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2. REVISÃO DE LITERATURA

2.3 REFLEXÕES LINGUÍSTICAS, ONTOLÓGICAS, EPISTEMOLÓGICAS E

2.3.1 O ser humano e sua capacidade de simbolizar

O ser humano, livre, capaz de reflexão crítica, transformação da natureza, de construir uma realidade interna diferente da realidade externa é frequentemente acometido por questões filosóficas e existenciais. Conhecer a si mesmo é o ponto de partida da filosofia socrática e gera um questionamento ontológico que também pode ser traduzido pela polêmica questão: “O que nos diferencia dos outros?” (DUARTE, 2005; CASTRO, 2014).

A significação do mundo para os seres humanos está intimamente relacionada aos fenômenos simbólicos. Esses fenômenos são próprios da linguagem de ordem ternária (EU, TU, ELE). A linguagem ternária é aquela que permite o aparecimento do símbolo e essa capacidade (de simbolizar) parece estar restrita aos seres humanos e é, talvez a principal característica que nos diferencia dos outros animais. Linguagens de ordem binária, como a dos animais, ou de ordem unária, como a do inconsciente, não permitem a simbolização (LONGO, 2011).

Para Hidegger a compreensão da linguagem parte de uma preocupação ontológica na qual se busca desconstruir na noção de sujeito, colocando-se a ideia de que o ser habita um mundo ocupado pela linguagem e se manifesta enquanto inter-sujeito, ontologicamente um ser-no-mundo, um ser-com-os outros. Falar é a tentativa de dar sentido comum a algo e a linguagem se manifesta enquanto discurso intersubjetivo:

“Linguagem é comunicação, mas é uma comunicação que já estava ali; é alguma coisa que usamos para explicitar nossa fala. Falar é uma troca que contém sempre mais do que aquilo que é representado pela verbalização explícita da linguagem. (...) O ponto é que o leitor de um diálogo bem escrito, por exemplo, não apenas lê as palavras. Ele contribui com a sua própria ‘fala’, enquanto está lendo. Isso significa que ele não é um mero espectador das palavras que estão na página que lê, mas um ser humano, para quem as palavras ali presentes motivam uma resposta existencial, provocada pelo diálogo”. (GELVEN, 1989), traduzido e citado por (CASTRO, 2014)

Dessa maneira, a linguagem enquanto manifestação ontológica nega a presença de um subjetivismo que ao se comunicar gera a interconexão ou troca de experiência entre diferentes subjetividades, mas significa de algum modo a coexistência dessas subjetividades projetando-se de si para o mundo. O ser é, portanto, um ser-com-os outros, segundo a compreensão hideggeriana. Nesse sentido, comunicar é uma ação que, apesar de a priori parecer banal, define a própria vida. Trata-se do elemento essencial da convivência, que vai além do compartilhamento de informações e ideias, mas fundamentalmente define o indivíduo enquanto ser da intersubjetividade (CASTRO, 2014).

O mundo é incialmente estranho ao homem e aos seus aparatos sensoriais. Para que possa fazer sentido, ele utiliza o recurso da linguagem, a qual expressa a significação desse mundo dentro de um universo simbólico materializado e objetivado na palavra (Figura 6).

(Possível significado) ____________________________

MUNDO (Significante de língua portuguesa) Figura 6. Ilustração sobre a natureza do signo linguístico. Fonte: O autor.

O ser humano se localiza, se concebe e se comunica através da linguagem. Tudo aquilo que percebe, pensa, sente e diz, está representado através dela. O homem se aproxima da realidade estranha através da linguagem em sua dimensão simbólica. É importante estar atento ao fato de que significar não quer dizer conhecer. O conhecimento é um processo lento e progressivo em que são identificados aspectos do significado (LONGO, 2011).

A língua é o aparato no qual se ancoram elementos culturais de ordem social (da qual trata a sociolinguística) e individual (da qual trata a psicanálise). Além de ser o instrumento da comunicação humana, ela representa uma forma de ver, classificar e nomear as coisas. Reflete o campo de significações individual e social. Tomemos como exemplo diferentes significações de uma mesma palavra em diferentes idiomas.

Azul = Felicidade (Campo da significação do Português) Azul = Tristeza (Campo de significação do Inglês)

Na língua portuguesa, posso dizer, por exemplo que “hoje está tudo azul” e isso deverá ser entendido como algo bom, ou seja, “hoje está tudo dando certo segundo meu julgamento e me sinto feliz”. No caso do inglês, o azul normalmente tem um significado contrário ao do português, tanto que azul muitas vezes é sinônimo de tristeza, como na frase “I´m feeling blue” (estou me sentindo triste) consagrado pelo gênero musical “Blues”, desenvolvido por negros americanos escravos na década de 40 que tinham na origem criativa a intenção de expressar a situação melancólica vivenciada nas intermináveis horas de trabalho (LONGO, 2011).

Os animais, erroneamente chamados irracionais, são portadores de mecanismos e habilidades comunicacionais muito eficientes. Esses mecanismos estão diretamente relacionados à capacidade de adaptação e sobrevivência ao meio ambiente. Os animais também possuem inteligência, afetuosidade, raciocínio e capacidade de decisão. O Homo sapiens é apenas uma dentre as tantas espécies que desenvolve suas atividades de maneira social e depende dessa relação para sua sobrevivência. Porém, diferentemente dos demais animais, uma característica da linguagem humana faz com que essa espécie tenha desenvolvido uma capacidade criativa sem limites, capaz de transformar a realidade social e

ambiental, construindo e destruindo, aperfeiçoando e evoluindo, numa dinâmica dialética e histórica.

A linguagem humana é simbólica. Simbolizar significa representar algo que está ausente. Ou seja, o símbolo representa uma coisa, mas não é exatamente a coisa. Essa capacidade incrível, nasce, de maneira contraditória, de uma falha, uma falta, a qual é preenchida pelo símbolo, mas nunca está completa. O homem se constrói sobre o aparato da linguagem simbólica. Diferentemente de outros seres sociais, como abelhas ou formigas ou qualquer outro ser que possua a faculdade bem desenvolvida da comunicação, o ser humano é capaz de se construir através da sua capacidade de simbolizar, impossível aos outros animais (LONGO, 2011).

Formigas, respondem de maneira binaria a estímulos químicos, através dos quais se reconhecem e reconhecem suas companheiras. O reconhecimento desses elementos faz com que elas tomem um ou outro tipo de atitude (linguagem binária). Certamente os animais são capazes de pensar, sentir afeto, lembrar eventos, mas os animais não são capazes de se construírem como indivíduos, apenas seguem o curso desenhado em seu código genético, seus instintos primitivos. (LONGO, 2011).

No caso do ser humano, a linguagem é ternária, o símbolo gera um logro estrutural que nunca é preciso. Segundo Lacan, nunca há univocidade de símbolo. Afinal, esse vazio que o símbolo repõe, é a propulsão da evolução humana, no sentido existencial. Enquanto pássaros vivem reagindo de maneira semelhante aos estímulos do meio, o homem dá significados para esses estímulos, ele se modifica e aprimora no decorrer de sua vida, gerando diferentes reações aos estímulos, aos desafios, aos questionamentos com os quais se depara.

O humano se constrói e se define. Ele transforma a natureza e a si próprio. Sua comunicação é múltipla e sua linguagem incompleta, opaca, cheia de ambiguidades e flutuações de sentido. Essas características geram as incertezas e os dramas próprios da espécie humana. É essa especificidade linguística, a falta, a incompletude que exige um substituto representacional, a raiz da criatividade e da insatisfação humana. É a busca por fazer sentido e por um aprimoramento do

sentido, o qual é relativo, mutável e complexo. O sentido está encerrado no signo, o qual é a principal força motriz da evolução humana (LONGO, 2011).

Voltando ao exemplo da formiga, sabemos que ela nunca irá se perguntar sobre o que o hidrocarboneto identificado na outra formiga de seu formigueiro “significa”. Ela apenas desempenhará uma ação relacionada a esse elemento, porque há apenas uma resposta para cada sinal (sistema binário). Já o ser humano sempre terá uma diversidade de significações para cada significante do seu arsenal linguístico. Por exemplo, para a formiga, um componente significa “fuga”, outro, “cópula”, outro, “território”, não havendo qualquer tipo de ambiguidade. Entretanto, se eu digo a palavra (significante) “medicamento”, por exemplo, cada indivíduo entenderá medicamento de maneira diferente, considerando suas experiências vividas, seu meio cultural, sua relação afetiva com relação ao que se conceitua como medicamento. Ou seja, o significante (imagem visual ou acústica) poderá ter diferentes significados (representação mental) (LONGO, 2011).

Diz-se que o símbolo nunca é preciso em relação à realidade, está sempre se transformando num processo dinâmico e recíproco. A linguagem traduz e produz significação para a realidade sem haver, contudo, unanimidade simbólica entre os indivíduos. A linguagem não é capaz de gerar certezas. Ao mesmo tempo a fala e o pensamento estão encerrados na linguagem.

Entre dois seres humanos existe um aparato, uma barreira que os isola. A linguagem é uma ponte entre o eu e o não eu. Tudo o que concebemos é aquilo que pode ser expresso através da palavra. O indivíduo expressa no seu discurso as pinceladas da cultura em que está inserido (LONGO, 2011). As relações sociais humanas se desenvolvem de maneira complexa e dinâmica e todas as mensagens trocadas entre os indivíduos são sempre resultado de significações ambíguas e aproximadas da realidade.

O pensamento é caótico e desorganizado. A língua obriga o pensamento a se organizar para que possa se expressar através da comunicação e assim ser compreendido (LONGO, 2011).

A realidade é anterior à linguagem e se apresenta como algo estranho e absurdo aos indivíduos, os quais, por sua vez, utilizam a linguagem para simbolizar as significações da natureza e a tornar, assim, mais inteligível, aproximando o ser

humano do sentido da realidade. O homem, ser da linguagem, busca encontrar um sentido ainda que aproximado às coisas e a si próprio. Essa busca o impulsiona a criação de um sistema simbólico que possa ser a base para o processo de significação e apreensão da natureza. Por isso a linguagem (e o discurso) é o principal aparato epistemológico que permite ao indivíduo se localizar e identificar a realidade em torno de si. (LONGO, 2011)

A linguagem dá sentido ao mundo, define indivíduo (intersubjetivo) e constrói a realidade social. A capacidade de compartilhar com seus semelhantes o conhecimento e as experiências é um fator para o desenvolvimento histórico da humanidade.