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Os interrogatórios preliminares

1.2 O sistema DOI-COD

A Operação Bandeirante mostrara-se eficiente. A partir dessa constatação decidiu-se ampliar o seu escopo, disseminando um modelo semelhante em todo o país. A idéia de criar uma estrutura de combate ao crime político em âmbito nacional não era nova. Em 1936, numa

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As informações no II Exército e a Operação Bandeirante. 29/06/1970 (data de arquivamento pelo DOPS). Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 73, 13139, fls. 8 a 10.

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As informações no II Exército e a Operação Bandeirante. 29/06/1970 (data de arquivamento pelo DOPS). Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 73, 13139, fl. 11.

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As informações no II Exército e a Operação Bandeirante. 29/06/1970 (data de arquivamento pelo DOPS). Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 73, 13139, fl. 13.

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As informações no II Exército e a Operação Bandeirante. 29/06/1970 (data de arquivamento pelo DOPS). Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 73, 13139, fl. 14.

conjuntura de autoritarismo crescente que redundaria no golpe de Getúlio Vargas, em 1937, e no Estado Novo, houve um Congresso de Chefes de Polícia, no Rio de Janeiro convocado pela Chefia de Polícia do Distrito Federal e pelo Ministério da Justiça. O objetivo do evento era melhorar as relações entre as polícias estaduais, a fim de melhor combater o comunismo. A resistência ao projeto de federalizar a polícia política, em detrimento do controle dos Estados, foi levantada por alguns representantes estaduais, particularmente de São Paulo, receosos com a possível diminuição da eficiência do trabalho policial. Em 1944 houve reformulação da polícia do Distrito Federal – que passou a ser denominada Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP) – e uma ampliação de suas atribuições, entre as quais constava a cooperação com as polícias estaduais no que dizia respeito à ordem política e social. Os DOPS, no entanto, não foram afetados em sua autonomia.

Em 1958, na II Conferência Nacional de Polícia, a discussão sobre a reestruturação da polícia voltou à tona, com a proposta de se criar uma Polícia Federal. Novamente foi a delegação de São Paulo quem mais se opôs ao projeto, argumentando que as elites paulistas não estariam interessadas no fortalecimento do poder federal e que os policiais paulistas dispunham de instituições bem aparelhadas, como o DOPS.120

Até 1969, portanto, a repressão política coube essencialmente às Secretarias da Segurança Pública e aos DOPS de cada Estado. Concomitantemente com a criação da Operação Bandeirante, em junho de 1969, o controle operacional das polícias militares passou a ser centralizado pelo Exército, e sua função de policiamento preventivo foi substituída pela manutenção da segurança interna.121 Foi preciso, assim, que o DOPS de São Paulo perdesse parcela de seu prestígio em detrimento da Operação Bandeirante e que a iniciativa de criar um novo modelo repressivo partisse de São Paulo – com a estreita colaboração das elites paulistas –, para que a federalização da polícia política se concretizasse.

Os CODIs foram instituídos a partir de 1970,122 nas Zonas de Defesa Interna (ZDIs), criadas seguindo o desenho das áreas de jurisdição do I, II, III e IV Exércitos.123 A criação das

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MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O ofício das sombras, p. 56-60.

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Decreto nº 667, de 2 de julho de 1969. ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil, p. 212.

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Alguns autores situam a criação do sistema DOI-CODI no mês de janeiro. É o caso de Maria Celina D’Araújo, Celso Castro e Gláucio Ary Dilon Soares e dos autores do projeto Brasil: nunca mais. Carlos Fico fala em “segundo semestre de 1970”. Outros, como Elio Gaspari e o ex-comandante do DOI, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (Rompendo o silêncio), situam sua criação no mês de setembro. Outros, ainda, como Antonio Carlos Fon e Maria Helena Moreira Alves e Maria Aparecida de Aquino referem-se apenas ao ano de 1970. É possível que tenha havido discrepâncias no que diz respeito ao início das atividades do órgão em cada estado e mesmo entre a ativação do DOI e do CODI numa mesma localidade.

ZDIs foi um artifício para garantir a precedência do Exército sobre as demais Forças Armadas, embora a Marinha e a Aeronáutica também contassem com representação formal nessas zonas.124 O Centro de Coordenação foi substituído pelo Conselho de Defesa Interna (CONDI), com composição e atribuições semelhantes, porém situados hierarquicamente acima dos CODIs.125 Estes possuíam representantes das três Forças Armadas e das Polícias Civil e Militar, e passaram a ser chefiados pelo chefe do Estado-Maior do Exército. Estavam incumbidos de planejar, coordenar e assessorar as medidas de defesa interna – tanto de informações quanto de segurança. Nessa mesma época foram criados os DOIs, unidades móveis e dinâmicas, controlados operacionalmente pela 2ª Seção do Estado-Maior do Exército126 e subordinadas aos CODIs, e cuja missão constituía em executar operações de repressão política. Os CODIs eram órgãos de planejamento, ao passo que os DOIs eram órgãos de ação. Todas as chefias de seções e subseções, à exceção da administrativa, cabiam a oficiais das Forças Armadas, o que demonstra o caráter militarista do órgão e a importância atribuída, pelos militares, ao controle da oposição.127 O sistema DOI-CODI foi criado a partir de diretrizes secretas, elaboradas pelo Conselho de Segurança Nacional e aprovadas pelo então presidente da República, Emilio Garrastazu Médici.128 Segundo Martha Huggins,

muito embora o DOI/CODI fosse apenas um pequeno subconjunto do aparelho de segurança interna do Brasil, essa organização – devido à sua subordinação direta ao Executivo militar federal – sobrepunha-se aos demais elementos de segurança interna e tinha status mais alto do que eles.129

A continuidade entre a Operação Bandeirante e o DOI-CODI é atestada por um documento intitulado “Operação Bandeirante (Organização do CODI/II Ex)”, assinado pelo comandante do II Exército, o general José Canavarro Pereira e pelo chefe do Estado-Maior do

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Na época, ao todo eram 4 as grandes regiões militares: I Exército: tropas do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo; II Exército: tropas de São Paulo e de Mato Grosso; III Exército: topas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná; IV Exército: tropas da região Nordeste. Além dessa divisão, havia ainda onze Regiões Militares menores, comandadas por generais-de-divisão, e responsáveis por oferecer apoio logístico ao Exército. GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. p. 365.

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GASPARI, Elio. A ditadura escancarada, p. 178. Em 1970 foram criados os CODI/DOI do I Exército (Rio de Janeiro), do II Exército (São Paulo), do IV Exército (Recife) e do Comando Militar do Planalto (Brasília); em 1971 os da 5ª Região Militar (Curitiba), da 4ª Divisão de Exército (Belo Horizonte), da 6ª Região Militar (Salvador), da 8ª Região Militar (Belém) e da 10ª Região Militar (Fortaleza); em 1974, o do III Exército (Porto Alegre), substituindo a Divisão Central de Informações. FICO, Carlos. Como eles agiam, p. 124.

125

A subversão e o terrorismo em São Paulo. 10/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série

Dossiês, 50-Z-9, 84, 15602, fl. 32.

126

Apostila Sistema de Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 29.

127

GASPARI, Elio. A ditadura escancarada, p. 181.

128

FICO, Carlos. Como eles agiam, p. 119.

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II Exército, o general Ernani Ayrosa da Silva.130 O CODI manteria a Central de Informações e a Central de Operações, e modificaria o nome da Central de Difusão para Central de Assuntos Civis. À Coordenação de Execução corresponderia o DOI, cuja preponderância nas operações ficaria registrada na memória política na sigla DOI-CODI, que invertia a hierarquia de comando, mas refletia o ativismo do DOI, uma vez que “a efetiva atuação dos DOI, ultrapassava, muitas vezes, a capacidade coordenativa dos CODI”.131

A decisão de criar um órgão como o DOI-CODI, em vez de reformar a Polícia Federal ou de coordenar as polícias estaduais, foi explicada pela urgência que o combate à “subversão” exigia. O Exército possuía um bom número de argumentos para justificar sua opção: a) a polícia não estaria estruturada para esse tipo de missão, pois tinha suas próprias missões a cumprir; b) o prazo estimado para organizar as instâncias regulares do Estado era de 15 a 20 anos; c) a polícia mostrara-se, na prática, incapaz de combater a “subversão”; d) apenas uma parcela do Exército seria empregada no Sistema de Seguranças e Informações, algo em torno de 600 homens; e) combater na guerra interna, em estado latente, também seria atribuição do Exército; f) combater o inimigo interno seria preparar-se para uma guerra externa, uma vez que o inimigo externo procuraria aliar-se ao primeiro; e g) uma nova doutrina de guerra, brasileira, estaria sendo desenvolvida com grande êxito.132 Se a instituição de um novo órgão repressivo com uma estrutura mais ágil, como a do DOI, permitiu evitar um grande desperdício de tempo, inevitável na modificação de estruturas mais consolidadas, havia nessa escolha o risco concreto de uma sobreposição de funções e de jurisdições de outras forças armadas, o que fomentaria a competição entre os órgãos repressivos já existentes e o DOI-CODI. Para minimizar esse risco, não apenas os oficiais das três Forças estavam representados como se procurava respeitar as áreas de jurisdição da Marinha e da Aeronáutica (portos e aeroportos).133

Alguns autores134 lembram o fato de que, entre a criação da Operação Bandeirante e a adoção do sistema DOI-CODI, houve uma importante intensificação das atividades da

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Operação Bandeirante (Organização do CODI/II Ex). 25/09/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 99, 7391.

131

FICO, Carlos. Como eles agiam, p. 213.

132

Apostila Sistema de Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 46-47.

133

Apostila Sistema de Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 21.

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MARTINS FILHO, João Roberto. Tortura e ideologia: os militares brasileiros e a doutrina da guerre révolutionnaire (1959-1974). In: CONGRESSO DE 2006 DA LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION. San Juan, Puerto Rico, 2006, p. 14. Agradeço ao professor a gentileza de ter me enviado uma cópia do artigo. SILVA, Tadeu Antonio Dix. Ala Vermelha, p. 220-221.

guerrilha urbana, notadamente o seqüestro do embaixador norte-americano, em setembro de 1969, do cônsul japonês, em março de 1970, e do embaixador alemão, em junho do mesmo ano. Segundo Tadeu Antonio Dix Silva, o número de organizações de esquerda elevara-se para doze. A despeito dos danos provocados pelos órgãos repressivos, a VPR implantara um campo de treinamento de guerrilhas no Vale do Ribeira, comandado por Carlos Lamarca. As ações de guerrilha urbana – expropriações de bancos e estabelecimentos comerciais – aumentara consideravelmente. Crescera, igualmente, o número de agentes repressivos mortos em confronto com os militantes de esquerda, assim como o de civis mortos nas ações. Agregam-se a isso as disputas e atritos entre os órgãos repressivos – CIE, CISA, CENIMAR e DOPS – no combate às organizações de esquerda, gerando conflitos e constrangimentos entre as altas hierarquias das três Armas e da Polícia Civil.135

A idéia de não retirar totalmente a iniciativa dos outros órgãos repressivos aumentava o leque de possibilidades do ponto de vista repressivo, mas diminuía consideravelmente a real centralização do sistema. É difícil saber até que ponto essa foi uma escolha bem refletida ou resultou da preocupação em não melindrar demasiadamente os membros de organismos pertencentes às outras Forças, uma vez que a superioridade adquirida pelo Exército nem sempre era ponto pacífico: “O primeiro conflito resultava da primazia concedida ao Exército não só sobre os poderes da República, mas também sobre as outras duas Forças Armadas”.136

Outra questão diz respeito à hierarquia dentro do próprio Exército. Para ser um órgão eficiente no combate às organizações de esquerda, o DOI-CODI precisava ter uma autonomia de ação nem sempre compatível com os diversos níveis da instituição:

a cadeia técnica, em muitos momentos, suplantaria outros comandos formais, e este salto era compreendido como parte do esforço pelo zelo com a segurança nacional. [...] Note-se também que nem sempre esta duplicidade de funções de cadeias fluiu de forma pacífica. Na verdade, por diversas vezes, foi motivo de atritos e divergências. De toda forma, foi esse recurso adicional de poder que deu à comunidade de informações as condições para se impor nas decisões políticas nacionais e no direcionamento da repressão.137

A despeito dos eventuais conflitos, porém, o conjunto de órgãos repressivos formava uma “comunidade” que compartilhava idéias, modo de funcionamento, funções e poder. Pelas

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SILVA, Tadeu Antonio Dix. Ala Vermelha, p. 221-222.

136

GASPARI, Elio. A ditadura escancarada, p. 177.

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características particulares não apenas da sua dinâmica, mas também de seus objetivos, acabaram por desenvolver uma postura autonomista. Evidentemente, tratava-se de uma autonomia relativa que, se em alguns momentos chegou a trazer alguns problemas para os níveis hierárquicos superiores, não se traduziu em descontrole de comando por parte do governo militar.138 A esse respeito, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – conhecido pelo codinome de doutor Tibiriçá – afirma categoricamente:

Dizer que as Forças Armadas não participaram da luta armada e que foi uma ação paralela de alguns militares é, no mínimo, um desrespeito ao comandante militar da área ao qual estávamos subordinados, ao ministro do Exército e até ao presidente da República, que havia assinado a diretriz que criara os DOI.139