CAPÍTULO 4 – A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO E O UNHEIMLICH
4.5. O sinistro e a Medusa
Talvez a questão do horror ao feminino tenha escapado a Freud em Das Unheimliche, mas poucos anos mais tarde ele voltou a reconhecer o tema em toda a sua profundidade por meio do mito grego de Medusa. É fato que ambos Ferenczi e Freud analisaram a história sob o prisma do complexo de castração. O primeiro, em Sobre o simbolismo da cabeça de Medusa (Ferenczi, 2002 [1923]), relaciona a cabeça da Medusa – símbolo mitológico do horror – à impressão infantil dos genitais femininos carentes de pênis. Freud, por sua vez, acrescenta que o mito significaria os genitais da mãe, pois Atena, carregando em sua armadura a cabeça da Medusa, converte-se por isso na mulher inabordável, bastando ao homem vê-la para extinguir-se qualquer ideia de aproximação sexual.
O pequeno texto freudiano A cabeça de Medusa (Das Medusenhaupt) foi publicado postumamente (1940). Segundo Strachey, seu manuscrito é datado de 14 de maio de 1922. Anterior, portanto, ao texto de Ferenczi, o qual apenas confirma, de maneira ainda mais concisa, as teses freudianas, acrescentando que a figura temida é símbolo da região genital feminina deslocada do ventre para a cabeça. Para Freud, o terror suscitado pela cabeça de Medusa representa o horror ante a castração imaginada pelo menino ao ver os genitais de sua mãe rodeados por pelos pubianos. As serpentes em sua cabeça têm dupla significação, indicando, ao mesmo tempo, a castração como figurada no inconsciente e a mitigação deste horror, pois as serpentes substituem o pênis ausente. Conforme mencionado n’A interpretação dos sonhos (1900), a duplicação ou multiplicação dos símbolos fálicos representa o “rechaço” da castração nos sonhos31
(ESB). Por sua vez, a petrificação
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“The scene of her exposure offers the most comprehensive dramatization of the motif we have yet seen and represents the narrative of the infantile male sexual theory in several particulars”.
31 A ESB menciona “rechaço” da castração. A versão da Amorrortu refere-se à
“proteção” contra a castração na mesma passagem. A lagartixa – cuja cauda volta a crescer – teria o mesmo significado. Freud cita a calvície, o corte de cabelos, a queda dos dentes e a decapitação como representantes simbólicos da
do homem a observar a cabeça de Medusa representa a ereção de seu pênis. Dessa forma, a ereção perante a visão de uma vagina origina-se no complexo de castração, como uma espécie de reação apaziguadora que confirma ao homem a posse de seu membro. Disso infere-se, também, o desejo heterossexual masculino como fundamentado na teoria sexual infantil da castração feminina.
Na mitologia grega, as górgonas eram criaturas horríficas do sexo feminino, monstros ctônicos do mundo arcaico. Seu nome deriva da palavra gorgós, que significa “horrendo”. A górgona Medusa aparece já nos primeiros textos literários da Grécia Antiga, como na Ilíada e na Odisseia de Homero. Figura igualmente, como uma máscara monstruosa, em vasos e no frontão de templos, em acrotérios e antefixas. Para Vernant (1988), a máscara monstruosa de “Gorgó” era a representação maior da extrema alteridade para os gregos, “o temor apavorante do que é absolutamente outro, o indizível, o impensável, o puro caos: para o homem, o confronto com a morte (...)” (Vernant, 1988, p. 12-3). Essa alteridade máxima não era apenas o ser humano diferente do grego (tal como o estrangeiro). Era aquilo que se manifesta como diferença radical em relação ao ser humano: “em vez do homem outro, o outro do homem” (Vernant, 1988, p. 35)32. Podemos falar na górgona,
então, como um símbolo máximo da angústia perante o outro.
Na Ilíada, a górgona é estampada na armadura de Atena e no escudo de Agamenon, em uma cena de guerra na qual o olhar e a boca distendida de Medusa semeiam o pavor e o pânico. Sua face imita a careta do guerreiro possuído pelo furor, e sua boca em esgar evoca os gritos coléricos de guerra. Segundo Vernant, o terror que ela provoca, no entanto, não decorre da situação especial de perigo bélico: ao contrário, “É o medo em estado puro, o Terror como dimensão do sobrenatural. Este medo, com efeito, não é uma decorrência nem algo motivado, como o que provocaria a consciência de um perigo. É um medo primeiro” (1988, p. 50). Interessa observar a analogia com o angst freudiano, pois se trata de um medo perfeitamente sem objeto. Já na Odisséia, a górgona pertence à terra dos mortos, o país de Hades, sendo incumbida de proibir a entrada dos viventes. Seu papel seria simétrico ao de Cérbero, pois este cão infernal impede que o morto retorne ao convívio dos vivos. Ao
castração na vida onírica (Freud, 1996 [1919], p. 389; 2007 [1919], p. 362-363).
32 Vernant (1988) também descreve que a mascara da Górgona, devido a sua
monstruosidade, produz um efeito de “inquietante estranheza” [no original em francês, “inquiétante étrangeté”] em virtude de oscilar entre dois pólos: o horror do que é terrificante e o risível do grotesco.
olhá-la nos olhos, o homem deixa de viver e a acompanha na morte: “Seu mito mostra o poder mortífero do olhar e sua associação com a pulsão de morte” (Quinet, 2004, p. 93). Na Teogonia de Hesíodo, as górgonas eram em número de três – Esteno, Euríale e Medusa –, filhas de Fórcis e Ceto, deuses marinhos primordiais. Apolodoro de Atenas, por sua vez, trouxe o relato de que as três irmãs teriam ninhos de serpentes vivas e venenosas em suas cabeças, e cujo olhar seria petrificador. Já segundo as Metamorfoses de Ovídio, originalmente Medusa era uma bela donzela que, em virtude de haver copulado com Poseidon nas dependências do templo de Atena, fora transformada por esta em uma criatura horrível com serpentes no lugar de cabelos.
Divergências descritivas à parte, interessa-nos que nas mais populares versões do mito Medusa era a única mortal entre as três irmãs, havendo sido decapitada por Perseu a mando do Rei Polidectes de Sérifos, ávido por obter sua cabeça como um presente. Para cumprir sua tarefa Perseu é orientado por Atena e Hermes a obter utensílios mágicos como o capacete de Hades (a kunée) e as sandálias aladas. Um tema central da história, percebe Vernant, é o do olho, do olhar e da reciprocidade entre o ver o ser visto. Pois a kunée confere invisibilidade a quem a utiliza; e Perseu, para matar Medusa, precisa dela desviar o olhar: “o herói olha prudentemente para o outro lado quando corta o pescoço do monstro e quando, mais tarde, brande sua cabeça para transformar seus inimigos em pedra” (Vernant, 1988, p. 99). Ademais, nas versões posteriores do mito, é por meio do espelho e do reflexo que o jovem pode matar Gorgó sem precisar cruzar seu olhar petrificante33
. Decapitada, Medusa dá à luz a dois filhos que saem de seu pescoço, o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor. Retornando de sua missão, Perseu entrega a cabeça de Medusa para Atena, que a coloca em seu escudo, o Aegis, sendo usada como arma, pois a cabeça decepada do monstro manteve o poder de petrificar. Em posse da cabeça de Medusa, Atena é uma mulher inabordável que rechaça todo interesse sexual. Ela, para Freud, é a representação maior da mãe com seus genitais terríficos. Não seria então ao acaso a história da cegueira de Tirésias ao avistar o corpo nu da deusa, como contado por Calímaco. Freud, ainda a esse respeito, comenta sobre a forte tendência homossexual dos gregos da era clássica, de maneira que “era inevitável que encontrássemos entre eles uma representação da mulher como um ser que assusta e repele por ser
33 A evitação do olhar da Medusa é relacionada no capítulo seguinte à angústia
perante o desejo do Outro. Como sabemos, o desejo do Outro é perceptível sobremaneira por meio do seu olhar.
castrada” (Freud, 1996 [1922], p.290).
Vale acrescentar, Lacan (2010 [1954-55], p. 223-24) igualmente dedicou uma breve associação com a cabeça de Medusa a partir da análise do sonho freudiano da “injeção de Irma”:
A fenomenologia do sonho da injeção de Irma nos levou a distinguir duas partes. A primeira vai dar no surgimento da imagem aterradora, angustiante, nesta verdadeira cabeça de Medusa, na revelação deste algo de inominável propriamente falando, o fundo desta garganta, cuja forma complexa, insituável, faz dela tanto o objeto primitivo por excelência, o abismo do órgão feminino, de onde sai toda vida, quanto o vórtice da boca, onde tudo é tragado, como ainda a imagem da morte onde tudo vem-se acabar (...). Tá, pois, aparecimento angustiante de uma imagem que resume o que podemos chamar de revelação do real naquilo que tem de menos penetrável, do real sem nenhuma mediação possível, do real derradeiro, do objeto essencial que não é mais um objeto, porém este algo diante do que todas as palavras estacam e todas as categorias fracassam, o objeto da angústia por excelência.
Trata-se, na citação, do segundo seminário do autor (1954-55). Observa-se aí uma linha associativa entre a cabeça da Medusa e o fundo da garganta do sonho de Freud, associação angustiante com o “abismo” do órgão sexual feminino, com o vórtice da boca e com a imagem da própria morte. Chega-se nesse sonho ao que Lacan denomina “real da angústia”, ante o qual as palavras fracassam. O próximo capítulo é dedicado a uma apreciação exclusivamente lacaniana acerca desse afeto. Como exemplo artístico do fascínio gerado, não só por Medusa, mas pelo estudo de Freud supracitado, podemos citar a interessante obra performática da artista francesa Orlan, Documentary study: the head of Medusa (1978). A situação consistia em mostrar ao público sua própria vulva por meio de uma lupa, ao tempo em que monitores mostravam as expressões dos visitantes que chegavam e que partiam34. Na saída, o
34 “Isso envolveu mostrar meu sexo (do qual metade de meus pelos pubianos
estava pintado de azul) através de uma grande lupa – e isso, durante minha menstruação. Monitores de vídeo mostravam as cabeças daqueles que chegavam, daqueles que viam, e daqueles que partiam. O texto de Freud sobre a
texto de Freud sobre a cabeça de Medusa era entregue ao público, com uma frase em destaque: “Ante a visão da vulva até o diabo foge”. Essa frase é melhor analisada no próximo item. Orlan tinha plena consciência do fator horrífico associado à feminilidade e especialmente à genitália feminina, fazendo questão de produzir esse efeito inquietante em seu público.
4.6. O caráter apotropaico dos genitais femininos e a misoginia