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O sindicalismo e o Governo Belaúnde Terry (1980-1985)

No documento Organização do trabalho (páginas 193-200)

6. ARTICULAÇÃO POLÍTICA DO SINDICALISMO PERUANO: RELAÇÕES ENTRE ESTADO E SINDICATO

6.3 O sindicalismo e o Governo Belaúnde Terry (1980-1985)

diferenciar de seus contendores. Com efeito, grande parte dos setores populares tinha a ilusão de fazer valer seus recém adquiridos direitos de representação e participação política; e, nesse sentido, a maioria do eleitorado achou que Belaúnde se encarregaria da máxima representatividade governamental. (SABINO, 1999)

instalação do governo constitucional, prosseguiu-se e reforçou-se a política econômica de ajuste que regera a última fase do regime militar, enquanto se processava a transferência política.

Belaúnde delegou aos íntimos e leais amigos e familiares a tarefa de administrar a economia e de selecionar técnicos cuja experiência e prestígio internacionais deveriam assegurar o desenho e a aplicação das medidas de corte liberal. Ao mesmo tempo, buscava-se obter o respaldo dos governos, do setor financeiro e da imprensa norte-americana e européia. De tal modo, procurava-se o desligamento das responsabilidades políticas ao modelo econômico, delegando ao pessoal técnico esses encargos. Assim aponta Gonzáles de Olarte (1993):

O segundo governo belaundista adotou uma política econômica sob o signo do semi-liberalismo e da ortodoxia. Não obstante, em l98l a balança em conta corrente acusou um déficit demasiado alto, anunciando a precariedade do equilíbrio externo, que implicava o altíssimo endividamento externo. Em 1982, a economia entrou novamente em crise, em grande medida pelo tipo de política econômica aplicada (DE OLARTE, 1993, p. 32, tradução nossa).

Simultaneamente, restabeleceram-se as tradicionais práticas políticas baseadas no nepotismo, o “amiguismo”, o assistencialismo e clientelismo, que contrastavam com as expectativas de democratização da política e do Estado. Na perspectiva de Weber (1992), pode-se dizer que os diversos tipos de dominação são modos diferentes pelos quais o poder é exercido. O que julgamos importante notar é uma burocracia que responde pelo interesse geral, e que participa do poder. Isto nos conduz à possibilidade da permanência de relações patrimoniais de poder em formações economicamente distintas, sob a égide de outros sistemas de legitimação e sob o feitio de diferentes estruturas políticas formais. Tal argumento é analisado na obra de Faoro (1976) que a postula da seguinte forma:

O capitalismo politicamente orientado – o capitalismo político ou o pré-capitalismo –, centro da aventura, da conquista e da colonização, moldou a realidade estatal, sobrevivendo, e incorporando na sobrevivência, o capitalismo moderno de índole industrial, racional na técnica e fundado na liberdade do indivíduo – liberdade de negociar, de controlar, de gerir a propriedade sob a garantia das instituições. A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade se compreende no âmbito de um aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos. Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo, cuja legitimidade assenta no tradicionalismo – assim é porque sempre foi (FAORO, 1976 apud BUCALEM, 2006 p. 60).

Esse patrimonialismo que resistiu a enormes transformações sócio-econômicas, gerou, no dizer de Faoro, um estamento burocrático, que apesar de não contar com a hereditariedade das funções, mantém-se como comunidade, dentro da qual aquelas funções são cambiáveis, garantida a permanência do mesmo estrato nas posições de poder. Assim, o espírito patrimonialista se repete nas instituições políticas há séculos, implicando em amalgamento entre a esfera pública e privada.

No patrimonialismo, o Estado se funda na idéia de que o dirigente, o príncipe, o governador, prefeito, ou funcionário da repartição, é o proprietário legítimo do cargo que exerce e das vantagens que dele pode obter. Essa estrutura política cria uma cultura ancorada no poder do Estado que, sobrepondo as relações familiares e particulares ao domínio impessoal da lei, não consegue acompanhar o processo de modernização das instituições políticas. A estrutura de dominação é patrimonial quando aparece um quadro administrativo pessoal do senhor e os companheiros se transformam em súditos. A característica então a repartição de bens entre os membros do círculo. Quando a autoridade se exerce dentro das organizações política, denomina-se estatal-patrimonial, e sua forma é denomina-semelhante à estabelecida na comunidade doméstica (WEBER, 1992, p. 185). Salienta-se as formas de sustento dos servidores patrimoniais que

Weber denomina prebendas, “quando se conferem de um modo renovado, com apropriação individual, mas nunca hereditário, e se encontram reguladas tradicionalmente em sua amplitude ou em sua jurisdição. Denomina “prebendalismo à existência de una administração mantida principalmente de esta forma”. (WEBER, 1992 p. 188, tradução nossa).

Durante o governo do presidente Belaúnde, haveria também a competência racional técnica. A racionalização das atividades procurou-se através do estabelecimento de regras impessoais em busca da eficiência através da delegação na condução da política e da economia a Manuel Ulloa. Este na condição de Primero-Ministro e de Ministro da Economia, amparado pela nova Constituição, emitiu decretos para reorganizar a economia, que posteriormente a maioria legislativa se encarregou de ratificar. Sem considerar ou omitindo-se diante do protesto sistemático da oposição e da opinião pública, decidiu aplicar um conjunto de medidas de corte liberal que acarretaram inflação, desemprego e recessão produtiva, como se detecta através dos indicadores constantes da tabela abaixo.

Tabela 10 - Emprego, Subemprego, Desemprego Peru 1980 a 1985 Nível de emprego

1980

1981

1982

1983

1984

1985 Emprego * 66,9 66,4 65,4 57,7 54,3 47,4 Subemprego 26,0 26,8 28,0 33,3 36,8 42,5 Desemprego 7,1 6,8 6,6 9,0 8,9 10,1

Fonte: Compêndio Estatístico, Instituto Nacional de Estadística l987, Universidade do Pacífico (1988).

* a definição de emprego formal inclui o emprego assalariado em uma empresa de mais de 5 trabalhadores e os profissionais e técnicos independentes. Os indicadores que se utilizam para determinar se um trabalhador numa microempresa é um trabalhador formal são: pertencia a um sindicato, com contrato vigente, com previdência social, com ferias, com bonificações por Natal. OIT (1998).

O emprego formal diminuiu em 29,1% o desemprego aumentou em um 42.3% desde início do governo de Belaúnde até 1985, e o subemprego aumento em 63,3%, resultados que mostram as drásticas mudanças nas relações trabalhistas. Somava-se a esse panorama a crise

econômica, que se fez acompanhada de uma retração da ação sindical, como pode ser observado nas três tabelas que se seguem na continuação desta análise.

Tabela 11 - Índice de Preços ao Consumidor – Peru 1974 a 1984 ANO MÉDIA

1979 100,00 1980 159,16 1981 279,20 1982 459,20 1983 459,20 1984 2.038,04

Fonte: Instituto Nacional de Estadística- Peru, 1988.

Ano base 1979 = 100,00

Nessa situação, os sindicatos não tiveram modo de se fazer escutar, pelo tipo de governo estabelecido, de capacidade de decisão absoluta da presidência em um governo constitucional, contando com o apoio da tecnocracia. Como aponta Parodi (1985):

O primeiro ministro Ulloa ditava a política econômica a seu estilo, despótico e ausente, abstendo-se de ouvir as demandas dos sindicatos, às quais qualificou, em janeiro de l981, como o “cúmulo de disparates” (PARODI, 1985, p. 97, tradução nossa).

No caso específico dos sindicatos, o retorno à democracia constitucional significou deixar de ser o centro da atenção dos partidos de esquerda, que se deslocaram para o terreno eleitoral, parlamentar, de governo municipal e organização política nos bairros. A legalidade da negociação salarial foi novamente estrangulada, os direitos sindicais se perderam, as instituições políticas se tornaram inacessíveis para as demandas sindicais e as organizações dos trabalhadores

ficaram isoladas. O protesto e o radicalismo dos sindicatos tomaram renovada vitalidade nos primeiros anos do governo, como se verá a seguir, a qual, entretanto, arrefeceu no último ano.

Tabela 12 – Número de greves de trabalhadores, em greve – Peru 1980 a 1984 ANOS Numero de Greves Numero de Trabalhadores em Greve

Total (em milhares) % do total de trabalhadores 1980 739 481.5 33,0 1981 871 856.9 39,0 1982 809 548.8 25,0 1983 843 785.0 39,0 1984 247 452.0 23,0

Fonte: Yepez e Bernedo, 1984, p. 34.

Os indicadores constantes das Tabelas 12 e 13 mostram a limitação da ação sindical no período.

Tabela 13 Sindicatos reconhecidos –Peru – 1980 a 1984, durante o governo de Belaúnde Terry Ano Sindicatos

1980 61

1981 60

1982 42

1983 22

1984 4

TOTAL 189

Fonte: Ministério de Trabajo. Anuário Estadístico 1990.

Além de usar a greve como medida extrema para pressionar pela solução de alguma demanda isolada, os sindicatos retomaram a paralisação geral como medida de protesto e de pressão em meio à inoperância do diálogo, dando continuidade à mesma estratégia que foi utilizada pelo classismo. Na convocatória da greve nacional de setembro de l983, o secretário geral da CGTP, Eduardo Castillo, declarou:

Todos nossos esforços por dialogar e persuadir o governo para que mude sua política econômica nos demonstraram que não existe forma de deter as conspirações reacionárias que não seja a ação direta das massas. (EL BANCÁRIO, 1982, p. 18, tradução nossa).

Entre janeiro de l981 e novembro de l984, decretaram-se seis paralisações nacionais convocadas pela CGTP, três das quais tiveram muito êxito, pela quantidade de trabalhadores que paralisaram, para exigir aumentos gerais de remuneração ante as altas do custo de vida.

Demandava-se o controle dos preços, a defesa dos direitos sindicais e a mudança da política econômica.

Tabela 14 - Greves nacionais - Peru 1980-85

DATA Trabalhadores grevistas

Horas/ Homem Paradas

15-01-l981 326.000 2,608.000 22-09-l981 72.989 583.912 10-03-1982 298.322 2,386.576 27-09-l983 75.117 600.936 22-03-l984 242.175 1,937.400

Fonte: Parodi, 1985, 102.

As paralisações de maior êxito tiveram como antecedentes comuns fatos políticos de transcendência na aplicação da política econômica, A greve de janeiro de l981 foi convocada após ditar-se um conjunto de medidas econômicas que subiram em 60% o preço do leite, em 65% o do açúcar e em 50% o do pão e o das massas. A paralisação de março foi convocada posteriormente à nomeação de um novo gabinete que insistiu na mesma política econômica

“com maior agressividade que seu antecessor” (PARODI, 1985, p. 103, tradução nossa).

Belaúnde fez da indiferença uma forma de despotismo que dissimulava poeticamente.

Assim comparou com o “ócio” a greve de março de l984. No ano anterior havia qualificado a

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