4. Para além da televisão: o hipertexto
4.3 A empreitada virtual da TV Globo
4.3.1 O site de Afinal, o que querem as mulheres?
Desde 2006, de acordo com Médola e Redondo (2009), a TV Globo disponibiliza um site para cada uma de suas ficções em seu portal. As páginas das telenovelas costumam seguir um padrão proposto pela telenovela anterior, enquanto os sites das séries e minisséries, geralmente, são mais diversificados em questões de estrutura e mesmo de oferta de links. Diferente de outras emissoras estudadas pelos autores,
a Rede Globo destaca-se na confecção desses sites. Todas as suas narrativas ficcionais veiculadas na TV têm uma página própria e com conteúdo específico, não apenas para diferenciar um produto do outro, mas principalmente para atender às demandas da segmentação dos diferentes públicos (MÉDOLA; REDONDO, 2009, p.160).
Frente a essa colocação, a passagem de Scolari, abaixo, apoia esse processo na aceitação de que “[...] se cada texto gera seu leitor [...], por extensão, cada interface constrói seu usuário” (SCOLARI, 2008, p.225). Isto posto, a apresentação do site de Afinal, o que
querem as mulheres? 30 permite pensar como se dão os processos de interação nesse espaço. Não apenas as ficções dirigidas por Luiz Fernando Carvalho possuem elementos inovadores, mas também os sites dessas produções. Há por parte do diretor uma atenção especial ao prolongamento das narrativas na Internet. Um bom exemplo é o da minissérie
Capitu (2008)31 para a qual a TV Globo, em parceria com a agência LiveAD, idealizou o projeto “Mil Casmurros”. A ideia consistia em uma leitura coletiva de Machado de Assis; o livro Dom Casmurro foi divido em mil trechos e os internautas podiam selecionar um deles para fazer uma gravação de sua leitura e disponibilizar no site. A intenção era que ao final do projeto o livro completo estivesse disponível em vídeo e áudio na página. Em 2009, o projeto foi premiado com o Leão Relações Públicas, na categoria Novas Mídias, no Festival Internacional de Publicidade de Cannes.
A criação do blog de André Newmann, assim como “Mil Casmurros”, sinaliza a preocupação de Luiz Fernando Carvalho e da emissora em cortejar esse novo telespectador- internauta e lhe oferecer novas possibilidades de interação com a trama, além de um mero site com informações técnicas. Assim como os outros sites das ficções da TV Globo, a página oficial de Afinal, o que querem as mulheres? é hospedada pelo portal da Rede Globo e mesmo com o término da exibição do programa continua no ar32.
Enquanto a página carrega, o internauta é recepcionado pela figura de Sigmund Freud, personagem que acompanha André Newmann ao longo da trama, em que o jovem tem delírios com seu orientador e psicanalista, Dr. Klein, e o vê se transformando no próprio pai da psicanálise. Assim que o carregamento do site se completa, o boneco de Freud toca um sino (Figura 3) e o internauta, enfim, tem acesso à página da minissérie.
30 Disponível em http://especial.afinaloquequeremasmulheres.globo.com/
31 O site da minissérie Capitu ainda está no ar (http://capitu.globo.com/Capitu/0,,16142,00.html), mas não é mais possível acessar a página do projeto “Mil Casmurros”.
Figura 3. Carregamento da página de Afinal, o que querem as mulheres?.
Na página principal, o layout apresenta as ilustrações de Olaf Hajek, além de outras imagens e símbolos que, novamente, remetem ao feminino. Mais uma vez, o busto de Freud com o crânio aberto é a imagem principal. Assim como na abertura da minissérie, no site as ilustrações não são estáticas: os ramos das flores se iluminam e emitem sons semelhantes a correntes elétricas como se fossem terminações nervosas – ou, mais especificamente, sinapses – do próprio Freud; as pernas femininas se balançam; a borboleta no canto esquerdo bate as asas e a pedra preciosa, na parte superior, parece sangrar (Figura 4). Essa reunião de movimentos e imagens ainda é acompanhada por um ruído de várias vozes, como em um burburinho que pode ser silenciado quando o internauta clica na imagem de toca-discos e dá início à execução da música “Nome à pessoa”, tema da trama. Também é interessante a possibilidade do internauta de “arrastar” o site, como se as ilustrações não tivessem fim.
Figura 4. Página inicial do site da minissérie.
Com base nas três gerações de sites vistas anteriormente, propostas por Siegel (SCOLARI, 2008), poderíamos pensar em características de cada uma delas no site da minissérie. Visto que as categorias não são excludentes, a princípio, é possível afirmar que a primeira e segunda gerações de Siegel já foram superadas em questões estéticas nos sites da TV Globo. Os sites de primeira geração têm um layout bastante simples, com estrutura linear e poucas imagens, ou seja, limitado de um ponto de vista gráfico. A segunda geração apresenta uma interface um pouco mais elaborada – fundo colorido, imagens e menu de opções -, mas ainda assim, restrita.
As particularidades do desenho avançado e a possibilidade de retoques com programas de edição de imagem dão à página de Afinal, o que querem as mulheres? características da terceira geração de sites. Entre as propriedades dos sites de terceira geração está a hegemonia do desenho sobre a tecnologia e a utilização de metáforas (SCOLARI, 2008, p. 222) conceitos visualmente aplicados à página em questão. Na quarta geração, observa-se o fator que mais chama a atenção no site de Afinal, o que querem as mulheres?: o deslocamento da página. Nos sites de terceira geração, o layout ainda é muito semelhante ao de uma página impressa de jornal, livro ou revista, por sua vez, nos sites de quarta geração esse formato é rompido e a página passa a assumir novas formas, ou não-formas, como em nosso caso de estudo.
Mais adiante, será possível perceber, no entanto, que apenas a página principal do site da minissérie configura-se como tal. As outras seções poderiam ser encaixadas na categoria de sites de terceira geração, preservando um estilo de página mais formal e linear.
As seções do site estão dispostas logo na página principal e o internauta pode acessá- las com um clique. Durante a exibição da minissérie, eram nove os links oferecidos na página inicial (além dos links para as seções da Figura 4, havia ainda as seções Episódios e Vídeos). Os links que permaneceram disponíveis ao término da exibição da trama foram:
Personagens: A seção disponibiliza o perfil de todos os personagens da minissérie dispostos em ordem de protagonismo na trama; André e Lívia são os primeiros da lista.
Figura 5. Seção Personagens
Bastidores: Há entrevistas (algumas com vídeo) com o diretor e os atores da minissérie, além de fotos dos bastidores das gravações.
Figura 6. Seção Bastidores
A série: É possível assistir a alguns trechos dos capítulos, visualizar fotos dos ensaios do elenco e acessar, também, as entrevistas hospedadas na seção Bastidores.
Figura 7. Seção A série
O que querem as mulheres?: A seção abriga duas enquetes. A primeira, para o público feminino, questiona o que querem as mulheres. A segunda, para os homens, pergunta o que os homens pensam que as mulheres querem. Entre as opções; amor e romance, sexo, casamento, filhos, ser a mais bonita, o fim da celulite, elevação espiritual etc.
Figura 8. Seção O que querem as mulheres?
Blog de André Newmann: O link direciona para o blog do protagonista da trama. Mais adiante, trataremos especificamente do blog, visto ser nosso objeto primeiro.
A seção Créditos, mesmo durante a exibição da minissérie e após o último acesso ao site33, exibia a tarja “Em breve” na tentativa de acesso ao link. E Frases de Freud, mesmo durante a exibição da minissérie, e após o último acesso ao site34, não apresentava conteúdo disponível.
Em questões de interatividade, Lopes et al (2009) definem três diferentes formas interativas possíveis:
1) interatividade passiva: quando o usuário consome o conteúdo sem apresentar