3. INJÚRIA VERBAL COMO PRÁTICA DISCRIMINATÓRIA
3.1. Critérios linguísticos empregados no julgamento dos efeitos injuriosos e
3.1.1. O significado e a referência do enunciado
Como afirmam Maria Helena Mira Mateus et al (1983, p. 66), a capacidade de referir, isto é, de fazer corresponder às expressões de um sistema, expressões de um universo exterior a esse sistema, é uma característica de qualquer sistema simbólico. Na definição das autoras:
O sentido e o valor referencial de uma proposição são função do significado dos elementos que a constituem e das condições em que a frase que a exprime foi enunciada. Em particular, o seu valor referencial é função do significado de seus elementos e de um conjunto de parâmetros (ou índices) enunciativos, de que fazem parte o locutor (‘LOC’), o alocutário (‘ALOC’), o tempo, o espaço, o discurso anterior e o universo de referência. (MATEUS et al, 1983, p. 67)
Como não poderia deixar de ser, o significado e a referência são instrumentos de grande valia nos julgamentos de casos de injúria verbal. Um caso bastante relevante para a discussão que se propõe nesta tese é a análise da referência do enunciado para distinguir injúria qualificada e crime de preconceito e discriminação. De acordo com o(a)s juristas brasileiro(a)s, alguns enunciados que usam palavras relacionadas à raça, cor, etnia, religião ou origem são usados para se fazer referência a um indivíduo específico, enquanto outros fazem referência a um grupo racial, étnico ou religioso como um todo. Quando o enunciado ofensivo faz referência ao indivíduo, a ação é considerada como injúria qualificada, mas quando se refere a um grupo como um
53
todo, é considerada crime de preconceito ou discriminação. Os exemplos seguintes são bastante representativos:
(1) Você é um preto de merda
(2) Tinha que ser preto pra fazer uma merda dessas
Em (1) a referência do enunciado é um indivíduo específico. Faz-se uso nesse enunciado de uma expressão de individuação, você, e a essa expressão corresponde um único objeto identificado para o(a) locutor(a) e que ele(a) considera identificável pela sua audiência. Outros exemplos de expressões de individuação são os nomes próprios, os pronomes pessoais (eu, tu, ele(a)) e os demonstrativos (este(a),
esse(a), aquele(a)) (MATEUS et al, 1983, p. 81). Esse tipo de insulto é geralmente
empregado em situações de confronto entre duas pessoas, e quem diz o enunciado teria em mente apenas seu(sua) interlocutor(a) e as características individuais dele(a). Outros exemplos de insultos desse tipo são xingamentos e interpelações injuriosas diretas como “seu negro safado”, “seu macumbeirozinho de merda”, “preto burro, incompetente e sujo” etc.
O enunciado (2) faz referência à raça como um todo, porque tem uma estrutura de pressuposição. Ele pressupõe que toda pessoa negra faz coisas estúpidas e esse pressuposto deve ser aceito como verdadeiro para que o enunciado faça sentido. Outros exemplos de enunciados que fazem referência ao grupo são aqueles com referência genérica, tais como “isso parece serviço de preto”, “preto é preguiçoso”, “preto quando não caga na entrada, caga na saída”. Num enunciado como ‘Os negros são preguiçosos’, uma certa propriedade (“ser preguiçoso”) é atribuída coletivamente a todos os elementos do conjunto negros. De acordo com Mateus et al (1983, p. 95), nesses casos em que os conjuntos são encarados coletivamente, não há referência a cada elemento individualizado. Além disso, a propriedade predicada acerca desse conjunto é uma propriedade que o(a) locutor(a) considera típica do conjunto considerado (MATEUS et al, 1983, p. 96).
No trecho abaixo, Christiano Jorge dos Santos (2004) utiliza esse critério para argumentar sobre a possibilidade de praticar o preconceito por meios verbais:
54
uma caca dessas...”, pratica-se o preconceito, ou seja, diz-se que todos os negros (ou pretos) ou a maioria deles faz coisas erradas (pensamento muitas vezes inconscientemente incutido nas mentes dos brasileiros desde a infância e traduzido na tristemente conhecida frase: “preto quando não caga na entrada, caga na saída”). Daí já ter sido afirmado que “praticar também vem a significar qualquer conduta capaz de exteriorizar o preconceito ou revelar a discriminação, englobando-se, por exemplo, os gestos, sinais, expressões, palavras faladas ou escritas ou atos físicos”38. (SANTOS, 2004, p. 2)
Além dessa situação, em que a referência do enunciado pode ajudar a definir o tipo de crime realizado, o significado e a referência têm outros tipos de usos nos julgamentos dos casos de injúria. Para o sistema judicial, a precisão do significado das palavras usadas na injúria é fundamental, tanto que, se a ofensa é clara, não há necessidade de interpelação criminal (pedido de esclarecimentos). Quando a declaração injuriosa é publicada em periódico, como jornal, por exemplo, antes de apresentar a queixa-crime, a pessoa que se sente ofendida pode pedir esclarecimentos. Segundo o entendimento da jurisprudência, esse pedido de esclarecimentos só é necessário nos casos de ofensas equívocas, isto é, que empregam termos ou expressões ambíguos, como está estabelecido no Código Penal:
O pedido de explicações em juízo acha-se instrumentalmente vinculado à necessidade de esclarecer situações, frases ou expressões, escritas ou verbais, caracterizadas por sua dubiedade, equivocidade ou ambiguidade. Ausentes esses requisitos condicionadores de sua formulação, a interpelação judicial, porque desnecessária, revela-se processualmente inadmissível. Onde não houver dúvida objetiva em torno do conteúdo moralmente ofensivo das afirmações questionadas ou, então, onde inexistir qualquer incerteza a propósito dos destinatários de tais declarações, aí não terá pertinência nem cabimento a interpelação judicial, pois ausentes, em tais hipóteses, os pressupostos necessários à sua utilização. (BRASIL, 1940)
Em 2008, o prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda (PSB) entrou com um pedido de esclarecimentos contra o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB), que o chamou de “preso comum” em entrevista ao jornal O Tempo. A discussão
38
Aqui o autor se refere à obra Crimes de preconceito e de discriminação: análise jurídico-penal da Lei
55
aconteceu durante o período de eleições, quando os dois concorriam à prefeitura de BH. Quintão disse que Lacerda, durante o período da ditadura, não havia sido preso político e, sim preso comum, porque teria assaltado um banco e uma padaria e dado coronhadas durante suas ações. O ministro Celso de Mello, relator do processo, considerou desnecessário o pedido de esclarecimento, porque não havia dúvida quanto ao conteúdo moralmente ofensivo da declaração de Quintão e nem quanto ao destinatário de tal declaração (REVISTA CONSULTOR JURÍDICO, 2008).
Há até mesmo casos em que a significação serve como instrumento para se definir a intenção do agente. Em 2006, a 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Porto Alegre condenou um fiscal da empresa Seltec por crime de injúria racial, a um ano de reclusão em regime aberto, substituída por prestação de serviços à comunidade. O fiscal havia ofendido um vigilante do Centro Vida Humanístico de Porto Alegre, chamando-o de “negrão, nego sujo, guardinha”, ao ser abordado para que se identificasse. O acusado apelou da sentença, mas, segundo relator da Apelação Crime, o desembargador Nereu José Giacomolli, embora o réu tenha negado a autoria, foi demonstrada a utilização de palavras racistas e pejorativas referentes à cor do segurança do estabelecimento (REVISTA CONSULTOR JURÍDICO, 2006). Portanto, quando a referência à raça é inequívoca, a intenção racista se comprova pelo significado das palavras utilizadas, o que significa dizer que o reconhecimento da intenção depende da percepção do significado convencional.
Outro aspecto interessante relacionado à problemática da referência nos julgamentos de casos de injúria é que a pessoa referida no insulto pode ser localizada mesmo que seu nome não seja citado. Num caso ocorrido em 2006, o então deputado federal Clodovil Hernandes e a emissora na qual ele apresentava o programa A Casa é
Sua, a Rede TV, foram condenados a pagar indenização por danos morais para a
promotora de justiça Elaine Taborda de Ávila. Durante o programa, Clodovil teria feito uma série de acusações à promotora e teria dito entre outras coisas, que ela era uma “cobra”, “chefe de quadrilha”, que “ela não sabia nada de meio ambiente” e que “o ambiente dela era outro”. O motivo das ofensas é que a promotora era responsável por uma ação civil por danos ambientais contra o apresentador. O alvo do processo era a casa de Clodovil em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em resposta ao processo, a
56
à promotora. Essa justificativa foi desconsiderada pelo relator do processo, Márcio Teixeira Laranjo:
[...] irrelevante no caso que a autora não tenha sido nominalmente mencionada em nenhuma ocasião, já que perfeitamente identificada na “campanha” promovida pelo réu em seu programa de televisão. Ao se referir o réu continuamente a uma promotora de justiça de Ubatuba que desconhece meio ambiente, não deixa qualquer sombra de dúvida de quem se trate: a promotora de justiça com atribuição nas questões de meio ambiente na Comarca de Ubatuba, ou seja, a autora. (LARANJO apud COSTA, 2006, p. 3)
A descrição definida “uma promotora de justiça de Ubatuba”, nesse caso, seleciona um indivíduo único e determinado, a promotora Elaine, que constitui para o locutor o referente do discurso e que pode, ao mesmo tempo, ser reconhecido pelos seus interlocutores.
Como vimos nesses casos citados, o significado e referência são relevantes para se definir não apenas o tipo de crime realizado (injúria ou discriminação), mas também para se chegar à conclusão se ouve ou não crime, qual a intenção do agente e qual o alvo do insulto. No entanto, isso não pode ser feito sem o auxílio de outros parâmetros enunciativos, como o contexto e a intenção. Vejamos como isso ocorre.