CAPÍTULO 3 DA CONCEPÇÃO PSICOGENÉTICA À CONSTITUIÇÃO DO
3.3 O simulacro e a constituição do discurso construtivista
42 Como, por exemplo, a concorrência observada a partir da produção e circulação de outros enunciados, no final
da década de 80, os quais permitiram o estabelecimento disputas entre Interacionismo e Construtivismo ou entre a Pedagogia Crítica e a Psicogênese.
Identificamos que a polêmica é constitutiva da concepção psicogenética. Mas, em que medida? Para responder a essa pergunta, nos propusemos a observar as principais esferas a partir das quais tais polêmicas se materializam. Identificamos no PLE e selecionamos “temas” que representam pontos de divergência entre as perspectivas em jogo, a fim de melhor caracterizar essas disputas. Esses temas, a partir dos quais notamos mais claramente a existência de uma interincompreensão constitutiva entre o tradicional e o moderno, são:
Trabalho pedagógico/metodológico Concepção de escrita
Concepção de sujeito
Apreendendo a regularidade que constituiu os enunciados de base psicogenética, pode- se notar que a estruturação discursiva do PLE é realizada a partir de contraposições, no que se refere aos modos como o Outro (denominado tradicional) é abordado neste discurso. No PLE, cuja materialidade constitui-se enquanto “palco” de um confronto interdiscursivo, a relação estabelecida com esse Outro se dá em nível constitutivo.
Retomando o conceito de tradução, discutido anteriormente, reconhecemos que o discurso tradutor cita, ao passo que recusa, o discurso que é traduzido. Dessa forma, delimitando-se reciprocamente, acreditamos que o DP constitui sua identidade e constrói uma imagem do Outro (DT) ao rejeitar seus enunciados.
Desse modo, para que se tornasse mais evidente nesta relação43 o que seria da ordem
do DP ou da ordem do DT, selecionamos enunciados em relação polêmica e os agrupamos44,
partindo do próprio esquema constitutivo apresentado pela psicogênese, que se baseia em contraposições, como já referido.
Para tanto, identificamos no PLE: enunciados que constituem uma auto-representação
psicogenética (DP – GRUPO 1); enunciados que representam uma imagem do Outro traduzido pela perspectiva psicogenética (DT – GRUPO 2) e aqueles que apresentam o tema
43 Essa relação é considerada produtiva pois, a partir dessas interações, da interdiscursividade e da
heterogeneidade enunciativa marcadas no texto, é possibilitada a (re)produção de outros enunciados. Esse ponto será mais amplamente abordado na análise dos dados e na abordagem à constituição do discurso segundo (DS).
44 O agrupamento desses enunciados foi realizado em função da constituição de um quadro que nos oferecesse
parâmetros de leitura e que nos levasse a uma compreensão sólida do que seja o DP e como ele aborda o DT. Veja-se que observamos a relação existente entre esses enunciados a partir do que o próprio texto de origem psicogenética apresenta, a fim de caracterizar, inclusive, a leitura/tradução do discurso do Outro que é retratada (ou refratada) pelo DP.
ou a ideia central (IC) a partir dos quais as diferentes perspectivas se confrontam e, ao mesmo tempo, se interconstituem.
Assim, os enunciados pertencentes ao grupo 1 são fundamentais para a constituição da imagem da teoria psicogenética enquanto um discurso moderno. São enunciados que possuem a função semântica de afirmar e legitimar essa perspectiva; se constituem na delimitação com o DT e implicam uma conotação positiva por seus autores. Poderíamos identificá-los com a representação da teoria psicogenética pela própria perspectiva psicogenética, ou seja, tais enunciados remontam à imagem construída dessa concepção e seriam responsáveis pela identificação do construtivismo com um discurso revolucionário e moderno.
Já os enunciados pertencentes ao grupo 2 representam uma leitura elaborada, pelo prisma construtivista, do discurso tradicional (a (re)construção do discurso do Outro). Eles constituem-se enquanto uma representação dos tipos de trabalho contrapostos pela perspectiva construtivista, a saber, sobre métodos e maturidade. Esses trabalhos são constitutivos da discussão apresentada no PLE, na medida em que os enunciados pertencentes ao grupo 2 são citados e negados em sua materialidade textual, o que demarca a delimitação reciproca da concepção psicogenética em relação a eles. O grupo 2 aparece, então, articulado no PLE de modo que lhe é atribuído um sentido negativo, o que conferiria legitimidade ao discurso correspondente ao grupo 1, e o identificaria com um discurso ultrapassado e tradicional.
Com relação à IC, como já mencionamos, esta se constitui enquanto um palco onde as perspectivas concorrentes se confrontam. Compreendemos que esta(s) representa(m) um núcleo cujo significado é partilhado socialmente45, mas a construção do sentido é disputada no
confronto que está posto nesse contexto. É a partir da IC que as interações entre as perspectivas produzem as polêmicas como interincompreensão constitutiva.
É importante destacar que os grupos 1 e 2 se relacionam produtivamente a partir do que denominamos mecanismos de funcionamento, que são constituídos pelos processos de construção de simulacro e pela interincompreensão constitutiva. Esses elementos são recorrentes tanto no discurso constituinte da psicogênese, quanto no discurso construtivista observado em nosso corpus46, identificados a partir de mecanismos de tradução.
45 Aqui, referimos a ideia central enquanto “temas” (vide página 10). Acreditamos que o trabalho pedagógico/metodológico, a concepção de escrita e a concepção de sujeito constituem esferas a partir das quais as polêmicas entre DP e DT se materializam. Essas esferas representam pontos de divergência entre as perspectivas que se encontram em situação de confronto discursivo no PLE.
46 Neste capítulo, entretanto, abordaremos especificamente as questões relacionadas à constituição do discurso
construtivista a partir da concepção psicogenética; Quanto ao corpus, este será abordado quanto a seu caráter constitutivo no capítulo 4.
Apresentaremos, a seguir, como esses mecanismos funcionam no PLE a partir da caracterização dos embates a nível discursivo entre a concepção psicogenética e seu Outro, o DT. Ressaltando a leitura que um grupo faz do outro, buscamos tornar evidentes os mecanismos de constituição discursiva do DP que cita ao passo que rejeita o DT, como podemos vislumbrar nas considerações apresentadas a seguir.
3.4 Delimitação recíproca e o confronto discursivo: a estruturação semântica do discurso