• Nenhum resultado encontrado

O sonho de Pompeu com seus triunfos passados

No documento A adivinhação na Pharsalia de Lucano (páginas 91-95)

3.3 A adivinhação e os sonhos

3.3.2 O sonho de Pompeu com seus triunfos passados

Antes de morrer, Pompeu tem outro sonho, que o faz lembrar um triunfo do passado124. Tal sonho acontece antes do confronto decisivo para a batalha e logo após a natureza

122 Donc, bien plus que d'un songe externe, il s'agit d'une projection psychologique des tourments qui assaillent

l'âme de Pompée au moment où il quitte l'Italie.

123 Le fait que Pompée croie voir le fantôme de Julie sortir de terre auprès de son bûcher laisse entendre que le

rêve n'est qu'un fantasme du héros dont l'âme est obsédée par le souvenir de la mort de sa première femme. Pompée en effet est en mer, elle ne pourrait se manisfester de cette manière. Mais la fin du rêve entretien l' ambiguïté, puisque l’ombre de Julie échappe aux embrassements de Pompée et disparaît (v. 35), suivant un “topos” courant dans l’épopée.

124 Esse mesmo sonho é encontrado em outros autores, como afirma Bouquet (2001, p. 87): “O episódio não é

90

aparecer como contrária aos acontecimentos iminentes:

Segnior, Oceano quam lex aeterna vocabat, luctificus Titan numquam magis aethera contra egit equos cursumque polo rapiente retorsit, defectusque pati voluit raptaeque labores lucis, et attraxit nubes, non pabula flammis, sed ne Thessalico purus luceret in orbe.(7.1-6) Mais lento, o Oceano, que a lei eterna evocava, funesto Titã nunca guiou mais aéreo os cavalos contra o curso e o tendo o céu tomado desviou privado de sofrer e tomado pelos trabalhos revirou

em luzes e puxou as nuvens, não como as pastagens em chamas, mas para que o claro não iluminasse na terra tessálica.

Em seguida, Lucano ressalta que algo diferente de toda a inconformidade da natureza vai acontecer; porém, ao iniciar o relato do sonho com at, marcando um posicionamento contrário ao que foi dito antes, mostra que essa manifestação onírica é o último momento de felicidade para Magno. Além disso, apresenta esse sonho como uma vana imagine, indicando a sua natureza como semelhante ao processo onírico anterior, como se pode verificar:

At nox felicis Magno pars ultima vitae

sollicitos vana decepit imagine somnos. (7.7-8)

Mas a noite, o último momento da vida feliz para Magno, enganou os agitados sonhos com uma imagem vazia.

Assim, observa-se que Pompeu vivencia os últimos momentos de uma vida feliz (felicis vitae) através de um sonho; pois o poeta julga que o general era feliz e, após aquele momento onírico, só viveria situações que destruiriam esse sentimento.

Logo, em sonho, Pompeu se vê dentro do teatro pompeiano ovacionado pelo povo romano. Há uma grande descrição de como se apresenta a comemoração do triunfo, o comportamento do povo, a decoração do teatro, também a vestimenta e a sensação de bem-estar e glória do Magno; uma imagem muito viva, através da qual Lucano mostra o quanto Pompeu é querido pelo povo romano e como é digno de louvor.

Nam Pompeiani visus sibi sede theatri innumeram effigiem Romanae cernere plebis attollique suum laetis ad sidera nomen vocibus et plausu cuneos certare sonantes; qualis erat populi facies clamorque faventis, olim cum iuvenis primique aetate triumphi

Floro (4, 2, 45), e sem dúvidas ele remonta a Tito Lívio” (L’ épisode n’est pas inventé par Lucain, mais on le retrouve chez Appien (Bell. Ciu. 2, 69), Plutarque (Vit. Caes. 42; Vit. Pomp. 68); Florus (4, 2, 45), et sans doute remonte-t-il à Tite-Live).

91

post domitas gentes, quas torrens ambit Hiberus, et quaecumque fugax Sertorius inpulit arma, vespere pacato, pura venerabilis aeque quam currus ornante toga, plaudente senatu, sedit adhuc Romanus eques. (7.9-19)

Pois pareceu-lhe ver na sede do teatro pompeiano o inumerável semblante da plebe romana se agitar e erguer, feliz, o seu nome aos céus

com gritos e disputar as bancadas sonoras com aplauso, tal como era a fisionomia do povo e o grito de quem o estima, um dia, quando jovem, na idade do seu primeiro triunfo, após ter dominado os povos que cerca o Ebro torrente, e todas aquelas armas que lançou o fugitivo Sertório, pacificado o Oriente, igualmente venerado com a toga simples que embeleza o carro, aplaudido pelo Senado,

sentou-se o cavaleiro romano.

Essa visão de Pompeu ovacionado pelo povo romano refere-se à caracterização dele presente no primeiro livro, quando o poeta começa a descrever Pompeu. Nesses versos, verifica- se a ligação direta com tal sonho através do contato com o povo (volgus, popularibus), a indicação dos aplausos (plausu) e do local, o teatro de Pompeu (theatri):

multa dare in volgus, totus popularibus auris inpelli, plausuque sui gaudere theatri, (1.132-133) Dá muitas coisas ao povo, por inteiro para ouvi-los lança-se e alegra-se com os aplausos no seu teatro.

Depois disso, verifica-se uma reflexão sobre a situação sentimental vivenciada por Pompeu e o sonho apresentado como reflexo do contrário da sua realidade.

[…] seu fine bonorum

anxia venturis ad tempora laeta refugit, sive per ambages solitas contraria visis vaticinata quies magni tulit omina planctus, seu vetito patrias ultra tibi cernere sedes sic Romam Fortuna dedit. (7.19-24) [...] se ao fim da venturança

angustiado pelo futuro refugiou-se nos tempos felizes, ou se o repouso por habituado enigma profetizando o contrário às visões trouxessem presságios de grande dor, ou se a ti, impedido de ver as moradas pátrias além, a Fortuna assim concedeu Roma.

A inclusão das conjunções condicionais (seu, sive) revela uma oposição entre o que foi visto no sonho e a realidade de Magno como tempora laeta e anxia venturis, respectivamente, e o passado e o presente dele. Essa reflexão também evoca a vertente de que os sonhos são ambíguos e enigmáticos (per ambages solitas), e assim o sonho tido repleto de

92

felicidades, com base numa situação passada, na verdade revela o contrário, um presente de muito tormento. E continua ao mostrar esse momento como uma última oportunidade de Pompeu ver Roma, contrapondo-se à realidade de não poder estar lá, e mais uma vez a presença de um passado glorioso e de um presente angustiante colocados em cena. Assim, nesse momento, Lucano expressa um diálogo profícuo entre o passado e o presente de Pompeu. Ainda sobre esses versos, Bouquet (2001, p. 89) estabelece uma síntese da questão apresentada pelo sonho:

Lucano toma então a palavra para comentar seus sonhos que ele acaba de relatar, como um historiador que se interroga sobre a significação de um fato que ele considera como autêntico. Ele dá três explicações possíveis; a primeira e a mais natural que tinha já sido esboçada no verso 8; durante seu sono, o pensamento de Pompeu desviou-se de suas angústias para se refugiar em seu passado feliz (v. 19-20); a segunda fez do sonho de Pompeu um sonho alegórico de um simbolismo invertido; o caráter feliz das visões oníricas tinham anunciado as desgraças futuras (v. 21-22); a terceira é mais original: através do sonho o destino tinha permitido a Pompeu encontrar uma última vez a cidade de Roma, que não lhe era permitido rever (v. 23-24).125

Depois da oposição entre sonho e realidade (passado e presente), Lucano apresenta Roma chorando a morte de Pompeu, caso ele tivesse morrido em sua pátria, podendo receber todas as honras fúnebres e os lamentos do povo; nesse caso, uma visão futura ideal de como aconteceria tal fato:

Tu velut Ausonia vadis moriturus in urbe, illa rati semper de te sibi conscia voti

hoc scelus haud umquam fatis haerere putavit, sic se dilecti tumulum quoque perdere Magni. Te mixto flesset luctu iuvenisque senexque iniussusque puer; lacerasset crine soluto

pectora femineum, ceu Bruti funere, volgus. (7.33-39) Tu vais como se fosse morrer na cidade ausônia,

ela, consciente de si por sempre te conceder os votos devidos, não julgou, algum dia, esse crime ser fixado pelo destino e nem assim perder de si também o túmulo do amado Magno. Por ti o povo teria chorado, misturando o lamento tanto do jovem quanto do velho e até da criança espontânea; teria lacerado

os seios da mulheres com os cabelos soltos, como no funeral de Bruto.

Além disso, esse sonho é considerado como retardante e as explicações posteriores

125 Lucain prend alors la parole pour commenter leur songe qu' il vient de relater, en historien qui s’interroge sur

la signification d’un fait qu’il considère comme authentique. Il en donne trois explications possibles; la première et la plus naturelle avait déjà été esquissée au vers 8: pendant son sommeil la pensée de Pompée s'est détournée de ses angoisses pour se réfugier dans le passé heureux (v. 19-20); la seconde fait du songe de Pompée un songe allégorique au symbolisme inversé; le caractère heureux des visions oniriques auraient annoncé les malheurs à venir (v. 21-22); la troisième est plus originale: par le biais du songe le destin aurait permis à Pompée de retrouver une dernière fois la ville de Rome qu' il ne lui était pas permis de revoir (v. 23-24).

93

do narrador aumentam a tensão dramática no poema, reforçando a imagem tristonha de Roma por causa da morte de Pompeu em terras estrangeiras, como conclui Narducci (2002, p. 293- 294):

O sonho tem assim (como era na tradição da épica) uma função ‘retardante’ com respeito à narração do evento principal desse livro do poema, a batalha da Farsália: não por acaso a fantasia onírica de Pompeu se prolonga enquanto o sol se esforça em adiar o momento do próprio levantar-se. Mas esse ‘retardo’ não atende, como muito frequentemente acontece na épica, para abrandar a tensão narrativa; aliás, todas as três, as diferentes explicações do sonho fornecidas pelo narrador, como também o seu sucessivo comentário em forma de apóstrofe, introduzem importantes elementos de tensão dramática, os quais criam na mente do leitor um estado de expectativa angustiada que o predispõe ao relato do massacre de Farsalos.126

No documento A adivinhação na Pharsalia de Lucano (páginas 91-95)