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O mínimo existencial tem como fundamento diversas questões que são caras ao

ordenamento jurídico brasileiro como a defesa das liberdades, garantindo a constante

presença das suas condições iniciais, sem as quais desaparecem as condições de

sobrevivência do homem52; princípios constitucionais, como, a igualdade, a liberdade e a

dignidade da pessoa humana; os próprios direitos fundamentais individuais, sociais e

50 TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário - Os direitos

humanos e a tributação: imunidade e isonomia. Vol. III. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. P. 145.

51 RAWLS, John. A Theory of Justice. Oxford: Oxford University Press, 1980. P. 156.

52 GARCIA PELAYO, Manuel. Las Transformaciones del Estado Contemporaneo. Madrid: Alianza, 1980. P

econômicos e, nos princípios setoriais da tributação, apresenta fortes liames com o

princípio da capacidade contributiva.

Diante deste contexto, o mínimo existencial passa a ser um verdadeiro direito

subjetivo, que, ao mesmo tempo, é protegido negativa e positivamente pelo Estado, dando

origem assim ao debate que tem como questão central o status negativus e positivus do

mínimo existencial.

O status negativus do mínimo existencial se ratifica, para o Direito Tributário,

por via das imunidades fiscais, ou seja, o poder de tributar do Estado não pode invadir a

esfera de liberdade mínima do cidadão representada pelo seu direito à subsistência.

Em alguns lugares, como na Europa, por exemplo, as imunidades recebem o

nome de isenção, mas somente como um apelido, posto que não se confundem com

aquelas de cunho eminentemente político, isenções, assim, não alcançam, nem estão

relacionadas à necessidade de preservar uma existência digna. De fato, a doutrina trata de

isenções diferentemente de imunidades, posto que as primeiras são mais voltadas para

aspecto político, sem que isso envolva questões de direitos fundamentais, enquanto que as

últimas servem justamente a esse fim. Assim, caso uma isenção trate de proteger os direitos

fundamentais, principalmente de existência do cidadão-contribuinte, terá ela status de

imunidade.

No próprio Direito brasileiro, as isenções concedidas aos produtos ditos da

cesta básica face ao IPI e ao ICMS, apesar de receberem a denominação de isenção, são, na

verdade, imunidades implícitas, pois o que caracteriza, de fato, a imunidade não é a fonte

formal e imediata de que provêm, mas a circunstância de ser um tributo dos direitos de

ainda podem ser citadas diversas outras como, o mínimo existencial familiar, que permite

as deduções de imposto de renda dos gastos realizados com os filhos e/ou dependentes.

Ademais, a própria proibição da incidência do imposto de renda em relação ao mínimo

imprescritível à sobrevivência do declarante, é uma imunidade, que, apesar de

infraconstitucional remonta a fontes constitucionais53.

Não obstante a existência dessas imunidades implícitas, há também aquelas que

aparecem explicitamente no Texto Constitucional, são elas:

a) Acesso à justiça e defesa de direitos – O direito de obtenção de

certidões e de petições aos poderes públicos, independentemente

do pagamento de taxas (art. 5º, XXXIV), a gratuidade do habeas

corpus e do habeas data (art. 5º, LXXIII e LXXII); a gratuidade do registro civil de nascimento e da certidão de óbito para os

reconhecidamente pobres (art. 5º, LXXI), além da assistência

judicial integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de

recursos (art. 5º, LXXIV);

b) Instituições assistenciais - O artigo 150, IV, alínea “c”, concede

imunidade às instituições assistenciais e de educação,

garantindo, assim, a imunidade do mínimo existencial;

c) Imposto territorial rural e pequenas glebas - Está assegurada

a imunidade do imposto sobre a propriedade territorial rural que

venha a incidir sobre pequenas glebas rurais, definidas em lei

(Lei 8847 de 29/01/1994, art. 7º), quando o seu proprietário não

53 TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário - Os direitos humanos

possua outro imóvel e, ainda, quando o explore só ou com o

auxílio de sua família.54

Além das imunidades, proteções negativas em relação ao mínimo existencial,

há que se destacar aquelas prestações positivas, igualitárias e de caráter geral, que

representam o status positivus libertatis.

O status positivus libertatis tem por escopo a garantia das liberdades, além da

garantia dos serviços públicos, remunerados através dos impostos gerais e das taxas,

quando tais serviços forem prestados de maneira específica, divisível e individual. Esses

serviços, mesmo sendo remunerados, serão gratuitos através da atuação do mecanismo

constitucional da imunidade das taxas e dos tributos contrapestacionais, como foi visto em

relação à prestação jurisdicional, da educação primária, da saúde pública, pelas subvenções

e auxílios financeiros a entidades filantrópicas e educacionais, públicas ou privadas, etc55.

Esse mínimo existencial, também, pode ser garantido através de prestações

positivas de natureza assistencial, mas de caráter subsidiário, que somente serão entregues

no caso de falha do serviço do sistema de seguridade, público ou privado, bem como

através da entrega de roupas, remédio e alimentos, especialmente em casos de calamidade

pública ou de assistência à população carente e necessitada, sempre com o escopo de

manter a sobrevivência dos pobres, ao menos em seus bens primários, sempre visando a

garantir as condições de liberdade dos cidadãos56.

54 TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário - Os direitos humanos

e a tributação: imunidade e isonomia. Vol. III. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. P. 145 e ss.

55TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário - Os direitos humanos

e a tributação: imunidade e isonomia. Vol. III. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. P 179 e ss.