2 O ASSÉDIO MORAL E O CASO JULGADO NO RESP 1286.466/RS
2.4 O sofrimento no trabalho e a violência simbólica
Para Pierre Bourdieu o agente assediador é dotado de um conjunto de símbolos, signos que o permite situar em um determinado espaço social, o qual dá-se o nome de capital simbólico, ou seja, o agente público que controla o capital simbólico impõe aos dominados sua vontade, de forma a se manter no poder e inibir quaisquer oposição. Essa forma de imposição, Bourdieu denomina de violência Simbólica. No caso paradigma narrado, o prefeito utilizou o seu poder, sua dominação para impor um castigo a servidora, com a finalidade de demonstrar força e evitar novas ocorrências. A ideia de dominação era de tal forma agressiva que o agente assediador impôs à assediada a exposição vexatória, pois a colocou a vista de todos os demais colegas de trabalho (BOURDIEU, 1989).
É uma violência suave, insensível, invisível as suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento (BOURDIEU, 2002).
4 BRASIL. Controladoria-Geral da União. Denúncias. Disponível em: cgu.gov.br/denuncias. Acesso em: 2 out.
2020. [Página não disponível em 2 out. 2020].
5 PRAZERES, Leandro. Gritos e agressão com café quente: pesquisa revela assédio moral no Itamaraty.
Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2017/03/15/gritos-e-agressao-com- cafe-quente-pesquisa-revela-assedio-moral-no-itamaraty.htm. Acesso em: 2 out. 2020.
As ações que são consideradas simbólicas não demandam o emprego de violência física ou de qualquer outro artifício que consuma energia, ela é suave, invisível, aparentemente natural, visando dissimular e transfigurar as relações de força subjacentes de modo tal que se possa ignorar, no sentido de não questionar e, ao mesmo tempo, reconhecer, dada sua legitimidade, a ação própria de violência exercida (BOURDIEU, 2002).
Segundo Axel Honneth o reconhecimento das violências simbólicas, ou assédio moral, constitui uma proteção social contra o rebaixamento que afeta o autorrespeito moral do indivíduo. Assim, esse reconhecimento preserva a integridade moral do individuo ao combater normativamente qualquer forma de desrespeito ou lesão decorrente do rebaixamento e da humilhação social. O autor afirma, ainda, que uma das consequências desenvolvidas pelo rebaixamento moral é o sentimento de vergonha social, onde o conteúdo emocional caracterizado pelo rebaixamento do sentimento de valor individual atingido, criando uma autoimagem depreciativa que neutraliza e mina os ideais individuais como cidadão (HONNETH, 2011).
A combinação entre ambiente insalubre e pressão psicológica pode levar à deterioração do local de trabalho, ao surgimento de doenças profissionais das mais diversas e a acidentes de trabalho, com efeitos físicos, psicológicos, sociais, familiares e no ambiente de trabalho, tais como:
Depressão, ansiedade, insônia ou sonolência excessiva, palpitações, hipertensão arterial, distúrbios cardiovasculares, tremores, sensações de falta de ar, de fadiga, irritabilidade, dores de cabeça, perturbações digestivas, dores abdominais, crises de choro e diminuição da libido são alguns dos males sofridos pela vítima do assédio moral. Vêm sendo observados, ainda, casos de alcoolismo, anorexia, transtornos, síndrome do pânico, síndrome de Burnout caracterizada pelo desgaste físico e emocional associado ao trabalho profissional, que acomete principalmente pessoas que trabalham em contato direto com pessoas, expostos ao estresse crônico. (SANTOS; FERNANDES, 2010)
Além disso, o prejuízo também é experimentado por toda a coletividade, já que o servidor público que sofre assédio moral no trabalho tem baixo desempenho, comprometendo a qualidade dos serviços. O servidor que apresenta quaisquer dos transtornos acima referidos, poderá entrar com pedido de licença para tratamento de saúde e com isso todo o setor sofrerá os reflexos da inatividade.
Por isso, é necessário que medidas preventivas sejam tomadas o mais breve possível, porque a punição é importante, tem caráter pedagógico, no entanto, a prevenção é muito mais efetiva do ponto de vista da saúde física, psíquica do trabalhador, em face da irreversibilidade dos efeitos do assédio moral.
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3 CONCLUSÃO
Apresentada todas as premissas, é possível entender que a decisão do STJ é de suma importância, uma vez que reconhece a gravidade da conduta do agente assediador, dando uma punição justa.
Contudo, a decisão não resolve determinados problemas dentro do campo burocrático, como é possível perceber pela análise do sociólogo Pierre Bourdieu, para isso é necessário entender a lógica do sistema e analisar as práticas institucionalizadas que tornam os servidores mais vulneráveis ao assédio moral, buscando combatê-las.
Pela análise do conteúdo verifica-se que o ser humano não é mau por sua natureza, mas sim uma pessoa comum incapaz de pensar, assim, levado a situação fática poderá cometer atrocidades sem que isso importe em ausência de caráter, de moral e de ética.
Vale salientar que o ambiente conduz o indivíduo a determinadas atitudes, que podem ser egoístas, quando perde o interesse pela solidariedade e não se importa com o sofrimento do próximo, ou quando é simplesmente um dente na engrenagem do sistema, que ocupa determinado posto justamente para que não possa pensar e assim manter o funcionamento do campo burocrático.
O campo burocrático conduz as ações do indivíduo e não o inverso. O indivíduo é apenas parte do sistema, o espaço impõe sua lógica a todos os agentes que nele penetram, chamado de campo por Bourdieu. Cada campo tem seus princípios, seus costumes, sua identidade e sua divisão de tarefas, determinadas por agentes hierarquicamente superiores e, de acordo com a repetição aquela conduta acaba se tornando aceita pela comunidade como se natural fosse.
Além disso, há o processo de dominação, em que o agente precisa manter sob seu controle determinados trabalhadores e para isso utiliza-se de todos os mecanismos que estão ao seu alcance, independentemente das consequências ao trabalhador e ao ambiente de trabalho. O poder de dominação, às vezes, está tão enraizado que o agente acredita que sua conduta é legítima, que é necessária para manter a ordem e o funcionamento do sistema, mesmo que não seja a mais adequada.
Por esta razão, o assédio moral deve ser considerado um problema de saúde pública, já que causa grandes danos a saúde física e psicológica do trabalhador assediado, com consequências irreversíveis. Criar fatores de riscos para desenvolver ações preventivas é mais eficaz do que o próprio tratamento do dano.
REFERÊNCIAS
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BOURDIEU, Pierre; LOYOLA, Maria Andréa (Org.). Pierre Bourdieu entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
GENTILE, Maria. II mobbing: problemi e casi pratici nel lavoro pubblico. Milano: Giuffrè Editore, 2009.
HABERMAS, Jürgen. A ética da discussão e a questão da verdade. 3. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2016.
HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2011.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução e notas de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1964.
MINASSA, Alexandre Pandolpho. Assédio moral: no âmbito da administração pública. Leme: Habermann, 2012.
OHLWEILER, Leonel Pires. O assédio moral na administração pública, dignidade humana e improbidade administrativa: questões hermenêuticas sobre a efetividade do direito administrativo. Direitos Fundamentais e Justiça, v. 8, n. 27, abr./jun. 2014.
PRAZERES, Leandro. Gritos e agressão com café quente: pesquisa revela assédio moral no Itamaraty. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-
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SANTOS, João Domingos Gomes (coord.); FERNANDES, Geralda (org.). Assédio moral no serviço público: não pratique, não sofra, denuncie. Brasília: CSPB, 2010.
STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso: constituição, hermenêutica e teorias discursivas. 4. ed.São Paulo: Editora Saraiva, 2012.
ZIMBARDO, Philip George. O efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más. Rio de Janeiro: Record, 2012.
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