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O sexto sentido: A necessidade de se reinterpretar a morte.

A INEFABILIDADE DOS CONCEITOS-IMAGEM EM SHYAMALAN

4.1. A morte e a busca de sentido.

4.1.1. O sexto sentido: A necessidade de se reinterpretar a morte.

O Sexto sentido é o único filme de Shyamalan que já foi anteriormente analisado em seu potencial logopático. Em De Hitchcock a Greenaway, Cabrera desenvolveu os conceitos imagem do filme, baseado na idéia de morte em Heidegger e Sartre.

Para Cabrera, o filme formula um pensamento diferenciado sobre a morte se seu significado. Ele identifica o mérito logopático do filme no fato de que o espectador podia não

83 desconfiar, mas na realidade já sabia que o protagonista do filme estava morto. A virada de sentido no final da história – que fez do filme uma obra prima e que jogou Shyamalan para o Pathernon de Hollywood – significa para Cabrera a visão de que a morte não deve ser necessariamente vista como interrupção.

Em principio, no cinema existe e está vivo tudo aquilo que aparece. Não temos meios de distinguir o que está vivo daquilo que está morto, o existente do não existente, simplesmente vendo aquilo que está diante de nós na tela [...] A seqüência das imagens propõe a vida como um dogma, é a própria negação da morte pela imagem. O fato que o vemos, mantém vivo o doutor Crowe para nós, ainda que com fortes evidências contrárias [...]. (CABRERA, 2007, p. 113)

Shyamalan, em seu filme reinterpreta a morte enquanto fenômeno. Propõe logopaticamente a morte como solução e não unicamente como causa dos problemas e agonias humanas.

Vemos no início do filme a morte do protagonista, Malcolm Crowe. A morte é, no filme, a constatação narrativa dos erros do personagem. Malcolm morreu pela sua incompetência enquanto psicólogo, foi morto por um de seus antigos pacientes. Depois deste acontecimento, a percepção da realidade pelo personagem muda. Ele se vê como um fracasso, perde sua notoriedade e sua esposa, buscando a todo custo reverter sua condição.

A morte parece, neste sentido, um problema. Perpetua o mal, vai de encontro a ele. O filme nos conduz, apesar disso, em outra direção. Quando Malcolm conhece ao jovem Cole, possibilidade que lhe é dada justamente por estar morto, ele tem a oportunidade de se redimir dos próprios erros. A morte, que até então era a causa de todos os seus problemas, se transforma no meio de poder solucioná-los.

Podemos tirar a mesma conclusão partindo do ponto de vista do outro personagem protagonista do filme, o menino Cole. Cole tem o dom de ver mortos. Ficou imortalizada sua fala:

84 “Eu vejo gente morta... Andando por ai como pessoas normais, eles não sabem que estão mortos. Eu os vejo toda hora. Eles estão em todos os lugares.”

Este dom é, na perspectiva de Cole, uma maldição. Brincando com bonecos de plástico, ele dá ao herói com o qual se identifica uma fala em latim:

“Das profundezas eu clamo a ti, ó Senhor”.

Ele é um personagem que busca ajuda. A morte para ele, também é um problema. O filme se transforma num thriller de terror, justamente por esta perspectiva que Cole assume dos fantasmas que o circundam. O espectador é conduzido logopaticamente a dialogar com o medo.

Por exemplo, numa das cenas mais assustadoras do filme, Shyamalan mostra a mãe de Cole fechar as portas abertas do armário da cozinha. Cole se senta à mesa. A mãe vai pegar outra gravata para o filho na lavanderia. Ao retornar à cozinha, dez segundos depois, a mãe se depara com todos os armários abertos. Utilizando o recurso do plano-sequência, que permite a manipulação do ponto de vista, mas impede a manipulação do tempo, Shyamalan conduziu o espectador, a saber, da impossibilidade de Cole ter aberto todos os armários, pois tal fato seria impossível de ser realizado em dez segundos e em silêncio. O medo do desconhecido eclode como justificativa logopática para o estatuto da morte enquanto problema para o personagem. A platéia é conduzida a perceber o mundo colo Cole percebe.

A solução que Cole precisa não é parar de ver mortos, mas parar de ter medo. O medo é o centro de seus problemas. O que Malcolm deve buscar não é que Cole fuja de sua realidade ou a transforme, mas que a reinterprete de forma que deixe de ser problemática, que deixe de gerar medo. O medo é a patologia insuportável, o fator que deve ser alterado na aproximação de Cole com seu mundo.

O que observamos durante o filme é justamente a superação do medo de Cole. O Dr. Malcolm o levou a reinterpretar seu mundo. A partir do momento que Cole, motivado por

85 Malcolm, resolve o caso da menina Kyra, assassinada pela própria mãe, ele passa a reverter sua patologia. Entende que, ao solucionar os problemas dos fantasmas eles deixaram de ser um problema para ele. Malcolm o conduz à transformação do seu problema em benção. O medo começa a dar local à esperança quando o menino descobre no seu dom uma resolução, um sentido.

O mesmo ocorreu na direção inversa. Malcolm também precisava reinterpretar seu mundo, a falta de percepção de sua morte e as conseqüências dela o estavam levando à depressão. A falta de resolução no caso do garoto que o matou e a projeção deste caso no caso de Cole, significavam para Malcolm a tentativa desesperada de reverter o passado, de retomar aquilo que havia perdido. Malcolm percebe, contudo, no final da história, que não há como mudar o passado, o que ele deve é aceitar e seguir em frente. O resultado positivo do caso de Cole o redime, mas não altera o fato de ele estar morto. Cole o ajudou a encontrar-se consigo mesmo, a tornar sua realidade uma realidade suportável, possível.

Desta forma, a morte é reinterpretada pelo filme. Os personagens que antes a tinham como problema, são levados, através da história, a tê-la como solução. Shyamalan nos leva à constatação do fato de que a forma como nos aproximamos da morte, nossa interpretação dela, pode nos remeter tanto ao medo, quando à completude, sendo que o que diferencia os dois extremos é o sentido que encontramos nela. Sem a visão de propósito a morte só pode ser tida como maldição. As religiões fazem justamente isso. Tornam a morte suportável, pois vinculam a ela um sentido escatológico, uma necessidade e interpretação cósmica. Quando o ser humano encontra reinterpreta a morte através do descobrimento de sentido, ela pode se transformar para ele de maldição em benção.