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1 A GÊNESE HISTÓRICA DAS CATEGORIAS E CONCEITOS DE

1.3 O Sistema Agroalimentar mundial

1.3.1 O Sistema Agroalimentar: sintomas e crises

O presente item antecipa algumas questões centrais que serão trabalhados ao longo da tese. Concordando com Ploeg (2008, p. 26) independentemente da “sua localização temporal e espacial, a agricultura articula-se com a natureza, a sociedade e as perspectivas e interesses daqueles que estão diretamente envolvidos nela63” (Grifos em negrito e itálico,

meus). Neste sentido, a partir do entendimento do autor, no imbricamento desses eixos e

processos, se houver alguma desarticulação ‘mais ou menos crônica’ com um desses eixos há a instalação de crise. Dado a esses fatos e as características fundamentais de como vem ocorrendo o processo de reprodução do capitalismo no Campo, estamos frente a uma “crise agrária”64.

A ideia “clássica” de crise agrária centra-se nas inter-relações entre a organização da produção agrícola e os interesses e perspectivas daqueles diretamente envolvidas nela. Este é o tipo de crise que, ao longo da história, tem impulsionado lutas massivas de camponeses e, muitas vezes, a reforma agrária. Contudo, o ser humano testemunhou também (especialmente em tempos recentes) crises agrárias relacionadas com a forma como as práticas agrícolas e de subsistência se iter- relacionam com a natureza. Quando a agricultura se organiza e se desenvolve através da destruição sistemática dos ecossistemas em que se baseia e/ou contamina cada vez mais o ambiente circundante, estamos perante uma crise “agro-ambiental”. (PLOEG, 2008, p. 27).

63 Acerca deste último ‘eixo’ num esquema constante em seu livro, Ploeg chama de “Atores envolvidos”. 64 O autor denomina isso de “A crise vindoura”. Obviamente, ao considerar o processo de reprodução do capital

e os sintomas que estão aparecendo conduzem a concluir que essa tendência se materializará num futuro próximo.

As bases materiais, econômicas e de mercado nas quais assenta-se o Sistema Agroalimentar somado à inserção do alimento e da agricultura aos objetivos de acumulação, conduzem a diferentes crises estruturais e conjunturais combinadas, tais como: crise alimentar, crise energética, crise agrária e crise ‘agro-ambiental’. Veremos ao longo da tese análises que complementarão o anunciado neste item acerca dos sintomas e crises, tendo em vista que a evolução do Sistema Agroalimentar esteve, e está intimamente ligada aos imperativos da reprodução do capital a partir do crescimento e acumulação do sistema econômico hegemônico e que, portanto, necessariamente conduzirá à intensificação dos processos objetivos que levarão cada vez mais sistematicamente a essas crises65.

É importante destacar que a origem do conceito de Segurança Alimentar (e Nutricional) está intimamente ligado e tem a sua raiz histórica a partir de contextos de crises – sobretudo a partir da II Guerra Mundial –, quando pela falta de alimentos na Europa, as autoridades e organizações políticas mundiais começaram a se preocupar com a resolução do problema da fome, bem como, buscaram alternativas político-econômicas para que se garantisse quantidade e qualidade de alimentos em casos de crises.

Retomando a perspectiva e abordagem teórico-metodológica dos regimes alimentares, [do conceito de regime alimentar], vemos que os momentos de transição de um regime a outro são também marcados por crises. Porém, as alternativas resolutivas são ‘intra-sistêmicas’. Encontra-se no escopo da busca de corrigir os ‘desajustes’ para manter e fortalecer as condições interessadas do movimento de acumulação66. A partir das elaborações de Friedmann (2009), Paula (2017, p. 33) destaca:

Esse conceito define a ordem alimentar em cada período, seus elementos estruturantes e os momentos de transição de um regime a outro, entremeada por crises e intervenções de novas ou pretéritas forças dominantes no interior do

65 É importante demarcar que a Soberania Alimentar coloca em seu horizonte e ideário a superação dessas

condições objetivas causadoras dessas crises. Por essa razão é dado centralidade e colocado em relevo as consequências negativas desta ordem, pois estas são os fatores materiais que contribuíram para o surgimento do conceito de Soberania Alimentar com o objetivo de construir processos de superação. É importante chamar a atenção do leitor desta tese e para esta tese, para que identifique no decorrer das discussões a presença desta intencionalidade.

66 Considerando a perspectiva de totalidade, podemos compreender melhor esse processo com a contribuição de

McMichael (2016, p. 102) ao destacar que, “Uma análise do regime alimentar permite identificar que o surgimento de uma crise agrária no Sul global resultou de sua decisão no Norte, sob a forma de um regime de ajuda alimentar mercantilista. E essa decisão é reveladora, pois expõe um ponto cego ecológico nas narrativas do capital – em dois sentidos. Primeiro, a projeção de Kautsky sobre crise agrária era econômica, assim descartando as ‘externalidades’ ecológicas que perseveraram na década de 1930, dando sentido ao conceito de ‘domínio de valor’, pelo qual agricultores movidos pela formatação de preço exauriram os ecossistemas. Segundo, a solução para o esgotamento da terra era a introdução indiscriminada de formas de ‘domínio

biofísico’ (Weis, 2007) por meio de programas de commodities do New Deal norte-americano que instituíram a ‘petroagricultura’ (Walker, 2005) intensiva em energia, mascarando condições ecológicas subjacentes (e problemáticas). E esse modelo de conduta agroindustrial foi universalizado”.

processo de acumulação capitalista em nível mundial (...). Como afirma McMichael (2009) o sistema alimentar mundial é colocado numa perspectiva histórica, através da qual as transformações e crises alimentares são interpretadas à luz do papel crucial da agricultura e da alimentação no processo de acumulação de capital ao longo do tempo. Essa interpretação está inserida num escopo analítico mais amplo sobre o regime de acumulação que articula formas de competição, relações específicas entre capital e trabalho, regimes monetários e financeiros, e um padrão de inserção das economias nacionais no sistema mundial (Boyer, 2013).

Esses processos, dada a evidente crise estrutural do modo de produção do capital incide na conjunção de diferentes crises combinadas atingindo diversos setores da produção incluindo a alimentação. O uso intensivo de insumos químicos, fundamentalmente os fertilizantes67 e agrotóxicos68 – com aumento progressivo das doses [por hectare] –, incide na

redução da diversidade [microbiana] do solo tendo em vista que esse processo causa o desaparecimento de micro-organismos que são fundamentais na revitalização do solo e de sua fertilidade (MARQUES FILHO, 2016). Isto demonstra que além de uma crise de produção, ambiental expressa que a crise alimentar não pode ser vista apenas pela diminuição da produção de gêneros alimentícios, mas também, pelas condições violentas em que são produzidos incidindo diretamente na sua qualidade nutricional e biológica.

A conclusão lógica desse processo combina degradação dos solos, dos recursos hídricos e passa a conduzir a anulação da ‘produtividade’ resultante das inovações tecnológicas desse modelo.

Segundo o World Population Data de 2010, a cada 24 horas 219 mil pessoas a mais devem-se alimentar. Nos 40 anos sucessivos à II Grande Guerra, a idade de Ouro do capitalismo, as sucessivas inovações tecnológicas permitiram aumentos na produção de grãos a taxas superiores ao aumento da população. Em 1950, o mundo produziu 250 quilos de grãos per capita. Em 1984, 339 quilos de grãos per capita, um pico jamais ultrapassado desde então, [...].

Desde meados dos anos 1980, não obstante o quase contínuo crescimento total da produção de grãos, a curva da produção per capita começa a declinar até atingir 304 quilos de grão per capita em 2004, 9% a menos que sua média histórica, sendo que

67 Dominam o setor – fundamentalmente no Brasil, para o agronegócio – as multinacionais: a norueguesa

Hydro/Yara, a Bunge/Fosfertil e a norte americana Cargill/Mosaic. “O Brasil é um país fortemente dependente do mercado mundial de fertilizantes, pois para suprir as necessidades do mercado nacional, em 2010, foi necessário importar 62,3% do volume consumido”. (OLIVEIRA, 2016, p. 470). As culturas que mais fazem uso dos fertilizantes, segundo o autor, são a soja, a cana-de-açucar e o milho.

68 De acordo com Oliveira (2016, p. 474 – 475) “No setor de agrotóxicos, no Brasil, há o domínio de mercado

pela Bayer e Basf (alemãs), Cofco (Chinesa/suíça ex-Syngenta), DuPont e Dow Chemical que acertaram a fusão e criando a gigante de US$ 130 bilhões, criando três negócios nas áreas de agricultura, commodities e produtos químicos, e a Monsanto (norte-americanas) e ChemChina (chinesa/israelense), que juntas, formam oligopólios privados de multinacionais estrangeiras na economia nacional. O consumo mundial de

agrotóxicos é de cerca de 2,5 milhões de toneladas e, o Brasil responde por mais de 300 mil toneladas (primeiro consumidor mundial). Segundo o Sindag (sindicato das indústrias do setor) os herbicidas (38%)

dominaram as vendas no Brasil em 2009, seguido pelos inseticidas (30%) e fungicidas (27%), que somaram juntos 95% dos U$ 6,266 bilhões de dólares faturados pelo setor”. (Grifos meus). Mais informações acerca do uso de agrotóxicos no Brasil, ver BOMBARDI (2016), que pela utilização do recurso cartográfico nos permite visualizar as áreas em que se concentram os índices maiores de utilização de agrotóxicos e das diferentes consequências desse processo inerentes, como por exemplo, intoxicações, etc.

na África subsaariana ela caiu de 140-160 quilos per capita entre 1960 e 1981 para menos de 120 quilos per capita em 2004, algo próximo do limiar da morte por fome. De onde o fracasso da meta de redução da fome no mundo, estabelecida em 1996, na Cúpula Mundial da Alimentação (WFS) da FAO em Roma: [...]. (MARQUES FILHO, 2016, p. 166 – 167). (69).

O movimento do real expressa na materialidade social foi sistematicamente demonstrando a ineficiência desses acordos e das proposições políticas. Tanto é que em 2002 chefes de Estado e de Governo admitiram que as metas colocadas em 1996, de reduzir pela metade até 2015 o número de pessoas subalimentadas, não seriam alcançadas70.

Tendo em vista que a partir de 1996 os dados e números gerais da fome e da subnutrição demonstraram que havia o aumento do número de pessoas e das situações de fome, em 200971 o Plano Alimentar Mundial (PAM) da FAO indica ‘um alerta vermelho’, sobretudo ao pensar no longo prazo – [em 2050] –, nas condições de alimentar e nutrir a população mundial. A crise alimentar existente tende a piorar. De acordo com FAO (2009)72, apud Marques Filho (2016, p. 168):

[...] a produção de alimentos (sem contar a produção usada para biocombustíveis) deve crescer 70%. A produção anual de cereais necessitará atingir 3 bilhões de toneladas, das 2,1 bilhões atuais e a produção de carne necessitará crescer 200 milhões de toneladas para atingir 470 milhões de toneladas.

Vemos, no entanto que:

Finalmente, existe a relação com a sociedade em geral, que se caracteriza, essencialmente, pela discussão sobre a quantidade e qualidade dos alimentos, embora essa não seja a única característica relevante. A atual proliferação de escândalos alimentares (sobretudo a BSE ou doenças das vacas loucas, e os protestos públicos após o refreamento de doenças animais como a febre aftosa, a gripe aviária, a peste suína e a febre catarral maligna) são a expressão das crises que estão emergindo no eixo que liga a agricultura à sociedade em geral. (PLOEG, 2008, p. 27).

De crises esporádicas e em certa medida isoladas (de setores específicos), temos objetivamente um contexto histórico que pela lógica em exercício, a cada momento ganha maturação, um desfecho material de crises (combinadas/interseccionadas) caracterizadas pela

69 Nota minha: Chama-se atenção para o entendimento de que a produção de grãos simplesmente não expressa na

íntegra a produção de alimentos se tomarmos a estrutura produtiva das commodities no Campo. Contudo, os dados trazidos por Marques Filho expressam sobremaneira a crise sistêmica, ou seja, a sua insustentabilidade e a sua incapacidade como real tendência, quando se trata da produção de alimentos e nos demais aspectos. Adiante na tese estes aspectos serão lapidados na interação entre os itens discutidos.

70 Em novembro de 2009 na realização da Terceira Cúpula Mundial da Alimentação (WFS) – onde se reuniram

mais de 60 países – firmou-se compromissos para buscar iniciativas para os primeiros passos que visaram diminuir o número de pessoas que sofrem fome, insegurança alimentar e subnutrição.

71 No período de 12 anos entre 1997 a 2009 foi visível o aumento da fome no mundo. De acordo com os dados

da FAO, Marques Filho (2016, p. 168) destaca que “No mesmo ano de 2009, o número de pessoas padecendo de fome ultrapassou 1 bilhão (1.020.000.000)”.

72 Dados presentes no PAM. De acordo com Marques Filho (2016), “Cf. FAO – How to Feed the World in 2050

soma de todos esses fatores que compõem os eixos com os quais se relaciona a agricultura [sociedade; natureza; atores envolvidos] que se articulam com a produção agrícola. Ou seja, uma crise agrária inevitável. De acordo com PLOEG (2008, p. 27):

Atualmente, e pela primeira vez na história, está se aproximando uma crise que: a- diz respeito aos três eixos mencionados [...]; se relaciona com a qualidade dos alimentos e com a segurança da distribuição de alimentos, com a sustentabilidade da produção agrícola, e está associada à negação generalizada das aspirações de emancipação daqueles que estão envolvidos na produção primária; b- é, pela primeira vez, uma crise global, isto é, seus efeitos são sentidos em todo o mundo; c- e, finalmente, essa crise agrária internacionalizada e multifacetada representa, cada vez mais, um nó Górdio, no sentido em que o alívio de um determinado aspecto, em um dado momento e lugar, apenas agrava a crise em outro lugar e em outros momentos e/ou a transfere para outras dimensões.

As crises combinadas (internacional e multidimensional (PLOEG, 2008)) são a expressão de nosso tempo e que colocam em evidência diferentes contradições. Como estamos vendo, a questão alimentar nessa lógica tem relação direta com as condições de desenvolvimento de uma nação [e dos povos de modo geral], tendo em vista que é uma necessidade básica. Porém, a tomada de decisão pelo poder político em debater e conceber propostas ‘resolutivas’ acerca da questão alimentar, tanto para os processos produtivos – para garantir a reprodução da força de trabalho –, quanto para a produção e reprodução da existência de modo geral, está pautada na busca de uma ‘convivência social numa relação saudável’ correspondente ‘aos ditames do sistema’. Para os processos de transformação social e superação da ordem hegemônica73 e a constituição de outra hegemonia deve ser fortalecida a práxis da classe trabalhadora, que como vemos, aos poucos vem compondo a perspectiva da Soberania Alimentar.

1.3.2 O sistema agroalimentar e os ‘riscos’ das manipulações: dominação e redução do