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O SIMBOLISMO VISUAL DO 1WTC (FREEDOM TOWER)

No documento Mobilidade, espacialidades e alteridades (páginas 130-135)

O edifício conhecido como 1WTC ou Torre da Liberdade (Freedom Tower) foi o primeiro a se consolidar na nova paisagem do Ground Zero. Além dessa, outras quatro torres de escritórios com gabaritos5 diferentes fazem parte do projeto de

reconstrução, contiguamente com as piscinas externas, o Memorial 9/11,6 o cen-

tro de artes performáticas e o terminal de transportes com centro comercial, do arquiteto Santiago Calatrava.

O primeiro edifício reerguido no Ground Zero traz diferenças formais em relação às antigas torres no que concerne à apreensão visual com certa proxi- midade do objeto. Os edifícios desabados apresentavam todas as vistas laterais com uma mesma massa volumétrica, representada por um prisma de seção qua- drada. Uma das torres continha uma antena que a diferenciava da outra. A nova e principal edificação (o 1WTC) apresenta também o quadrilátero regular como base, mas sua configuração volumétrica traz uma dinamicidade que a distingue plasticamente das antigas construções. O embasamento é mais robusto física e estruturalmente e oferece essa conotação de solidez ao mostrar-se diferente dos demais pavimentos. A base do 1WTC sugere uma fortaleza, algo inabalável.

5 Gabaritos podem ser entendidos como as alturas dos edifícios.

6 O nome 9/11 se dá em referência ao mês e dia do atentado, respectivamente. A configuração americana

é inversa à praticada no Brasil. Cabe recordar que o conhecido telefone da emergência americana é o número 911, dado que pode ter influenciado na decisão da data de ataque.

A leveza pode ser apreendida alguns andares acima do nível da rua, quando o edifício passa a denotar traços mais leves (Figura 2). Ainda assim, a nova es- trutura está projetada para suportar colisões como as que ocorreram em 2001. Acima dessa corpulenta base, cada andar tem uma configuração própria, re- sultando em uma apreensão visual diferente a cada ângulo. O quadrilátero da cobertura é resultante da rotação exata em 45 graus da posição do edifício em solo. A volumetria resultante difere das antigas torres, embora o projeto subjaza semelhanças de grandes significações, a serem abordadas em momento ulterior.

Figura 2 - O 1WTC, Freedom Tower

Fonte: Fotos do acervo pessoal da autora.

A altura foi concebida de modo a tornar o 1WTC o edifício mais alto do país. São exatos 1.776 pés (541 metros), computando-se no cálculo a antena superior, com 124 metros. O número 1.776 é emblemático para o povo americano, por re- ferenciar o ano da Declaração de Independência dos Estados Unidos. A antiga torre norte possuía 417 metros de altura, a mesma do 1WTC, se descontado o apa- rato elétrico instalado no topo do novo edifício. Outrossim, com o recurso da an- tena o arranha-céu torna-se maior que as edificações anteriormente existentes. O 1 WTC traz uma densidade narrativa que se reflete também na expressão do discurso visual. Seus formantes eidéticos e topológicos possibilitam asso- ciações que atribuem forte caráter comunicacional ao texto arquitetônico. Essa articulação dos sentidos ocorre em uma específica contextura eco-psico-históri-

co-sociocultural,7 promovendo a atualização do significado de acordo com a si-

tuação. (BALDISSERA, 2008, p. 194) A apreensão da materialidade configura-se, pois, como algo aberto, plural e variável conforme o sujeito.

O que o texto visual não revela em suas múltiplas apreensões, se visto de seu entorno imediato, é a capacidade de transformação de sua visualidade quando do afastamento do observador (Figura 3). O edifício avistado com uma distância maior, que permita a leitura do skyline da cidade, desvela-se na dimensão de presença e efeitos de sentido. A volumetria da nova torre pode ser finalmente compreendida em sua intenção simbólica quando ocorre o distanciamento fí- sico do sujeito. A estrutura robusta da base ganha esbeltez em razão da pers- pectiva, tornando o edifício formalmente análogo ao antigo conjunto, com um volume de contorno bastante similar ao das torres gêmeas. Ao compará-lo, sob essa ótica, com as edificações do antigo WTC, a referência visual e a deferência tornam-se evidentes, corroborados também pela presença da antena superior, marca visual de um dos edifícios desabados em 11 de Setembro de 2001. Ocorre, por assim dizer, um resgate visual do passado, uma reconstrução da paisagem com características semelhantes ao antigo skyline, guardando-se a memória dos acontecimentos pela ausência de uma torre.

Figura 3 - Skyline do antigo e do novo WTC

Fonte: Wikimedia commons (2004) e acervo pessoal.

Um dos elementos do texto visual com adensado efeito de sentido, sob essa perspectiva, é a apreensão imagética da figura piramidal delicadamente deli- neada no volume. As arestas laterais do edifício convergem, apontando a uma única direção, o ápice. O efeito é próprio do afastamento do observador em rela- ção ao objeto – que o avista de modo bidimensional – e fruto de uma concepção arquitetônica complexa. A pirâmide é usada em alguns símbolos religiosos e de divindades. Estudos ligados à simbologia das formas relacionam a figura pira- midal ao crescimento e chamariz de boas energias.

Na acepção de French (1998, apud VARGAS, 2003, p. 4), os egípcios enxer- gam na pirâmide o símbolo da imanência da vida após a morte “[...] elevando a importância atemporal da alma, comparada à natureza temporária do corpo”. Esse elemento piramidal já faz parte do cotidiano dos americanos ao constar na nota mais comum da moeda do país, a de 1 dólar.8 A pirâmide é entendida ainda

como uma figura que remete à centralização, expressa pela união de dois pontos em um. Segundo Baudrillard (2003, apud MOREIRA, 2004, p. 30), os ataques marcaram uma coalizão de todas as formas de poder contra uma única força, “do Mal”.

[...] o 11 de setembro que coroou o processo de globalização, — não de mercado, dos fluxos de capitais, mas aquele, simbólico, bem mais importante, fundamental, da dominação mundial — provocando uma coalizão de todos os poderes, democráticos, liberais, fascistas ou totalitários, espontaneamente cúmplices e solidários na defesa da ordem mundial. Todos os poderes contra um só alien. E todas as ra- cionalizações contra a asserção do Mal. (BAUDRILLARD, 2003, apud MOREIRA, 2004, p. 30)

É uma visão marcada por certa ironia, recorrendo claramente ao simplismo maniqueísta, mas que parece, em certa medida, fazer-se presente na narrativi- dade de toda a reconstrução do Ground Zero. Há uma alusão à supremacia, ao

8 Há muitas especulações e teorias acerca dos mistérios da nota de um dólar. O que se sabe é que a

personalidade estampada na nota, George Washington – personalidade da Independência e primeiro presidente dos Estados Unidos – pertencia à Maçonaria, em cuja ordem há o uso do elemento pirami- dal. O 1WTC possui 1776 pés, que remetem ao ano da conquista americana. (DECIFRANDO..., 2016)

poder, simbolizados pelo porte do edifício coadunado com a expressão da figura piramidal, que oferece um forte incremento à narrativa visual.

Em todas as vistas do edifício o elemento triangular se faz presente, po- dendo-se apreender uma composição entre pirâmides regulares, voltadas ao topo e invertidas, como parte da solução formal (Figura 4). O jogo figurativo em relação ao posicionamento da base e do topo dos elementos triangulares possibilita uma dinamicidade plástica, produzindo forte dimensão de presen- ça. Em razão da perspectiva, a leitura com proximidade ao edifício evidencia as pirâmides regulares em suas quatro vistas, conotando-se uma retomada do controle da nação, da estabilidade. Para além da significação, a condição está- vel é também uma característica adquirida pelo sistema construtivo adotado. A estrutura do edifício suporta a colisão de um jato comercial sem abalos, tor- nando-se uma obra mais segura em termos estruturais.

Figura 4 - O simbolismo piramidal do 1WTC

No documento Mobilidade, espacialidades e alteridades (páginas 130-135)