6.2 A REPRESENTAÇÃO E SUA LEGITIMIDADE
6.2.2 O significado de representar e ser representado
Do ponto de vista de gestão, a participação por representação vem adquirindo um papel fundamental na interface entre os interesses das organizações e dos sujeitos trabalhadores. Desta forma, é importante discutir e refletir sobre o que motivou a decisão de algumas pessoas em participar desses espaços formais.
Os sujeitos trabalhadores representantes do nível médio relatam ter encontrado motivação na importância de abertura desse espaço para a categoria poder participar, discutindo assuntos próprios do nível profissional, possibilitando, assim, abrir um diálogo mais aberto, franco, por não serem enfermeiros. Para o nível superior a motivação está ligada ao fato de
acreditarem na construção conjunta, poder desenvolver as questões éticas profissionais e, também nas possibilidades de mudar a realidade vivenciada.
[...] motivou foi deixar a clínica melhor, do jeito que a gente queria e não passar pelos problemas que a gente passou; tentar fazer uma coisa mais democrática, mais participativa. Então o primeiro motivo foi a possibilidade de poder mudar. O segundo foi a chance de ser chefia, porque é uma chance única e não se pode perder, pois ainda sou nova e essa chance foi um passo na escada para depois eu prosseguir – fazer um mestrado, doutorado (Luz, NS).
O motivo é gostar da participação na enfermagem, eu sempre fui ligado. É eu poder ocupar os espaços que abrem para eu representar a minha categoria. Eu gosto desse negócio de representar, para poder estar ajudando. Se eu puder, eu participo de todas as comissões (Avai, NM).
É uma conquista muito grande ter alguém do nível médio, é muito recente essa participação. É importante porque posso ir as reuniões e colocar críticas, sugestões. Também é importante porque sendo da mesma categoria eu tenho mais acesso as informações, chego mais próximo deles. Eu me sinto representante sim, porque quando tem alguém do nível médio junto com as pessoas que acham que tem poder, as coisas se abrem, o acesso se abre, porque não fica aquela coisa assim – ah, não são somente “elas”, todo mundo tem o direito de falar, de opinar (Pupi, NM).
Frente aos depoimentos, é importante a reflexão sobre a palavra “abre espaço” tão fortemente colocado pelo nível médio, como sendo a movedora da motivação. Teoricamente, emerge a questão já citada anteriormente, de que a participação abriga uma outra questão que é a da dominação. Esse fenômeno de dominação traz conseqüências diretamente ligadas à desigualdade social, que é historicamente estrutural, sendo assim, não podemos simplesmente eliminá-la, por que ela faz parte da história humana, mas pode-se modificar o seu conteúdo e assim superá-la. Então, a importância dessa abertura para o nível médio poder participar das comissões, está na possibilidade de superar a condição de dominação imposta pela divisão do trabalho, buscando-se ocupar estes espaços, na tentativa de construir relações mais igualitárias. Porém, é necessário lembrar que a forma como foram organizados os espaços e, segundo o que se observou nas falas, essa “abertura” ainda é muito restrita, pois se pode perceber que os mesmos ainda sentem a participação somente sob a perspectiva de ajuda e colaboração.
Para alguns trabalhadores de nível superior, a motivação está ligada com a identificação pessoal com o tema de cada espaço (ética, educação e
gerência), com as características pessoais e habilidades que acreditam ter para lidar com a função requerida em cada comissão e por acreditarem poder contribuir com mudanças necessárias para o crescimento pessoal e profissional da enfermagem. Sob esse ponto de vista, compreende-se que a motivação está na auto-realização plena de suas potencialidades.
Contudo, conclui-se que a motivação do nível médio está em satisfazer uma deficiência básica que é ter reconhecido seu saber, isto implica satisfazer a necessidades de defesa e preservação do eu, de mutualidade e compartilha, englobando as necessidades sociais e de estima, cuja satisfação está na interação com outras pessoas. No entanto, o nível superior motiva-se pela necessidade de crescimento, desenvolvimento, tais como: tendências à criatividade, capacidades e talentos especiais, potencialidades (MOSCOVICI, 2003).
Os sujeitos trabalhadores do nível superior enfatizam, também, que os sofrimentos vivenciados oportunizam crescimento e ampliam a consciência sobre a realidade, fazendo com que busquem novas formas de trabalho, procurando superar a administração cientifica, entretanto, consideram o processo de mudança lento. Compete aqui refletir que todo processo de participação carece de um aprendizado e que esse processo é vagaroso, sendo que, muitas vezes, os impulsos para desenvolver partes de processos de participação ocorrem para contrapor ao tradicional uso do poder baseado na autoridade individual de chefes e dirigentes, sem haver uma discussão sobre o processo de mudança. Porém, eles se tornam mais vagarosos quando não há um envolvimento pleno dos trabalhadores na sua construção.
Salienta-se que, entre os sujeitos trabalhadores pesquisados, 12 já exerceram de alguma forma o papel de representante, sendo que 04 nunca exerceram. Em relação ao significado de ser representante não houve diferenciação nas concepções entre quem exerce a função de representante e quem é representado. Ambos entendem que o papel é vocalizar em nome das demais pessoas a quem estão representando, é defender a vontade da maioria enfrentando os obstáculos, é fazer o feedbek com a categoria representada, é ser ético.
É levar o que eles pensam independente de tua vontade, é tu dar voz aos ausentes (Sol, NM).
É tu ter compromisso, seriedade e ética com as pessoas que você está representando. Tens que dar respaldo e principalmente retorno. (Avai, NM).
É representar mesmo, é levar adiante as necessidades de toda a equipe, é ser porta voz, é vocalizar em nome da equipe (Beija-flor, NS). É ter capacidade de intervenção, é ter compromisso ético e defender os valores e princípios da categoria (Joaninha, NS).
É fazer aquilo que a categoria necessita (Pupi,NM).
Acompanhando essa visão, pode-se entender que representar é assegurar a adequada participação de todos os trabalhadores nas decisões tomadas pelas instâncias formais. Apesar desse entendimento sobre o sentido de ser representante, ambos os lados não conseguem desempenhar na prática o papel que descrevem teoricamente, visto que nas falas a maioria não se sente representado. Esta deficiência na representação diz respeito à falta de retorno e, também, a falta de contato com os representados. Porém, alguns representantes relatam o quanto é difícil exercer esse papel e não evidenciam respeito por parte dos representados.
Na questão assistencial eu me sinto representada, pois minha chefia ta ali junto, ta presente, também me sinto representada pela chefia de Divisão e pela DE, porém não me sinto representada pela CEPEn, só pela comissão de ética. Acredito que a chefia imediata tem que ser representante do setor não da direção e a maioria é assim (Esperança, NS).
Eu não percebo a atuação dos representantes. Não me sinto representada por todos não, porque nós não temos conhecimento, talvez se nós tivéssemos a gente sentisse mais segurança e saberia que estamos sendo representados. Nós não temos retorno (Marina, NM).
Eu me sinto representada. A minha chefia é o máximo, a chefia da DEC sempre batalhou pela gente, temos certeza que sempre vamos poder contar. Pela Diretora eu me sinto também representada e muito bem respaldada. Também não sei se tenho acesso livre a essas pessoas de receber informações, de me colocar (Fofa, NS).
Acho que os nossos representantes das comissões não trazem retorno. Não vejo minha chefia como representante, essa teria que ter um retorno direto e não tem (Bolinha, NM).
Observa-se que na enfermagem do HU, existe uma dualidade no discurso e na prática. Os trabalhadores participam da gestão democrática, na questão de terem o direito de eleger e serem eleitos para os cargos formais, porém ainda
não conseguiram superar as barreiras que impedem a entrada de novos atores na competição eleitoral. Por conseqüência, ainda que se avançasse em relação ao funcionamento eleitoral e tivéssemos benefícios em termos institucionais, persistem as sérias deficiências em relação ao controle que os trabalhadores poderiam exercer sobre a ação dos representantes e dirigentes. Mas, esse não é o retrato observado nas entrevistas, pois os representantes não repassam informações aos seus pares, não procuram conhecer os trabalhadores e as suas necessidades e quando procuram, o fazem com as pessoas que conhecem, esquecendo que representam toda uma categoria e não alguns, fazendo uma representação isolada.
Para alguns entrevistados, os representantes reproduzem o papel de seus chefes e lideram de cima para baixo, contrapondo a auto-definição de representação elaborada por eles, em que deveriam agir pelo grupo de trabalhadores, se relacionando com os demais membros das comissões e mobilizando-se com os representados a fim de despertar nos mesmos interesse por algum problema que atinja diretamente os trabalhadores de sua categoria. Assim, o representante estaria conhecendo a realidade de seu nível profissional, bem como, conhecendo o próprio grupo e este a si mesmo, suas percepções, seus valores e crenças, seus temores e aspirações.
Contudo, pode-se afirmar que sem comunicação e informação não pode existir participação e isto é válido tanto para representantes quanto para representados. O representante para intervir na tomada de decisão necessita de informação a respeito da instituição, da sua Diretoria e das comissões em está atuando, justamente porque não teve oportunidade de participação desde o inicio, porém, se ele recebe estas não as repassa aos seus pares. Há necessidade de uma relação dinâmica e que exige confiança entre representante e representado. Essa relação se dá por meio do diálogo, do ouvir cuidadosamente, do consultar constantemente, pois se assim não for, a base também não será atuante, daí o problema do representante quando critica a base por falta de apoio, de reconhecimento pelo seu trabalho ou que precisa fazer tudo sozinho. Mas, não pode-se esquecer também que, as reclamações podem ser apenas disfarces para ocultar o não desejo de dividir o poder coletivamente.
comunicam, escolhem seus pares sem ao menos os conhecer, não reivindicam discussão de propostas de trabalho, ficando numa posição passiva. O trabalhador não interpreta as comissões como uma coisa sua, que depende da sua participação, por esse motivo não consegue ver o representante como um delegado seu, mas sim o vê como um tutor. Sendo assim, a forma como se tem entendido esses espaços participativos aqui, é uma maneira de se tecer na história a possibilidade de amadurecer, no ritmo da profundidade histórica, das bases participativas (DEMO, 2001).
Ainda em relação a ser representado ou representante, observa-se nas falas que há sujeitos que não se consideram representantes e igualmente não são considerados por uns, mas são por outros.
Eu não me considero representante, [...] eu não passei por um processo eleitoral fui selecionada [...] me vejo como uma pessoa que está trabalhando a educação para todo mundo, me considero responsável pelo conjunto. Assim, me sinto uma pessoa que está acatando as decisões das chefias de divisões que representam todas as unidades subordinadas a elas [...] da CEEn e do representante do nível médio e, tenho a incumbência de viabilizá-las (Borboleta, NS). Eu considero a minha chefia, a DE, a chefia de Divisão e os enfermeiros da CEEn representantes, porque [...] foram eleitas (Joaninha, NS).
“A representatividade se refere à qualidade política dos representantes e são representativos se tiverem sido obtidos por votação geral e livre, dentro de um ambiente democrático” claro (DEMO, 2001, p. 116). Comparando essa análise com as falas, percebe-se que os trabalhadores entendem que a representação somente existe se as pessoas são escolhidas por eleição para representarem grupos, categorias, com o objetivo de divulgar o trabalho realizado e reivindicar seus interesses. Porém, conforme atestado anteriormente, alguns trabalhadores consideram os profissionais que foram simplesmente selecionados como representante.
Concluindo-se, a DE/HU, apresenta em seus espaços participativos formais uma pseudoparticipação administrativa. Apesar de se organizar por representação, a mesma é formada na sua maioria por dirigentes, o que coloca em dúvida a sua representatividade, visto que estes assumem parcialmente o compromisso com os interesses coletivos, devido às facetas da representação, pois representam também os interesses da Instituição e os próprios interesses,
sobrepondo-se à defesa dos interesses comum. Além disso, constatou-se por meio dos diversos olhares dos sujeitos pesquisados, que a fragilidade ou inexistência da relação entre representado e representante, torna a eleição uma simples delegação de poder que transfere ao representante uma espécie de cheque em branco por vários anos. Uma representação, no sentido preciso do termo, só pode funcionar plenamente se houver conteúdos a representar, o que supõe uma presença ativa dos sujeitos trabalhadores que dão o mandato a seus representantes debatendo o seu conteúdo e avaliando seus resultados, podendo modificar seus termos (MENDONÇA, 1987; DEMO, 2001).
Por outro lado, para efeitos organizacionais, os representantes foram criados para fazer da sua voz o reflexo dos desejos dos representados, com responsabilidade e discernimento. Emerge aqui, que nem sempre aquilo que a grande maioria representada almeja é o mais viável e o melhor. O representante deve ser alguém aberto à reflexão, que consiga driblar as numerosas artimanhas políticas da instituição, para ser um porta-voz crítico daquilo que realmente for de relevância para o grupo representado e para o conjunto de trabalhadores. É importante lembrar, que fora da linha hierárquica, para os demais espaços participativos da DE, os representantes não possuem direito a voto. No entanto, a presença dos mesmos nestes espaços é essencial, pois apesar de não terem o poder do voto, tem o direito a voz e tomam conhecimento do que está acontecendo. Porém, é salutar que na posse dos conhecimentos, esses sirvam para organizar os níveis profissionais da enfermagem coletivamente, para construírem uma voz de resistência positiva e de transformação, que ganhará força quando se trabalhar em conjunto.
Por fim, constata-se que os representantes e representados estão no primeiro degrau da escada e que ainda tem uma enorme conquista por fazer, mas pode-se afirmar que a consciência a esse respeito, pelo menos na categoria dos representados, já existe. Porém, alguns dirigentes, por não saberem trabalhar em conjunto, não reconhecem que a gestão participativa é a chave para a cidadania. Pois, ainda a percebem como ameaça ao poder vigente, visto que não vislumbram as possibilidades de mudanças positivas, voltadas para a realização concreta dos objetivos comuns, com isso não investem na mobilização dos trabalhadores e isso termina difundindo-se um sentimento de descrença dos sujeitos trabalhadores. O propósito do diálogo
entre representante e representado é deslocar a discussão do que eu penso para o que nós pensamos e para isso faz-se necessário descobrir novas formas de conversar, decidir e entrar em ação.
6.3 OS CONDICIONANTES DA PARTICIPAÇÃO VIVENCIADOS PELOS TRABA-