Para pensar as questões que concernem ao direito da pessoa com defici-ência, nosso ponto de partida será a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), que, em seu artigo 205, diz que a educação é considerada dever do Es-tado e da família e deve ser concedida a todos, para garantir a escolarização e a formação para o trabalho (BRASIL, 1988). Percebe-se, aqui, que não há dis-tinção de público, ou seja, ela deve ser garantida a todos, independentemente de suas condições. Esse artigo abre a discussão para a ampliação da oferta de ensino para todos.
É importante considerar que a década de 1990 foi marcada por muitas conquistas de direitos por diversos grupos sociais, não só no Brasil, como no mundo. A Constituição Nacional precedeu esses movimentos, no entanto, seu texto em relação à Constituição anterior tem grande vocação humanista, con-siderando amplamente os Direitos Humanos como base para diversas partes de sua composição.
Como parte dos movimentos da década de 1990, a Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, na Tailândia, teve impor-tante relevância no cenário internacional. Nesse evento, foi produzida uma declaração que traz diversos pontos que serviram de base para discussões fei-tas posteriormente, como exemplo, os debates sobre a educação de adultos no mundo.
No texto da Declaração, há uma preocupação com os números elevados de analfabetismo no mundo, principalmente nos países em desenvolvimen-to. A Declaração Mundial sobre Educação para Todos considera a educação como um direito primordial, e, ao longo de seu texto, ela destaca a preocu-pação com a promoção de educação para todos, objetivando a equidade, considerando crianças, jovens e adultos. Há uma preocupação em evidência, referente aos grupos historicamente excluídos e também em relação às pes-soas com deficiência.
Outro documento de igual importância é a Declaração de Salamanca, fru-to da Conferência Mundial de Educação Especial, encontro ocorrido na ci-dade de Salamanca, no ano de 1994. Nesta declaração, tem-se um texto que inspirou documentos e leis de diversos países em relação à educação da pessoa
Na referida Declaração, são reafirmados pontos que identificamos presen-tes, tanto no texto da Constituição Federal brasileira, como no da Declaração Mundial sobre Educação para Todos. São destacados o direito à educação de todas as crianças, a exigência de financiamento voltado para atender as crian-ças com deficiência e a exigência de envolvimento político por parte dos paí-ses signatários, para que sejam incluídas nas escolas comuns as crianças com deficiência e que, para tanto, se garantam as condições necessárias.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) nº 9394/1996 (BRASIL, 1996), documento posterior à referida Declaração, já traz em seu corpo a ga-rantia de que as pessoas com deficiência tenham direito à matrícula na rede comum de ensino e atendimento educacional especializado gratuito, conso-lidando o que os documentos citados anteriormente preconizaram. Nesse contexto, considera-se a influência da Declaração de Salamanca sobre o texto da LDB.
No entanto, o Documento Subsidiário – Orientações para a implementa-ção da Educaimplementa-ção Especial na perspectiva da Educaimplementa-ção Inclusiva (2015) traz em seu texto uma consideração muito importante sobre esse período histórico:
Tanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) quanto a Resolução 02 do Conselho Nacional de Educação (2001) denotam ambiguida-de quanto à organização da Educação Especial e da escola comum no contexto inclusivo. Ao mesmo tempo em que orientam a matrícula de estudantes pú-blico alvo da educação especial nas escolas comuns da rede regular de ensino, mantêm a possibilidade do atendimento educacional especializado substituti-vo à escolarização (BRASIL, 2015, p. 10).
Fazendo essa crítica, o documento localiza no século XXI a mobilização que questionou as estruturas segregadoras dentro dos sistemas educacionais, buscando a construção da educação inclusiva, de modo que possa ser atendi-do o princípio constitucional mencionaatendi-do anteriormente.
Nesse mesmo cenário histórico, como fruto da mobilização das comunida-des surdas do Brasil, é promulgada, no ano de 2002, a Lei nº 10436, conhecida como Lei de Libras. Essa Lei reconheceu a Língua Brasileira de Sinais como meio de comunicação, com estrutura gramatical própria e outros recursos as-sociados, como sendo a língua das comunidades surdas do Brasil e instituiu a obrigatoriedade da disciplina Libras na formação inicial de professores e fonoaudiólogos.
Tal lei demandou um decreto para sua regulamentação, que foi publicado no ano de 2005. O Decreto nº 5.626/05 traz os diversos elementos que passa-ram a ser considerados necessários na educação e na saúde das pessoas surdas e deficientes auditivas a partir da promulgação da Lei de Libras.
Em virtude de tantas transformações existentes no cenário que envolve a educação de pessoas com deficiência, temos a elaboração de um documento fundante na educação do público-alvo da Educação Especial – A Política Na-cional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008.
Esse documento foi um divisor de águas dentro da Educação Especial no país, pois se políticas anteriores davam margem a possibilidades substitutivas à escolarização, a PNEE de 2008 apresenta de forma sistemática, em seu texto, a necessidade da universalização da matrícula na educação básica para todo o público-alvo da Educação Especial, bem como identifica o público a ser aten-dido e lança as bases do Atendimento Educacional Especializado, que mais tarde acaba por ser consolidado pelo Decreto nº 7.611/11.
Outro documento que não se pode deixar de citar é o Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024, que, na Meta 04, reafirma o direito à educação das pessoas com deficiência nas escolas comuns, observando os atendimentos especializados necessários nas salas de recursos multifuncionais.
Observam-se aqui processos históricos das transformações, tanto no ce-nário nacional, como no internacional, ampliando a discussão do direito à educação para todas as pessoas.
No contexto das Universidades Federais, destaca-se o Programa Incluir (2013), que pertence ao conjunto de ações do Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com deficiência - Viver sem Limites.
O Programa Incluir – acessibilidade na educação superior é executado por meio da parceria entre a Secretaria de Educação Superior - SESu e a Secreta-ria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversi-dade e Inclusão – SECADI, objetivando fomentar a criação e a consolidação de núcleos de acessibilidade nas universidades federais, as quais respondem pela organização de ações institucionais que garantam a inclusão de pessoas com deficiência à vida acadêmi-ca, eliminando barreiras pedagógicas,
arquitetôni-cumprimento dos requisitos legais de acessibilidade (BRASIL, SECADI/SESu, 2013, p. 03).
Pelo Projeto Viver sem Limites, várias ações foram implementadas na Ufes, sendo que uma delas foi a implantação do curso presencial de Bacharelado em Letras - Libras na Universidade alocada no Departamento de Línguas e Letras.
Para além de pensar as questões legais e políticas de implementação de ações de acessibilidade, abaixo descreveremos as ações cotidianas em dois re-cortes: o primeiro sobre a acessibilidade do sujeito surdo e o segundo sobre as ações de acessibilidade e inclusão na Ufes em Alegre, sul do Estado.