo.
Sobre este prisma, relatar ao companheiro a presença do representante de uma equipe grande (olheiro), é ou não bem vista, desde que o fato não venha a atrapalhar o rendimento do time, assim, para os sujeitos, tanto de Grupo A quanto Grupo B, o jogo e o grupo não devem ser perturbados em hipótese alguma, seja qual for o motivo, como poderemos perceber nas respostas:
Grupo A- os Sujeitos 1 (13,11) não falava pois “se eu falasse para os meus companheiros, eles iam querer cada um se mostrar mais que o outro e esquecer do jogo”; e o Sujeito 3 (14,7) mantém a mesma posição pois acredita que “tem companheiro que fica sabendo que o olheiro está observando não joga bem e isso é ruim para a equipe”. Já o Sujeito 4 (15,0) contava aos colegas porque “aí todo o grupo vai jogar bem”.
Grupo B- Sujeito 6 (13,5) não guardaria a informação para si “para eles jogarem melhor”; e o Sujeito 10 (14,1) é da mesma opinião “para meus companheiros crescerem no jogo”.
O relato do dilema dois possibilita ao sujeito determinar se a notícia deve ser mantida em sigilo, contada aos companheiros, ou repassada a todos que estão jogando, inclusive a equipe adversária. Mesmo quando a informação não é relatada a ninguém, o motivo é a não desunião / desarmonia do grupo e, em contrapartida, quando se propõe a dizer aos companheiros a busca é da união / harmonia do grupo.
Nenhum dos sujeitos, de ambos os grupos, aventaram a hipótese de inteirar os integrantes da outra equipe sobre o fato. Talvez os jogadores do Grupo A tivessem motivos mais fortes para que isso não acontecesse, pois aspiram ao profissionalismo e o outro é seu concorrente; porém, os do Grupo B tem no futebol somente o objetivo de desfrutar momentos de lazer e, no entanto, mantém a mesma postura.
Este diagnóstico reforça, de certa forma que, quando o propósito é ver o ponto de vista do adversário, não há tendência efetiva, clara, de um sentimento de cooperação; o que inversamente é constatada quando o objetivo é observar o ponto de vista de um integrante do grupo.
No dilema três, os sujeitos não apresentam uma atitude diferente, ou seja, nesta categoria manifestam uma retórica favorável à cooperação, acreditando ser o procedimento mais correto aquele que privilegia o companheirismo; como poderemos examinar em algumas redargüições:
Grupo A - O Sujeito 1 (13,11) diz que passaria a bola por que “se eu for pensar em artilharia posso prejudicar minha equipe”. Já o Sujeito 2 (14,4) justifica sua postura como fruto de um aprendizado, pois “nosso treinador já treina a equipe para acontecer isso, sermos um grupo”; e para o Sujeito 10 (14,1) passar a bola é o mais correto “porque eu pensei no grupo e não em mim, em primeiro lugar vem o grupo”;
Grupo B - O Sujeito 8 (14,6) acredita que “não adianta pensar só individualmente, tem que pensar no time”; Para o Sujeito 4 (13,2) passaria a bola pois entende que “o grupo tem que ser unido, compartilhando uns com os outros, porque uma pessoa não faz um time”; e o Sujeito 1(13,4) relata que tocar a bola é uma “reação lógica”.
No entanto, mesmo não sendo relativamente significante, alguns sujeitos, como o 8 (14,8) do Grupo A e o 3 (13,1) ; 6 (13,0) e 10 (14,1) do Grupo B, adotariam um comportamento diferente, ou seja, não passariam a bola e se arriscavam a marcar o gol para serem artilheiros, mesmo sabendo que há um companheiro em melhores condições para fazer o gol.
Pode-se notar, em uma análise mais detalhada, que o Grupo B determina um desvio de valores mais contundente. Por este ângulo, é plausível deduzir que o Grupo A revela um sentimento de cooperação de maior contumação, haja vista somente o Sujeito 8 (14,8) revelar que não tocaria a bola para o companheiro.
Contudo, pela pequena incidência, e por ter sido observado somente no dilema três, julgamos oportuno apenas descrever este neologismo, sem, no entanto, configurá-lo como um contra-senso de relevância para esta categoria.
Já, no dilema quatro, o discurso volta a denotar, assim como no dilema dois, um direcionamento concêntrico - de ambos os grupos - onde os sujeitos creditam como sendo dignos, os valores que exprimem o espírito de equipe.
Desta forma, de acordo com as atitudes verbalizadas, novamente, as respostas apontam que há uma tendência, claramente consensual, de privilegiar a cooperação quando se trata de membros de um mesmo grupo; vejamos algumas descrições:
Grupo A - O Sujeito 1 alega que (13,11) “lutaria até o final, até o último segundo com a nossa equipe”; de acordo com o Sujeito 5 (15,0) esta atitude se justifica porque “a gente tem que jogar para o grupo e não individualmente”; e o Sujeito 10 (14,1) é enfático neste ponto pois, “o grupo vem sempre em primeiro lugar”.
Grupo B - O Sujeito 2 (13,2) expressa que o mais importante é estar junto com o meu time”; Já o Sujeito 9 (14,4) acredita que “não poderia deixar os amigos sozinhos nessa”; e o Sujeito 1 (13,4) argumenta que se sair da partida não estará “pensando nos outros e, ficando na partida, ajuda a equipe”.
Portanto, assim como a essência das respostas obtidas nos dilemas um e cinco nos permitiram caracterizar a construção de uma categoria que tende a não cooperação entre os grupos; os valores expressados nos dilemas dois, três e quatro, consubstanciam indicativos de uma outra categoria que paradoxalmente ordena atributos que determinam um efetivo sentimento de cooperação quando se trata do grupo, de uma maneira positiva.