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CAPÍTULO 3 – SERVIÇO SOCIAL NA PREVIDÊNCIA SOCIAL

3.2 O Serviço Social no contexto da Seguridade Social

A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 é implantado no Brasil um sistema de seguridade social composto por três políticas básicas: Previdência Social, Assistência Social e Saúde e cada uma apresentando característica própria com relação ao princípio de cobertura. A Saúde apresenta cobertura universal independente de contribuição; a Assistência Social apesar de ser não contributiva apresenta cobertura restrita aos que comprovadamente dela necessitarem; e a Previdência Social é uma política contributiva que assegura cobertura apenas para os seus contribuintes ou dependentes destes.

De acordo com Behring e Boschetti, entre outras, a Previdência Social no Brasil obedece a lógica de seguro social criado na Alemanha no final do século XIX durante o governo de Bismarck e que se opõem ao modelo de seguro social apontado por Beveridge na Inglaterra.

O modelo bismarckiano é identificado como sistema de seguros sociais, pois suas características assemelham-se à de seguros privados. Em relação aos direitos, os benefícios cobrem principalmente (e as vezes exclusivamente) os trabalhadores contribuintes e suas famílias; o acesso é condicionado a uma contribuição efetuada. Quanto ao financiamento, os recursos provêm fundamentalmente das contribuições diretas de empregados e empregadores, baseados na folha de salários. (BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p. 66).

Essas autoras apontam que o modelo beveridgiano visava combater a pobreza com base em direitos sociais universais e seu financiamento era por meio de tributos geridos pelo Estado, pois que ―nesse sistema de proteção social, os direitos são universais, destinados a todos os cidadãos incondicionalmente ou submetidos a condições de recursos (testes de meios) [...]‖ (BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p. 97 - supressão nossa).

O Serviço Social Previdenciário é influenciado pelo conceito de seguridade social previsto na Lei 8.212/9119 que, em seu parágrafo único do artigo 1º, prevê princípios e diretrizes como universalidade e equidade, que são preceitos do novo pensamento que está se desenvolvendo no seio do Serviço Social após a incorporação de novas teorias de base marxista.

Segundo autores como Iamamoto e Carvalho (1998), o novo projeto profissional e sua direção sociopolítica têm sua influência decisiva nas lutas e movimentos sociais em uma perspectiva classista em que o trabalho profissional vai perfilando uma nova configuração no interior da contradição capital-trabalho dentro de um contexto de minimização da atuação do Estado.

O novo projeto profissional se desenvolve num contexto de retração do Estado diante das iniciativas neoliberais de contrarreforma do Estado e da Previdência Social frente as correlações de forças das classes sociais que compõem a sociedade.

Após a promulgação da Lei nº 8.213/9120, foi desencadeado um processo de discussão interna pela categoria profissional, em relação à prática do assistente social mediante a conjuntura do país e do INSS, resultando na elaboração do ―Novo Modelo Conceitual do Serviço Social‖, em 1991, que estabeleceu a competência do Serviço Social na Previdência no campo do ―esclarecimento dos direitos sociais e meios de exercê-los.‖

Art. 88 - Compete ao Serviço Social esclarecer junto aos beneficiários seus direitos sociais e os meios de exercê-los e estabelecer conjuntamente com eles o processo de solução dos problemas que emergirem da sua relação com a Previdência Social, tanto no âmbito interno da instituição como na dinâmica da sociedade. (BRASIL, 1988, n. p.).

Diante da competência mencionada no artigo acima, o Serviço Social na Previdência tem sua prática institucional voltada para assegurar aos usuários os seus direitos sociais, o que reflete uma nova perspectiva de atuação profissional que considerava os aspectos sócio-

19 Lei que organiza a seguridade social, institui Plano de Custeio, e dá outras providências. 20 Lei que dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências.

históricos na sua relação com o usuário e possibilitava maior acesso aos benefícios e serviços previdenciários.

Vivenciava-se o governo de Fernando Collor de Melo que passa a introduzir no país os ideais neoliberais e propõe a reforma do Estado nos moldes dos organismos estrangeiros (FMI, Banco Mundial) baseada na diminuição dos gastos públicos, principalmente com os servidores públicos, redução dos direitos sociais e trabalhistas, dentre outros.

Nesse conjunto de proposições que compõem o modelo neoliberal encontra-se ainda a ideia de que com a privatização e a redução do tamanho do Estado, de modo geral, se estaria reduzindo o gasto público, com o que se eliminaria do déficit público, dos grandes causadores de quase todos os ―males‖, sobretudo o da inflação. Nesse particular presenciamos no Brasil um festival de medidas, como a demissão de funcionários, venda de automóveis e mansões, entre outras do mesmo teor, que foram denominadas de Reforma Administrativa. Evidentemente essas medidas, ao lado de outras de consequências mais graves, como a violenta redução do gasto social, não resultaram nem na eliminação do déficit público e muito menos a redução da inflação. (SOARES, 2002, p. 40-41).

Cabe destacar que o governo Collor não durou todo o seu mandato tendo sofrido um impeachment devido a fragilidade de sua governabilidade frente as elites do país e a organização de várias categorias profissionais que se mobilizaram nacionalmente e naquele momento conseguiram barrar as reformas administrativas e previdenciárias que estavam sendo propostas. Nesse cenário assume seu vice Itamar Franco que passa a dar andamento nas discussões dessas reformas.

No entanto, é a partir de meados dos anos 90, após o lançamento do Plano Real e com a eleição de Fernando Henrique Cardoso para presidente, que os contornos neoliberais do processo do ―ajuste brasileiro‖ tornam-se mais nítidos, bem como as suas consequências econômicas e, sobretudo, sociais.‖ (SOARES, 2002, p. 38-39).

É importante ressaltar que apesar da ruptura pública com os velhos paradigmas do Serviço Social, como apontam Iamamoto e Carvalho (1998), terem acontecido na profissão a nível nacional a partir do III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais de 1979, somente na década de 1990 é que o Serviço Social na previdência consolida sua maturidade teórico- profissional. Esta se materializa com a construção da Matriz Teórico-Metodológica do Serviço Social de 1994 que apresenta um novo paradigma para a área da previdência e reestrutura seu fazer profissional.

Com a instituição oficial, em 1994, da Matriz Teórico-Metodológica do Serviço Social na Previdência Social, fundamentada em suas bases ético - legais pelo Código de Ética

Profissional e Lei de Regulamentação da Profissão, a prática do Serviço Social na Previdência ganhou nova dimensão qualitativa.

A nova Matriz expressa um posicionamento profissional pautado nos princípios do direito e do exercício da cidadania cuja dimensão política posiciona-se a favor da equidade e justiça social, na perspectiva da universalização do acesso aos bens e serviços sociais , que se encontravam presentes nas diretrizes sobre a seguridade social.

A Matriz trouxe uma concepção de previdência social como direito ao afirmar que

a ação prioritária do Serviço Social, a partir de 1994, se voltou para assegurar o direito, quer pelo acesso aos benefícios e serviços previdenciários, quer pela contribuição para a formação de uma consciência cidadã de proteção social ao trabalho, que leve os usuários a participar da implementação da política previdenciária. (SILVA, 1999, p. 19).

No período de instituição oficial da Matriz, em 1994, existia no cenário político do país a discussão sobre o papel do Estado, que era debatida em duas principais teses: uma que defendia a redução do tamanho do Estado, negando a Previdência Pública como direito social que estava expresso na Constituição Federal de 1988, defendendo a reforma da Previdência com base no discurso da inviabilidade econômico-financeira. A outra tese que defendia a visão democrática do Estado enquanto garantidor dos direitos civis, políticos e sociais da população, entre eles, a Previdência Social Pública.

Com a preocupação de identificar as ações do Serviço Social com as demandas propriamente previdenciárias, no sentido de mostrar a importância e necessidade do serviço à Previdência Social, foram elaborados Planos de Ação pela Divisão de Serviço Social - Direção Geral, em 1996, visando reforçar a Previdência como um direito social, fortalecer a prática do Serviço Social identificando as principais demandas sócio-institucionais, estabelecendo prioridades para o atendimento da respectiva demanda, mediante planejamento e estruturação de projetos.

Silva (1999) informa que a competência do Serviço Social foi concretizada por meio de ações profissionais coordenadas pela Divisão de Serviço Social (DSS) extinta, em junho de 1999, pelo Decreto nº. 3.081 (BRASIL, 1999).