• Nenhum resultado encontrado

O sonho

No documento Download/Open (páginas 51-55)

Antônio Mendes Maciel sempre contava um sonho em suas prédicas. No sonho, ele ouvia uma voz que lhe dizia:

Sairás, Antônio, pelo sertão, como teu xará de Lisboa, a fazer penitência, pregando meu evangelho e as escrituras sagradas. Sofrerás perseguição dos maus e dos hereges,

que retribuirás com benefícios derramados por onde passares. Terás como Pedro, Paulo e todos os meus santos discípulos, o meu povo que te seguirá e de que será o guia. Encher-te-ei de poder na terra e serão tu e teus adeptos cheios de graças na vida eterna (BENÍCIO

apud HOORNAERT, 1995, p.18).

O sonho revela, a Antônio Vicente, sua missão. Não é nenhum teólogo que lhe traça o caminho, nem a leitura da Bíblia que lhe orienta: ele dirige seus passos de acordo com o sonho que lhe vem direto de Deus. Sonho que revela o que a lógica teme descobrir. Assim como Paulo conhece sua missão através de um sonho (o sonho de Damasco) e Maria recebe “em sonho” a visita do anjo Gabriel, Antônio Vicente ouve, em seu sonho, Jesus lhe dizer que a sua missão é a de “sair pelos sertões e fazer penitência”. O Conselheiro passa a se colocar imediatamente na presença de Pedro e de Paulo (HOONAERT, 1998, p. 31).

A missão de Antônio Vicente, além de compreender a liderança religiosa, também compreendia a resolução de questões práticas da vida diária, a solução de problemas sócio-políticos, econômicos. Missão típica e legítima do messias, conforme o messianismo: o messias salvador ou redentor, uma individualidade providencial ou carismática, que viria intervir de forma extraordinária, para o surgimento de uma era de plena felicidade espiritual e social (QUEIROZ, 1965, p. 213).

À medida que a fama crescia, também cresciam os inimigos. Com a proclamação da República, o movimento liderado por Antônio Vicente passou a se manifestar abertamente, encarando a mudança como prenúncio do fim do mundo. O movimento era marcado pela espera do milênio que, segundo o imaginário popular, aproximava-se com o fim do século. Este sempre foi um tema

religioso essencial para os camponeses de todas as regiões brasileiras. A proclamação da República apenas definira um quadro, ainda mal esboçado, de usurpação e de injustiça, aprofundando o domínio da “lei do cão”, da ordem social do mal.

Para os seguidores do Conselheiro, a monarquia era simplesmente o oposto da República, era a “lei de Deus”, a ordem social do bem. Antônio Maciel considerava que a proclamação da República era apenas a consumação da iniqüidade de alguns coronéis, senhores de escravos, a vingança contra a monarquia que, pela mão da Princesa Isabel, decretara um ano antes, a abolição da escravatura, “que não fez mais do que cumprir a lei do céu porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ser reduzido o ser humano [...]” (MACIEL

apud NOGUEIRA, 1974, p.72).

No início o Conselheiro andava só, mas, logo, foi encontrando fiéis por onde passava. Tentou se fixar em Itapicuru, onde fundou o arraial de Bom Jesus. Este quase se tornou uma cidade. Neste arraial, ficou aproximadamente doze anos (QUEIROZ, 1965, p. 203).

No caso de Antônio Conselheiro, não foi ele quem assumiu o papel de divindade, foi o grupo de crentes que lhe atribui este papel. Ele mesmo permaneceu como no peristilo5, como um enviado, quando muito, como um anjo.

A coletividade foi mais adiante, encarando-o como portador de uma essência sobrenatural. Que por esta razão fora denominada “Santuário”, a casinhola fortificada que lhe servia de morada. Desse modo, foram traçados os limites de

5 (Do gr. perístylon, pelo lat.perstylu.)Galeria de colunas em volta de um pátio ou de um edifício.

FERREIRA, Aurélio. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro. Ed. Nova Fronteira, 1986.

seu poder de “delegado do céu”. Este comportamento dos seguidores do Conselheiro está na essência do Messianismo.

Referindo-se aos republicanos e aos fazendeiros, dizia Antônio Conselheiro que:

Os homens ficaram assombrados com tão belo acontecimento, porque já sentiam o braço que sustentava o seu trabalho, donde formava seu tesouro, correspondendo com ingratidão e insensibilidade ao trabalho que desse povo recebiam [...] (LEVINE, 1998, p. 05).

Entrou sertão afora seguido pelos fiéis, procurando, no deserto dos chapadões que foram desolados pela seca, um lugar propício para fundar a nova Jerusalém, onde os privilegiados que o seguiam poderiam esperar tranqüilos pelo anunciado Juízo Final. A cidade de Canudos seria o lugar de espera e tudo o que estava acontecendo, inclusive, a guerra contra os sertanejos, era apenas o conjunto de sinais que anunciava o fim dos tempos. “Deus estaria esperando a conversão do povo para instalar a monarquia novamente”, esta era a visão do Conselheiro, pois segundo ele, a República acabaria brevemente. Esta nova monarquia era aquela, dos redimidos, instituída antes das trevas, e se instalaria com o retorno de Dom Sebastião, rei de Portugal desaparecido na batalha de Alcácer Kibir, no combate aos mouros, no século XVI (HERMAN, 2000, p. 47).

Existiam diferenças significativas entre a interpretação de Conselheiro acerca da situação e a interpretação de seus seguidores. O primeiro fazia uma interpretação política e de classe do processo que estava atingindo o povo,

enquanto seus seguidores incorporavam uma esperança messiânica e escatológica, certamente propiciada e justificada pelo próprio Conselheiro.

Outros motivos também levaram o Conselheiro a esconder seu povo do governo republicano. Governo que era considerado pelo movimento como o Anticristo. Entre estes motivos estão relacionados: o rompimento do Estado brasileiro com a Igreja Católica, que se deu mediante a adoção da nova Constituição, a qual instituía o casamento civil e, ainda, a cobrança de taxas abusivas que pioravam, ainda mais, a situação financeira dos sertanejos.

No documento Download/Open (páginas 51-55)

Documentos relacionados