2 PODANDO OS GALHOS
2.2 O sonho: inspirando reflexões e percursos
O sonho ocupa um lugar protagonista na construção da civilização ocidental. No Egito antigo, como nos conta o Antigo Testamento, no Livro do Gênesis, se não fosse por José, o filho de Jacó, e seu dom de "interpretar os sonhos", sua família e ele mesmo pereceriam. José conquistou a confiança do Faraó ao interpretar seus sonhos e, também, tornou-se um símbolo das religiões judaico-cristãs. No Novo Testamento, no Evangelho de Mateus, outro José, Pai de Jesus Cristo e Patrono e Protetor da Igreja Católica, a partir de sonhos com o Anjo divino, acolhe seu chamado na História da Salvação Cristã1.
A Tradição Cristã manteve esse caráter de sinais, profecias e avisos como algo a ser cultivado, iluminado pelo dom do discernimento dos Espíritos, cuja função seria separar o Divino, do humano e do diabólico. Interpretado por um orientador espiritual que teria o papel de guia do crescimento espiritual. Ainda hoje, os cristãos que seguem a tradição jesuítica, ao praticarem os exercícios espirituais, são orientados para antes do repouso noturno, realizar um exame de consciência e, após, fazer a leitura de textos sagrados referente ao dia subsequente. O objetivo é meditar sobre aquelas palavras para que, durante o sono e, eventualmente, pelos sonhos, a palavra sagrada possa ser inspiradora.
Por meio do sonho, a Dona Maria Santana, cacica e fundadora da aldeia Lagoa Quieta, do Território Indígena Araribóia, tia da Sônia, recebeu sua missão de ser parteira, aos quatorze anos de idade. Contou-me que o sonho foi como um aviso de que faria o parto de sua própria mãe. Ela se tornou a mais reconhecida parteira da região, realizou 751 partos. Surpreendentemente, dadas as condições em que viviam, nenhuma dessas mulheres morreu no parto. E foi por causa desse seu extraordinário dom, que recebeu o
1
Primeiro sonho (Evangelho de Mateus, 1:20-21): o anjo pede a José que não tenha medo de desposar Maria, pois o filho que ela carregava fora gerado pelo Espírito Santo; segundo sonho (Evangelho de Mateus, 2:13): José é alertado para fugir para o Egito com a sua família; terceiro sonho (Evangelho de Mateus, 2:19-20): no Egito, José recebe a notícia de que Herodes morreu e que é seguro retornar; quarto sonho (Evangelho de Mateus, 2:21): José é avisado para ir a Nazaré, na Galileia.
convite para ir morar no Território Araribóia e, posteriormente, fundar a aldeia Lagoa Quieta, como me contou, em um de nossos encontros:
Quem nasceu pra ser alguma coisa, vai ser determinado; quem nasceu para ser estudante, para ser advogado. Aí o meu dom era de conhecimento. Eu tenho um dom de muito conhecimento, muito mesmo. E para mim ser parteira foi através de um sonho. Alguém veio me dizer no sonho. Eu tinha catorze anos, quando eu fiz o primeiro parto, e foi da minha mãe. Aí eu estava dormindo, e uma pessoa disse: acorda, acorda! Eu tive um sonho como que uma pessoa que veio me avisar que eu ía fazer o parto da minha mãe (DIÁRIO DE CAMPO, Maria Santana, 2020).
Mas, independente da cultura, é próprio da humanidade sonhar e se relacionar com seus sonhos. Mas é tão estranho o mundo dos sonhos e dos pensamentos, que décadas de estudo ainda não trouxeram uma explicação definitiva a respeito. O que seria o sonho ou um pensamento? Quais as suas origens e seus significados? Considerando que o sonho é uma forma de pensamento narrativo involuntário quem sonha quando eu assisto ao meu sonho? O mesmo eu que observa o pensamento que brota em minha alma?
Sigmund Freud, na obra A interpretação dos sonhos (1900), compreende o sonho a partir das repressões, como um grito a dizer o que o consciente se recusa a ouvir. Para Jung (2011), o sonho é a forma mais clara para o inconsciente se manifestar, a melhor expressão do que poderia ser dito nas limitações próprias do que estaria no inconsciente. Isso me faz pensar sobre o quê ou quem ali estaria?
O sonho representa processos inconscientes que não evidenciam uma relação com a situação consciente. Sonhos dessa espécie são muito peculiares e, devido ao seu caráter estranho, não podem ser interpretados facilmente. O sonhador se admira tanto por sonhar algo assim, pois nem mesmo uma relação condicional pode ser estabelecida. Trata-se de um produto espontâneo do inconsciente que porta toda a atividade e é altamente significativo. São sonhos imponentes. Sonhos que os indígenas designam de sonhos grandes. São de natureza oracular, somnia a deo missa (sonhos enviados por Deus). São experimentados como uma iluminação (JUNG, 2011, p. 18).
Outros povos indígenas têm no sonho um fenômeno importante, como podemos ver na concepção de sonho e do sonhar, na perspectiva de Davi Kopenawa (2015):
Os brancos não se tornam xamãs. Sua imagem de vida nôremi é cheia de vertigem. Os perfumes que passam e o álcool que bebem tornam seu peito demasiado odorante e quente. E é por isso que ele fica vazio. Eles não têm nem casa nem cantos de espíritos. Nenhum adorno de penas ou miçangas pertencentes ao xapiri foi colocado em suas imagens por seus antigos. Quando dormem, só veem no sonho o que os cerca durante o dia. Eles não sabem sonhar de verdade, pois os espíritos não levam sua imagem durante o sono. Nós xamãs, ao contrário, somos capazes de sonhar muito longe. As cordas de nossas redes são como antenas por onde o sonho dos xapiri desce até nós diretamente. Sem elas, ele deslizaria para longe e não poderia entrar em nós.
Por isso nosso sonho é rápido, como imagens de televisão vindas de terras distantes. Nós sonhamos desse jeito desde sempre, porque somos caçadores que cresceram na floresta. Omama pôs o sonho dentro de nós quando nos criou. Somos seus filhos e por isso nossos sonhos são tão distantes e inesgotáveis.Os brancos dormem deitados perto do chão, em camas, nas quais se agitam em desconforto. Seu sono é ruim e seu sonho tarda a vir. E quando afinal chega, nunca vai longe e acaba muito depressa. Não há dúvida de que eles têm muitas antenas e rádios em suas cidades, mas estes servem apenas para escutar a si mesmos. Seu saber não vai além das palavras que dirigem uns aos outros em todos os lugares onde vivem. as palavras dos xamãs são diferentes. Elas vem de muito longe e falam de coisas desconhecidas para as pessoas comuns. Os brancos que não bebem yâkoana e não fazem dançar os espíritos , as ignoram. Não são capazes de ver Hutukarari, o espírito do céu, nem Xiwâripa, o do caos. Tampouco veem as imagens dos ancestrais animais yarori, nem a dos espíritos da floresta, urihinari. Omama não lhes ensinou nada disso. Seu pensamento fica esfumaçado porque eles dormem amontoados uns em cima dos outros em seus prédios, no meio dos motores e das máquinas. Nós somos outros. Quando nossos olhos , durante o dia, morrem com o pó do yâkoana, â noite dormimos em estado de fantasma. Assim que adormecemos, os xapiri começam a descer em nossa direção. Não é preciso beber yâkoana de novo. Seus cantos misturados ressoam de repente na noite, como os gritos estridentes dos bandos de papagaios nas árvores. E logo percebemos na escuridão , seus inúmeros caminhos luminosos enredados se aproximando , cintilantes como o brilho da lua. |Então começamos a responder a seus chamados e, assim, seu valor de sonho chega a nós. Nosso corpo permanece deitado na rede , mas nossa imagem e nosso sopro de vida voam com eles. A floresta se afasta rapidamente . Logo não vemos mais suas árvores e nos sentimos flutuando sobre um enorme vazio, como num avião. Voamos em sonho para muito longe de nossa casa e de nossa terra, pelos caminhos de luz dos xapiri. ...Nós xamãs possuímos dentro de nós o valor de sonhos dos espíritos. São eles que nos permitem sonhar tão longe. Por isso suas imagens não param de dançar para nós quando estamos dormindo (KOPENAWA, 2015, p. 460).
Jordan Peterson, em seu Maps of Meaning (1999) ensina que o sonho é a terra natal do pensamento, da mesma maneira que os artistas são o nascimento da cultura.
Ora, na observação do que fala comigo nas mais diversas culturas e tradições perceberam em seu cotidiano entidades, seres que ora habitam a alma humana e possuem os humanos, ora estão nos animais e até nas forças da natureza.
A trama e a tessitura do destino e a compreensão da realidade vem dos elementos correspondentes que cada indivíduo traz dentro de si. Mas como saber de que advêm essas impressões e essa compreensão de mundo? Vem de nossos ancestrais que assim nos ensinaram. Como dizia Chesterton em Orthodoxy (1908.), a tradição é a democracia dos mortos, é a voz desses mortos que ainda opinam, ensinam, exortam; e quando nada mais tem a dizer, silenciam e descansam definitivamente pelo cumprimento de sua missão. Podem ficar em paz. Os mortos só descansam quando nada mais têm a ensinar. Mas onde estão esses mortos? Nos gestos de família que aprendi por mimetização e que são repassados a trinta gerações? Pela maneira de olhar, de sentir, de interpretar as dores, de selecioná-las e até de algumas me tornarem indiferente. Ou de desejá-las? Onde estão
esses mortos? Ou onde eles falam comigo? Melhor questionamento seria: como me abro a essas vozes incansáveis, já que minha ignorância ainda não permite seu descanso... (HILLMAN, 2015).
Após essas reflexões, acrescento elementos que são únicos na cultura Guajajara. Se minhas emoções, meu corpo, minha memória, minha cultura, meus correspondentes. Esses são todos os conhecimentos, sensações, referências que tenho e que, portanto, influenciam minha percepção de mundo, se alguém me diz algo que não se refere a nenhum correspondente, não tenho como saber ao que ele se refere a não ser por analogias e/ou aproximações. Meus ancestrais gritam de meu inconsciente, é necessário lembrar que a natureza é parente para os Tenetehara2. Eles possuem pessoas e rios como ancestrais, cantos que vêm de outro mundo e árvores que contam como seus avós. Quão rico deve ser o ensino dos sonhos de alguém que traz mais esses elementos.
E nesta tese procuro abordar a riqueza e o cultivo desse sonhar. O sonho como um professor mais completo, mais sábio, mais antigo. Mas como compreender que esses parentes falam nos sonhos, mas quando um Tenetehara acorda esses parentes ainda estão lá.
Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades. Fiquei muito apaziguado comigo mesmo hoje à tarde, quando mais uma colega das que falaram aqui trouxeram a referência a essa instituição do sonho não como uma experiência onírica, mas como uma disciplina relacionada à formação, à cosmovisão, à tradição de diferentes povos que têm no sonho um caminho de aprendizado, de autoconhecimento sobre a vida, e a aplicação desse conhecimento na sua interação com o mundo e com as outras pessoas." (KRENAK, 2019, p. 51).
O sonho é uma disciplina, uma tradição para diferentes povos, está relacionada à cosmovisão, a um processo de autoconhecimento e de relacionar-se com o mundo.