3 METODOLOGIA DE TRABALHO
3.3 O software TextSTAT
Além do processo convencional que cumpre as fases da Análise de Conteúdo previstas na literatura, adotei software TextSTAT na fase de codificação da análise.
Trata-se de um aplicativo gratuito, desenvolvido pela Universidade Livre de Berlim e disponível na internet para Windows, Linux e MacOS X, que fornece dados estatísticos sobre corpus de pesquisa, como a análise da frequência de termos, a incidência de concordância com conceitos-chave mais recorrentes e a extração de citações de falas dos entrevistados a partir do corpus utilizado na análise. Deste modo, foi concebido e experimentado um método de utilização do TextSTAT que atende ao proposto pela Análise de Conteúdo, que consistiu em:
(1) identificar a recorrência de conceitos-chave relacionados com a pesquisa no corpus analisado, auxiliando na identificação de indicadores e de referências conceituais;
(2) observação de citações (trechos) que contextualizam a verbalização dos conceitos chave pelos entrevistados, recurso que auxilia na preparação e organização do corpus pesquisado;
(3) leitura e interpretação das citações à luz do referencial teórico de inserção de tecnologias digitais no currículo da educação básica, auxiliando na interpretação do conteúdo e sua triangulação com o referencial;
(4) aproximações dos fenômenos relatados e interpretados com elementos teóricos que compõem o referencial bibliográfico utilizado.
O funcionamento do TextSTAT ocorre criando, primeiramente, fora do programa, arquivos de texto que contém exatamente o que se quer analisar (por exemplo, um arquivo contendo apenas a resposta da Questão 16 das entrevistas, ou um arquivo contendo o Projeto Político-Pedagógico da Escola E1). Com este arquivo devidamente organizado no computador (e nomeado, como Questão 16, por exemplo), insere-se no TextSTAT.
Na tela inicial do software, o primeiro passo é criar um corpus, que é um arquivo de computador que será lido pelo programa, contendo os textos que foram organizados. Isto é feito clicando na opção “Novo Corpus” e salvando o arquivo onde o pesquisador desejar (neste caso, com o nome Corpus Questão 16, ou qualquer outro nome que facilite a organização). Depois, é possível selecionar a opção “Adicionar Arquivo Local”, e, na janela que surge, escolher o
arquivo de texto que foi organizado. Neste momento, o TextSTAT inclui no arquivo do corpus criado o texto que separamos. Ao clicar no botão “Frequência de Palavras”, o software nos mostra estes dados, relativos ao texto. Veja abaixo a figura 5, ilustrando o programa neste momento.
Figura 5 – Frequência de Palavras no TextSTAT
Fonte: Do autor
Na janela ilustrada pela Figura 5, podemos observar todas as palavras presentes no texto, em ordem de frequência e, ao lado direito destas, um número que indica a frequência em que aparecem no texto. No canto direito, é possível selecionar várias opções interessantes: como a organização de palavras acontece (por ordem de frequência, alfabética, reversa), a frequência mínima e máxima das palavras (podemos, por exemplo, desconsiderar palavras que não aparecem ao menos 3 vezes, ou que aparecem mais de 8 vezes), não diferenciar palavras com letras minúsculas e maiúsculas (tecnologia e Tecnologia, por exemplo) e, finalmente, podemos pesquisar termos específicos. Na janela da figura 6, preenchi a caixa de pesquisa com a palavra “tecnologia”. Ao clicar em “Lista de Frequência”, abaixo desta caixa, atualizamos as preferências que selecionamos e também pedimos ao TextSTAT que procure pelas palavras indicadas, caso tenhamos digitado alguma. Neste caso, como digitei “tecnologia”, o programa
retorna a seguinte tela (note que o programa procura todas as palavras que contenham pelo menos a sequência de letras “tecnologia”, ou seja, o acréscimo do “s” em “tecnologias” também é considerado):
Figura 6 - Tela do TextSTAT após a busca pela palavra “tecnologia”
Fonte: Do autor
Deste modo, é possível procurar termos específicos que se relacionam com o tema pesquisado, o que facilita muito o trabalho de análise, evitando que termos relevantes se percam na imensidão numérica de todas as palavras do corpus.
Outra função relevante do programa é a aba Citação (quarta aba, podendo ser observada nas duas figuras anteriores). Ao clicar duas vezes em uma palavra na aba Formas (a aba onde observamos as frequências numéricas das palavras), o TextSTAT mostra, na aba Citação, o(s) trecho(s) onde a palavra pode ser encontrada. Deste modo, é possível entender o contexto onde as palavras foram utilizadas, o que pode ser muito útil para diferenciar palavras que podem ter significados diferentes em contextos distintos (por exemplo, em um dos textos, “tecnologia”, em alguns trechos, se referia diretamente às TDIC, ao computador e ao celular, enquanto em outras partes do texto, se referia aos avanços tecnológicos de nossa época, de forma geral). Ilustrado na Figura 7, abaixo, está o resultado de quando cliquei duas vezes na palavra “ensinar”
em um dos Corpus, e o TextSTAT mostrou, como explicado, a citação e o local onde salvei o arquivo do texto.
Figura 7 - Janela do TextSTAT, evidenciando o trecho onde aparece a palavra “ensinar” selecionada previamente na aba Formas
Fonte: Do autor
Conforme apresentado, o TextSTAT, portanto, é um programa simples, que não requer componentes sofisticados no computador (ou seja, pode ser utilizado facilmente em computadores menos potentes), que fornece diversas informações e possibilidades para análises de textos de tamanhos variados.
A lógica do uso do TextSTAT nesta pesquisa se baseia na seguinte premissa: quando lemos uma frase ou texto de maneira linear e de maneira constante, é frequente que as interpretações surjam de maneira rápida e fluida (em uma língua nativa). Porém, ao fazer isto mecanicamente, de maneira repetitiva (para várias respostas de numerosas questões), é possível e comum que algumas ideias implícitas e não tão claras à primeira vista não sejam percebidas pelo leitor. O olhar não linear facilitado pelo TextSTAT (a partir de conceitos e seus contextos de argumentação dos entrevistados) permite novas visões sobre a fala dos participantes,
aprimorando e aprofundando a análise inicial, num processo de recuperação e prospecção de significados imersos no conteúdo.
Observou-se que, com a organização realizada com suporte do software, a fase de codificação da Análise de Conteúdo foi acelerada e foi possível estruturar melhor as interpretações e reflexões acerca das percepções dos participantes sobre o fenômeno investigado. Deste modo, com o método desenvolvido, a aplicação do TextSTAT facilitou a interpretação e análise exaustivas dos dados estudados.
Tendo em mente os processos de Análise de Conteúdo e de uso do TextSTAT, e utilizando também como base o exemplo de Mendes e Miskulin (2017), devidamente adaptado para as particularidades desta pesquisa (como o uso do computador e do software de análise), apresento a seguir a descrição do percurso da aplicação destes métodos no tratamento dos dados obtidos na pesquisa, ou seja, o que e como foi realizado o processo de análise, neste caso.