• Nenhum resultado encontrado

2. OUT FOR BLOOD

2.3. As Semioses e os Significados do Discurso

2.3.2. O significado identificacional do discurso

O significado identificacional do discurso se relaciona dialeticamente com o estilo, elemento que também compõe as ordens do discurso. O estilo diz respeito à forma de identificar pessoas, eventos e objetos, bem como de se identificar em um texto. Assim, parte daquilo que somos, ou daquilo que outros dizem que somos, é construído no processo de identificação no discurso. Fairclough (2003, p.160) também chama a atenção para a relação dialética entre as questões identificacionais e representacionais, em que os “discursos são inculcados em identidades”. Essa visão dialética também leva ao entendimento de que, ao se embasarem em representações pressupostas, as pessoas usam esses pressupostos, também, para identificarem a si mesmas – por exemplo: pressupostos de como uma mulher deve ser, como uma vocalista de bandas de metal deveria ser, etc.

Ao detalhar o significado identificacional do discurso, Fairclough (2003) diferencia as identidades sociais das pessoais. As identidades pessoais não podem ser reduzidas às sociais, sendo apenas parcialmente construídas pela linguagem. A partir desta afirmação, o autor nos leva ao conceito de agência, um poder causal que diz respeito à capacidade de as pessoas agirem, criarem, se engajarem no mundo de diferentes maneiras, subverter algumas relações estruturais, e até mesmo a própria identidade social primária, a qual pré-posiciona os sujeitos no mundo. Mas esta relação entre identidades sociais e personalidades sempre será dialética. Como explicam Vieira e Resende (2016, p.70) “atores sociais, neste sentido, não são completamente livres nem completamente constrangidos pela estrutura social”.

Tal como os discursos, os estilos possuem elementos que o caracterizam e permitem o seu reconhecimento no texto, tais como: (i) pronunciação, entonação, ritmo, ênfase; (ii) vocabulário e metáfora, especialmente intensificações adverbiais, xingamentos também são um bom exemplo. De acordo com Fairclough (2003, p.162) “mensagens sobre ambas identidades (pessoais ou sociais) são carregadas por uma seleção variada que as pessoas fazem de palavras deste tipo”.

29 2.3.2.1. Modalidade e avaliação

A modalidade e avaliação constituem-se como dois recursos linguísticos que corroboram para constituição do significado identificacional do discurso. Modalidade e avaliação dizem respeito ao comprometimento dos autores com os conteúdos, seja identificando a si mesmos, construindo identidades de outras pessoas, ou criando representações que vão interferir na tessitura das identidades. “Tanto a modalidade quanto a avaliação serão vistos em termos de como os autores se comprometem a respeito do que é verdadeiro e necessário (modalidade), e a respeito do que é desejável e indesejável, bom ou mau (avaliação) (FAIRCLOUGH, 2003, p. 164).

A relação dialética entre os significados do discurso fica clara na análise da modalidade, pois como afirma Fairclough (2003, p.166), ela está ligada a comprometimento, bem como atitude, julgamento, posicionamentos, logo identificação, mas também está relacionada com ação, relações sociais e representação.

A modalidade poderá ser realizada no texto de várias maneiras. Por exemplo, por meio de declarações, perguntas, demandas ou ofertas. Porém, em cada uma dessas ações haverá graus de comprometimento diferentes, relacionadas a tipos de trocas e funções de fala diferentes. Por isso, Fairclough (2003, p.167) distingue as modalidades entre epistêmica e deôntica.

O comprometimento, de quem escreve, com a verdade, por meio de asserção, modalização ou negação se dá na modalidade epistêmica, ou troca de conhecimento. Já como as demandas são feitas, seja de maneira prescritiva, modalizada, ou proibitiva, dizem respeito à modalidade deôntica. Também fazem parte deste tipo de modalização as ofertas – aceitas, modalizadas ou recusadas.

Em ambas as modalidades, é possível identificar o nível de comprometimento. Baseado no esquema de Halliday (1994), Fairclough (2003) distingue o comprometimento elevado (certamente/necessário); quando mediano (provavelmente/suposto) e baixo (possivelmente/permitido). Assim, os marcadores de modalidade poderão ser advérbios modais, como também adjetivos e orações com processos mentais (ex. eu penso).

Fairclough (2003, p.171) distingue as avaliações entre declarações avaliativas, declarações com modalidades deônticas, declarações com processos mentais afetivos, e valores presumidos. As declarações avaliativas dizem respeito ao que é desejável (bom, maravilhoso, importante, útil) e indesejável (ruim, terrível,

30

desimportante, inútil), por meio de atribuições diretas do que é bom ou é ruim. Porém, as declarações avaliativas também podem ser realizadas por meio dos próprios verbos e advérbios de avaliação.

As escalas de intensidade das declarações avaliativas podem ser expressas por orações envolvendo processos mentais e afetivos, como ‘eu gosto’, ‘eu adoro’, ‘eu odeio’. Isso também dependerá das escolhas verbais, pois alguns verbos expressam mais intensidade de uma determinada ação do que outros. As modalidades deônticas se ligam diretamente à avaliação, pois podem expressar que o que é necessário, o que deve ser é algo bom. Os valores presumidos também expressam avaliação, porém, sem marcadores explícitos como advérbios e processos mentais ou afetivos. Estes, no entanto, dependem do compartilhamento de determinados sistemas de valores pelo leitor e autor. Em alguma medida, são pressupostos que fazem parte de um senso comum, em um dado contexto/sociedade.

Dessa forma, o quadro abaixo apresenta as categorias de modalidade aplicadas ao corpus desta pesquisa:

Quadro 2– Categorias de modalidade aplicadas à pesquisa Declarações

avaliativas Avaliação do trabalho e produção das musicistas e músicos, desempenho dentro do metal; Valores

presumidos Preconceitos embasados na heteronormatividade e nas relações de gênero assimétricas; Modalidade

epistêmica Asserções sobre identidades de musicistas e músicos, bem como sobre premissas do gênero musical metal.

Peter White (2004) delineia o sistema de avaliação, a partir de uma teoria da avaliatividade. Faremos uso do Subsistema de atitude e, em menor escalda, do Subsistema de Gradação, ambos parte do Sistema de Avaliatividade, como apoio à análise das avaliações presentes nos textos. Portanto, a seguir apresentamos os principais pontos da teoria e do sistema de avaliatividade.