Segundo Kant, o juízo do gosto é um juízo subjetivo, pois não é lógico, mas estético, e não vai do entendimento ao conhecimento, mas da faculdade de imaginação ao sujeito que é afetado pela sensação, causando-lhe, com efeito, o sentimento de prazer e desprazer. Este sentimento nada tem a contribuir ao conhecimento, pois tem apenas a qualidade de manter no sujeito a relação entre a representação dada e a inteira faculdade de representações, ademais, é uma faculdade do ânimo que, por conseguinte, se torna consciente de seu estado.
Kant define que o sentimento de prazer e desprazer tem três relações com as representações: o agradável, o bom e o belo.
A sensação, para Kant, se divide em subjetiva ou objetiva, esta é a empírica (como, por exemplo, a cor) e aquela é onde nada, além da satisfação (que é ela mesma sensação de prazer), é representado. A satisfação não depende do interesse pela existência ou não da representação de um objeto, o que importa é a simples contemplação. Além disso, Kant, um pouco controverso, salienta que devemos nos colocar a parte da questão da existência da coisa para podermos julgar sobre o gosto. Porém, posteriormente, irá conferir um interesse empírico pelo objeto prevalecendo que é daí que se parte e se preserva o gosto quando o mesmo objeto é causa de prazer.
Em se tratando da satisfação, Kant aponta o agradável como correspondente à satisfação. O agradável não apenas satisfaz como também gratifica. Se meu juízo sobre um objeto me agrada ele também me provoca um desejo por este, gerando uma inclinação. Aliado a isso, surge o bom como aquilo que satisfaz pela razão através do conceito. O bom tem um caráter utilitário: bom para. O bom pode ser um meio ou bom em si; em ambos há um conceito de um fim. A satisfação está na razão de querer a existência de um objeto ou de uma
ação, o que é designado como interesse. Ora, para que se considere algo como bom, devo ter um conceito disso, porém, para considerá-lo belo não necessito conhecê-lo. O agradável se assemelha ao bom, daí ser usual afirmar que o gratificante é bom. Mas esta afirmação é incorreta, pois o agradável e o bom são coisas distintas. O agradável se dá através dos sentidos, por conseguinte, pela razão. O bom é o objeto da vontade, que é a faculdade de desejo determinada pela razão, portanto, ele é condicionado. Por isso, conclui-se que ter satisfação por algo, querê-lo e tomá-lo como interesse é a mesma coisa.
Retomando aos três modos de satisfação, podemos definir que o agradável gratifica, o belo satisfaz (dá prazer) e o bom é estimado (aprovado). O belo e o bom acontecem somente para os homens enquanto animais racionais. O belo é o único desinteressado e livre entre os três; ele designa inclinação, favor (única complacência livre) e respeito. Como o interesse pressupõe uma necessidade ou a produz, a moral produz uma necessidade, e o gosto moral joga com objetos da satisfação sem se prender a eles. A questão aqui é que Kant reconhece uma liberdade distinta da liberdade moral: a liberdade do julgar e do sentimento de prazer, ou seja, a liberdade estética. Cabe aqui a análise de Lebrun:
Neste momento em que a palavra “estética” designa ainda uma região psicológica e já uma disciplina filosófica, em que de adjetivo ela torna-se substantivo, seu próprio deslizamento é o indício da descoberta de uma liberdade de uma outra envergadura que a liberdade moral. 110
Portanto, a liberdade estética apontada por Kant, nos dá indício de uma aproximação com a liberdade que Sartre requer para que haja a fruição. Pois ambas se atribuem à condição subjetiva e imaginária. Para Kant a liberdade estética se volta mais para o juízo do gosto, que é dado através da reflexão, é uma liberdade investigativa e apreciativa, não está no plano da prática, e também é a liberdade que ocorre na reivindicação pela universalidade do gosto. Para Sartre esta liberdade estética representa a criação, tanto por parte do autor da
110 LEBRUN, G. Kant e o fim da metafísica, Martins Fontes, São Paulo, 1993, 2ª edição, p. 433.
Aqui Lebrun se refere ao advento da Estética como disciplina no Esclarecimento. Pois o sentimento de prazer, refletido por Kant, marca a chegada de uma liberdade bastante “insólita”, pois “Desafio supremo às descrições do senso comum, ele libera o homem de toda determinação no próprio nível das inclinações, e não além dele.” (Idem, Ibidem)
obra, como para o sujeito que a contempla, pois este ao contemplar tem a liberdade de criar continuamente enquanto a aprecia.
É correto afirmar que o juízo do gosto é meramente contemplativo, não é nem teórico nem prático. Também não é juízo de conhecimento porque, embora se efetive através do sensível, não se relaciona com o interesse pela existência do objeto. O gosto é independente de todo interesse, cabe a ele a faculdade de julgar um objeto ou método de representação mediante satisfação ou insatisfação sem que haja o interesse. Assim, pelo exposto, o objeto da satisfação é o que Kant denomina belo no primeiro momento da Analítica do Belo.111 Com relação ao prazer e o desinteresse, Deleuze faz a seguinte leitura: “...o prazer estético é tão independente do interesse especulativo como do interesse prático e define-se a si próprio como inteiramente desinteressado.”112 Kant denominará de finalidade sem fim o juízo estético não lógico e sem conhecimento. É um prazer desinteressado na positividade.
Para Kant, o gosto pode ocorrer de duas maneiras: gosto dos sentidos (juízos privados: o agradável) e gosto da reflexão (juízos geralmente válidos – públicos: o belo). Em ambos a estética julga o aspecto do prazer e desprazer causado pela representação de um objeto.
Um juízo objetivo e universal válido é também válido subjetivamente. Ele vale para tudo o que está sob um conceito dado e vale para todas as representações de objetos que estejam sob este conceito. A universalidade estética, que tem validade universal subjetiva, não está vinculada ao objeto, mas sim aos que julgam. Na lógica, todos os juízos de gosto são singulares, enquanto eles trazem uma universalidade estética, os juízos provocados pelos sentidos são estéticos e singulares. O bom tem universalidade lógica, porém não meramente estética em razão de ter validade como conhecimento de objeto, válido para qualquer um. Neste sentido, do juízo do gosto parte uma „voz‟ universal sem mediação de conceitos, a fim de que haja possibilidade de um juízo estético válido para qualquer um.
O estado de ânimo, livre das faculdades de representação, e encontrado na relação entre as faculdades de representação, é responsável subjetivamente
111 KANT, I. Crítica da Faculdade de Juízo, tradução de Valério Rohden e Antonio Marques, Ed.
Forense Universitária, 2ª edição, p. 55.
112 DELEUZE, G. A filosofia crítica de Kant, Edições 70, Lisboa, 1963, p. 54.
pela comunicabilidade universal existente na representação. Este estado, quando na relação livre entre a faculdade de imaginação e o entendimento, provoca a comunicabilidade que unifica as representações para um conhecimento. Essa relação (imaginação/entendimento) irá se desencadear na reivindicação pela universalidade do gosto, e ela só é possível através da sensação. Por sua vez, o ajuizamento subjetivo do objeto proporciona o prazer do mesmo e, com efeito, fundamenta o prazer. Uma relação objetiva só pode ser pensada; subjetivamente, pode ser sentida no efeito sobre o ânimo. E como a beleza exige referência ao sentimento do sujeito, Kant conclui, no segundo momento, que o “belo é aquilo que, sem conceito, apraz universalmente.” 113
O fundamento do juízo de gosto é a finalidade. O fim é o objeto de um conceito, e a causalidade deste conceito é a finalidade. É impossível estabelecer a priori a ligação do sentimento de prazer e desprazer de qualquer representação com sua causa. O prazer tem causalidade em si para conservar o estado da representação e o exercício dos poderes do conhecimento. O belo exerce algo sobre nós de modo que o contemplemos lentamente porque, concomitantemente, fortalece e reproduz a si mesmo. Diante disso, permanecemos passivos em relação ao belo.
A mistura de atrativo e emoção é o critério para a aprovação dos gostos.
Mas quando o juízo do gosto não tem nenhuma dependência ou influência dessa mistura, chama-se juízo de gosto puro. O juízo de gosto só pode ser puro quando não se envolve com satisfações empíricas em seu fundamento de determinação.
Juízos estéticos, no ponto de vista de Kant, podem ser empíricos ou puros. Os empíricos (juízos de sentidos), que são materiais, assentam o agrado ou o desagrado. Já os puros (juízos de gosto), formais, contemplam a beleza de um objeto. O atrativo é necessário à beleza e suficiente por si só para ser denominado belo. O problema é que os atrativos afetam prejudicialmente o juízo de gosto quando postos como fundamento de julgamento da beleza. As sensações só são belas quando puras, pois as suas determinações dizem respeito à forma, e esta é responsável por constituir o objeto de juízo de gosto puro. Ora, a sensação de cor, por exemplo, não pode ser digna de contemplação
113 KANT, I. Crítica do juízo, in Os Pensadores – Kant (II), Trad.: Rubens Rodrigues Torres Filho, Ed. Abril Cultural, p. 221.
e nem considerada bela, pois o que determina isso é a forma relacionada a ela, e, além disso, as cores pertencem ao atrativo. As cores e os sons contribuem para despertar e conservar a atenção pela representação do objeto. Por isso, como vimos acima, os ornamentos (molduras) e enfeites causam dano à beleza genuína, pois caem no âmbito do atrativo, pois remetem à percepção. A forma tem como significado a reflexão de um objeto singular na imaginação, ou seja, ela é o que a imaginação reflete de um objeto em oposição ao elemento material sensitivo que este objeto provoca enquanto está aí e age sobre nós.
Kant afirma que a emoção não pertence à beleza, pois ela está vinculada ao sublime. Por conseguinte, o juízo de gosto puro não tem nem atrativo nem emoção, e a conseqüência é que nenhuma sensação irá fundamentar e determinar este juízo. O belo tem por julgamento uma finalidade formal que independe da representação do bem, pois enquanto belo, não tem fim utilitário (que seja externo a ele), mas tem o fim em si mesmo (interno); ao contrário de um fim objetivo de algo que exige o conceito deste. A concordância do conceito com o diverso é o que Kant chama de perfeição qualitativa. O belo não possui conceitos para que possa ser representado. O sujeito que julga age como se a beleza estivesse intrínseca e inseparável do objeto. Ora, é por isso que irá requerer aos demais sujeitos a concordância de seu ajuizamento do gosto.