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Nos últimos anos, no Brasil, a Constituição conquistou, verdadeiramente, força normativa e efetividade. A jurisprudência acerca do direito à saúde e ao fornecimento de medicamentos é um exemplo emblemático do que se vem afirmar. As normas constitucionais deixaram de ser percebidas como integrantes de um documento estritamente político, mera convocação à atuação do Legislativo e do Executivo, e passaram a desfrutar de aplicabilidade direta e imediata por juizes e tribunais.

Nesse ambiente, os direitos constitucionais em geral e os direitos sociais em particular converteram-se em direitos subjetivos em sentido pleno, comportando tutela judicial específica. A intervenção do poder Judiciário, mediante determinações à Administração Pública para que forneça gratuitamente medicamentos em uma variedade de hipóteses, procura realizar a promessa constitucional de prestação universalizada do serviço de saúde.

Werner e Vianna (1999) analisam o processo de invasão do direito nas esferas da vida social brasileira a partir da Constituição de 1988. Resultado de uma pesquisa sobre poder Judiciário em suas relações com a política e a sociedade do País, demonstram como por meio dos Juizados Especiais Cíveis as expectativas por direito e cidadania de setores socialmente emergentes têm se tornado um fenômeno social cada dia mais expressivo.

Embora considerem ser um fato corrente em países de democracia avançada, os autores acreditam que esse processo num país como o Brasil aponta para duas direções: por um lado, pode ser enriquecido e renova pela apresentação política como espaço de mediação para uma democracia mais participativa, mas, por outro, pode se tornar uma panacéia da “ratio legis” política aos valores perversos do poder historicamente constituídos no País.

Afirmam que a crescente institucionalização do direito na vida social, presente no atual mundo democrático, tem-se tornado cada vez mais dominante, visto que a imposição do livre mercado também passou a ser matéria jurisdicionada pelo direito, requerida pelos grupos organizados corporativamente, em que Werner e

Vianna acrescentam que “fazendo do direito e dos seus procedimentos uma presença constituinte do capitalismo organizado” (1999, p. 25).

Ainda para os autores, os esgarçamentos dos vínculos sociais produzidos na contemporaneidade, pela disfuncional idade do “État Providence”, e a decadência de sua fórmula autonomizada de uma agenda igualitária teriam provocado na sociedade uma expectativa moral fundada a partir da idéia de justiça social, como um último refúgio de um ideal democrático desencantado.

Tal processo é identificado por ele, como um fenônemo universal de [...] migração do lugar simbólico da democracia, para o da justiça, sendo o avanço e expansão deste último [...] inversamente proporcional ao descrédito que afeta as instituições políticas clássicas, em razão do desinteresse existente sobre elas e a perda do espírito público. [...] a justiça assumiria o lugar da política, na falta desta (WERNER; VIANNA, 1999, p. 32).

Apesar dos avanços do SUS desde sua criação, dificuldades em garantir o acesso da população brasileira aos medicamentos são ainda bastante visíveis. Entre as estratégias aplicadas para a garantia desse direito, um fenômeno vem crescendo recentemente e já tem sido considerado grande ameaça à sanidade financeira e administrativa do SUS: os mandados judiciais para fornecimento de medicamentos (LEITE et al., 2007).

Nesse contexto, alguns autores definem o termo “Judicialização” da política como a utilização de mecanismos tipicamente judiciais (análise de constitucionalidade e legalidade, utilização de silogismos jurídicos, emprego de raciocínios de licitude/ilicitude, entre outros) na arena de deliberação política (MARQUES; DALLARI, 2007).

Tendo início nos anos 90, a Judicialização do acesso a medicamentos reflete, em parte, a conscientização de uma parcela da população no que se refere aos seus direitos. Entretanto, a situação atual, com milhares de mandados judiciais consumindo milhões de reais em recursos públicos, tem causas complexas, em que os interesses legítimos − coletivos ou individuais − nem sempre vêm em primeiro lugar. Má gestão, pressão das indústrias farmacêuticas e falhas na formação dos médicos são alguns dos fatores que impulsionam uma verdadeira bola de neve que ameaça atropelar outros programas e projetos na área da saúde (VASCONCELOS; LOPES, 2006).

Podemos citar como exemplo dessa situação a demanda para fornecimento de medicamentos por decisão judicial na Diretoria de Assistência Farmacêutica do Estado de Santa Catarina, a qual iniciou suas atividades em 2003 e teve um crescimento de 1 para 3.510 mandados em 2007.

O crescente número de ações judiciais enseja a necessidade de investigar o fenômeno. As dificuldades da população parecem evidenciar-se tanto no acesso aos medicamentos de atenção básica quanto no desconhecimento sobre o papel de cada instância de gestão no processo (MESSEDER; CASTRO; LUIZA, 2005).

As ações judiciais existentes revelam que a Política Nacional de Medicamentos e suas diretrizes são desconsideradas, em franca contraposição à tendência internacional de racionalizar o uso de tecnologias na área da saúde (DOBROW; GOEL; UPSHUR, 2004; QUICK, 2003).

Para tanto, o sistema judiciário bem como o executivo precisam encontrar uma solução partilhada para que o direito do cidadão brasileiro à assistência terapêutica integral seja garantido, com medicamentos seguros, eficazes e com relação custo/efetividade mais favorável de acordo com a melhor e mais forte evidência científica disponível, sem causar as distorções observadas atualmente.

3 A ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA NA SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE

A Assistência Farmacêutica e a questão do acesso a medicamentos têm se apresentado como um dos maiores dilemas atuais na gestão do Sistema Único de Saúde. O avanço de novas tecnologias, os custos crescentes, a medicalização dos conflitos e da subjetividade da vida, a disputa de interesses mercadológicos promovidos pela indústria farmacêutica e a interferência do poder Judiciário na política de saúde requerem esforços e responsabilidades das três esferas de gestão.

A superação do modo atual exige o entendimento de que a Assistência Farmacêutica seja entendida como um componente estratégico no desenvolvimento da política de saúde, ordenada de forma integrada e em conformidade com a organização da rede de serviços e ações de saúde. A Assistência Farmacêutica não se reduz à aquisição e à distribuição de medicamentos, devendo ser planejada e executada no contexto do planejamento e da execução das ações e dos serviços de saúde municipal, estadual e federal.

3.1 A DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA FAMACÊUTICA NO ESTADO DE SANTA

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